I
P: Dá pra saber de quando e de onde vem essa ideia de "consultório sentimental"?
BM: O consultório sentimental se inscreve numa tradição do Ocidente e pode ser datado de Sêneca, que escreveu sua obra respondendo cartas de leitores. O consultório mais conhecido do Brasil é o do Nelson Rodrigues, cujas colunas estão reunidas num livro. Nelson Rodrigues inventou uma personagem chamada Myrna, uma cartomante, e ele respondia da posição dela. As colunas são lindas. O meu consultório tem como referências a psicanálise e a literatura. Respondo da posição do escritor que tem formação analítica, procurando transmitir duas ideias: a de que a liberdade é possível e a de que o inconsciente existe. Na verdade, trata-se de uma só ideia: a liberdade é possível se levarmos em conta a existência do inconsciente. A liberdade do sujeito depende da sua história, ou melhor, da rememoração e da reinvenção da sua história. Assim, por exemplo, a revolução sexual dos anos 60 liberou o sexo, mas, por outro lado, foi tirânica, porque obrigou as pessoas a transar. Nós apenas somos livres quando escapamos aos imperativos da moda. No meu livro, explico por que o sexo só é livre quando não há nem repressão, nem obrigação e nem compulsão.
P: Você já parou pra pensar o que leva alguém a escrever a uma pessoa desconhecida pedindo um conselho pra sua vida? É solidão?
BM: O que leva o leitor a me escrever é o desejo de ser escutado. Porque a escuta verdadeira é rara. As pessoas ouvem, mas não escutam. A maioria das pessoas, aliás, não se escuta. Por isso é que a análise existe, e o que eu quis no meu consultório sentimental foi colocar a escuta analítica ao alcance de todos. Nunca pretendi curar pelo jornal, porque essa possibilidade não existe. Partindo da pergunta, procuro oferecer alternativas novas. Conselho eu não dou, porque não adianta. Indico caminhos, dou referências. Na realidade, nós ficamos perdidos depois da revolução sexual, pois surgiram questões sentimentais de que nem a família e nem a escola dão conta.
P: Na apresentação do livro, você diz que "assume a posição do escritor que tem formação psicanalítica e não de analista". Explica isso melhor, por favor.
BM: O analista ouve e só intervém quando o analisando está no ponto de encontrar a resposta. Ou seja, dispõe da continuidade das sessões para isso. O consultório sentimental se limita a uma pergunta e a uma resposta. Não é possível ocupar a posição do consultor da mesma maneira que se ocupa a posição do analista, pois as condições de trabalho são completamente diferentes.
P: Imagino que seus conselhos ou orientações são todos baseados na psicanálise, não é? Fale sobre isso.
BM: Não dou conselhos, mas como a minha orientação é analítica, eu levo o sujeito a se debruçar sobre a sua própria história e a olhar para ela com olhos novos, ou melhor, escutá-la com outros ouvidos. Não existe recurso mais poderoso, mais vital do que a escuta. Bastaria que Freud tivesse descoberto isso para justificar a psicanálise – caso ela precisasse ser justificada, não precisa. Ainda que nos Estados Unidos, por exemplo, ela esteja em vias de desaparição. Talvez por não terem surgido lá analistas capazes de encontrar formas de transmissão compatíveis com a cultura americana, que é extremamente pragmática. Nos Estados Unidos, time is money, e o analista precisa levar isso em conta lá, mesmo que o time is money nada tenha a ver com a cura analítica. Nesta, a relação com o tempo é de outra ordem, porque é sempre por acaso que a gente diz o essencial. O melhor exemplo disso é o lapso. Através dele, a gente expressa sem querer o que verdadeiramente deseja. O fato é que o modo de transmissão que serve num país não serve noutro. Para transmitir a psicanálise lacaniana no Brasil, nós brasileiros recorremos ao jornal e, na época, nos anos 80, foi um procedimento novo, inimaginável na França, por exemplo. Refiro-me ao grupo do Colégio Freudiano, que fundei com Magno Machado Dias no Rio de Janeiro. Foi um grupo original, porque não nos restringíamos à escuta no âmbito do consultório.
P: Como assim?
BM: Fomos os primeiros a ouvir os carnavalescos. O CFRJ publicou em livro uma entrevista maravilhosa do Joãosinho Trinta, em que ele falou da sua homossexualidade. Na época, isso causou surpresa. Escrevi um livro chamado Os bastidores do Carnaval, que resultou da escuta dos carnavalescos nas escolas de samba do Rio de Janeiro. Só depois da edição desse livro a televisão passou a se interessar pelo que acontecia nos barracões, ou seja, nos bastidores do desfile.
P: E você não tem que abrir mão de nenhum "princípio" psicanalítico para fazer esse trabalho?
BM: Não. Simplesmente porque eu não me proponho a fazer o que eu não posso fazer no âmbito do consultório sentimental, não caio na armadilha de quem pretende curar ou salvar. Não respondo à demanda para não enganar o meu leitor. Indico a ele um caminho. Parto do seu caso singular, considero o discurso, o estilo, as repetições e os lapsos e procuro encontrar o que há de universal no caso, para que o sujeito aprenda a se escutar e os outros leitores se identifiquem e possam tirar uma lição da coluna. O drama de uma mulher que foi estuprada pelo pai pode se tornar universal, se mostrarmos a sua universalidade. Para fazer isso, eu frequentemente recorro à literatura. Daí as tantas notas do Fale com ela, que eu escrevi evocando os meus autores prediletos, os autores com quem eu própria me eduquei. Como Octavio Paz, cuja obra A dupla chama é um livro de cabeceira para mim. Trata-se de um grande ensaio sobre o amor, que Paz escreveu com mais de 80 anos. Tive o prazer de entrevistá-lo longamente em Paris.
P: Parece que as mulheres escrevem mais do que os homens, não é? Você já descobriu por que isso acontece?
BM: Você está se referindo aos leitores da coluna? Se for isso, respondo que recebi mais e-mails de mulheres, porque elas se autorizam mais a falar dos próprios sentimentos. Até recentemente, os homens nem chorar podiam. Agora, os tempos mudaram, mas, ainda assim, o machismo tende a inibir a fala. Macho que é macho não fala de si. Porque, para ele, falar é dar o braço a torcer. Sendo contrário à contenção, o machismo está fundado na repressão.
P: Há casos mais difíceis de serem respondidos? Quais e por quê?
BM: Todos os casos são surpreendentes e difíceis, porque são tratados na sua singularidade. Não há dois casos iguais e, para dizer a verdade, não me lembro de casos que se assemelhem. A cada vez, eu respondo a uma questão única. Procurei esquecer o que sabia para aprender no ato de responder. Quem lê as colunas tem a impressão de estar lendo contos da vida real. Daí, talvez, a forma de diagramação do livro, que apresenta as colunas como contos. Olhada de perto, a vida real é inacreditável, faz pensar na ficção. Também por isso o consultório sentimental é interessante, ele revela fatos inimagináveis.
P: Quais os assuntos mais frequentes? Sexo? Ou você diria Amor? Por quê?
BM: Não sei quantas colunas eu respondi sobre sexo e quantas sobre amor ou outro assunto. O que eu sei é que a dependência sexual é nefasta e é preciso se educar para escapar disso. As pessoas frequentemente confundem essa dependência com o amor, mas não tem nada a ver, porque o amor libera. Neste livro, eu escrevi uma máxima para cada coluna e uma delas é QUEM AMA LIBERA. Octavio Paz diz que “o amor é uma aposta extravagante na liberdade”. Levei um bom tempo para entender a frase, que depois inspirou a máxima.
P: Parece que a fala é o grande "instrumento" da psicanálise. Dá para analisar essa "fala" quando ela é escrita?
BM: Esta questão é ótima. A pergunta do leitor chega por e-mail, trata-se, portanto, de um texto. Mas o que interessa na análise é justamente o texto implícito na fala. Habitualmente, só a fala é escutada. O psicanalista escuta o texto a ela subjacente. Daí a relação da escuta analítica com a escrita, da psicanálise com a literatura. Para Lacan, a poesia e a psicanálise são irmãs gêmeas. Prova disso são os tantos neologismos que ele inventou. Como, por exemplo, falesser, que designa o ser humano, um ser que nasce através da fala e vive prometido à morte. Nasce para um dia falecer.
P: Por que publicar este livro? A quem ele se destina? Quem, na sua opinião, vai se interessar por ele?
BM: O livro se destina a quem quer se debruçar sobre a vida alheia para meditar sobre a própria, às pessoas de todas as classes sociais e de todas as tendências sexuais. Aos homos, aos héteros e aos que eu chamo de falanjos, aqueles cujo sexo é como o dos anjos, ou seja, ambíguo. Refiro-me aos bissexuais, aos transexuais e aos travestis. Fale com ela pode ser lido como um romance, ou como uma nova educação sentimental. Mas também como o romance propriamente dito. E há mesmo um cujo título é A educação sentimental. Refiro-me a Flaubert, que, além de romancista, foi um educador.
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Entrevista concedida ao jornal Hoje em Dia, Belo Horizonte, 2007.
II
P: Como foi que surgiu o Fale com ela?
BM: Há muito eu queria responder a cartas de leitores. Desde os anos 80, quando O Globo me convidou para substituir Shere Hite, autora do Relatório Hite sobre a sexualidade. O jornal me pediu para fazer um teste, mas não aprovou a resposta, pois não era politicamente correta. Passadas duas décadas, propus o consultório sentimental ao Otavio Frias Filho. Depois de um teste em que respondi a três cartas de leitores, a Folha de S. Paulo aceitou a proposta. Em vinte anos, houve uma evolução dos costumes, uma liberdade de expressão maior se tornou possível. O que a modernidade precisa, depois da “revolução sexual” é de uma nova educação sentimental.
P: Podia explicar isso?
BM: Quando se fala em sexualidade, é preciso mencionar Alfred Kinsey, cujos relatórios O comportamento sexual do homem (1948) e O comportamento sexual da mulher (1953), foram subversivos. Mostraram que os homens e as mulheres transgrediam secretamente as regras estabelecidas. O primeiro relatório mostrou que 50% dos homens tinham atração por homens até o fim da adolescência. Que 54 % dos solteiros de 30 anos tiveram relações homossexuais e 37 % dos homens tiveram pelo menos uma relação homossexual na vida. Os números falavam e falam por si. O segundo relatório mostrou que 62% das mulheres se masturbavam. Que um terço das mulheres casadas tinha tido uma relação sexual antes de casar. A repercussão do relatório Kinsey no mundo inteiro foi enorme. Provocou um escândalo liberador. Quem podia insistir nos tabus diante dos dados apresentados pelo cientista visionário? Isso foi nos anos 40 e 50. Depois, nos anos 60, houve a “revolução sexual”, condicionada pela descoberta da penicilina e da pílula. Já não havia por que ter medo da sífilis e da gravidez indesejada. A palavra de ordem era transar livremente, sem freio algum. Foi um grande passo à frente. Mas existiu o outro lado da moeda. Nós escapamos da repressão imposta às gerações anteriores, só que, para ser liberada, a mulher precisava dizer sim a todas as propostas masculinas e o homem precisava obedecer o imperativo de ter uma atividade sexual intensa. Houve uma tirania do sexo, nós éramos obrigados a transar para provar que éramos livres. O que aconteceu nos anos 60 mostra que, sem uma educação sentimental consequente, baseada nos conhecimentos da psicanálise, a verdadeira liberdade sexual não existe. Porque ela depende da liberdade subjetiva, que nenhuma revolução ensina. O sexo só é livre quando escapa à incriminação, à obrigação e à compulsão. Ou seja, quando o sujeito é livre e isso é uma conquista. Nós não nascemos livres, podemos nos tornar livres, além de independentes.
P: Em que consiste a nova educação sentimental?
BM: Uma educação que procura transmitir duas ideias. Primeiramente, que é tão possível se liberar dos preconceitos quanto da tirania da moda. A exemplo disso, a tirania a que eu já me referi – a de ter que chegar ao orgasmo, meta que os sexólogos impuseram à sexualidade e contra a qual Bruckner e Finkielkraut se rebelaram em A nova desordem amorosa (1977), mostrando que a liberação sexual se acompanhou de uma codificação rígida, em que o modelo da sexualidade passou a ser a sexualidade masculina. A segunda ideia da nova educação sentimental sustenta que, para não estar continuamente sujeito ao inconsciente, é preciso levar em conta a sua existência e decifrá-lo quando isso se impõe.Trata-se de uma educação que procura fazer a palavra liberdade ressoar, valorizando a particularidade de cada história e promovendo a diferença de cada um. Isso é o que eu procuro fazer na coluna.
P: Como é que você desenvolve a coluna?
BM: Me baseio na queixa e no pedido do leitor, assim como no estilo do seu texto, nas repetições e nos lapsos. Procuro esquecer o que estudei para me debruçar livremente sobre a pergunta – até encontrar a resposta que ela sugere. Só então eu me remeto às minhas leituras, a fim de ilustrar a afirmação com textos de outros autores, os que mais me marcaram ao longo da vida e, de certa forma, serviram para a minha própria educação sentimental. A coluna se inscreve numa tradição da nossa cultura – a do consultório sentimental, que data da antiguidade. Assim, na maioria de suas cartas e tratados morais, Sêneca atende a amigos que escrevem pedindo conselhos. No Brasil, o consultório sentimental mais conhecido foi o de Nelson Rodrigues, que se valia do pseudônimo Myrna e respondia como se fosse uma cartomante.
P: Quais são os temas preferenciais dos leitores que escrevem para a coluna?
BM: Os temas são os mais variados, porque recebo e-mails dos dois sexos e de todas as camadas sociais. Da mulher desesperada porque deseja que o marido seja violento na cama. Da que é infeliz por gostar de um homem que “é tudo na cama”, porém “é um cachorro”. Do marido que veste a esposa de call girl e se maldiz por ser exibicionista. Do rapaz que prefere o amigo à namorada para transar, só que não gosta de gay. Do jovem da favela, que não sabe se vai pelo caminho do crime ou pelo caminho do bem. Respondi inclusive a um policial que me escreveu perguntando como aplicar a lei sem ser violento. Mas a maioria das pessoas quer orientação relativa a questões de amor ou sexo.
P: Qual a carta de leitor que mais a surpreendeu?
BM: A carta do policial. Não podia imaginar que o Fale com ela tivesse sensibilizado a polícia. Isso significa que, além de um efeito no plano subjetivo, a coluna tem um efeito social. Justamente porque eu não parto do conhecimento, mas do meu não-saber. Suspendo o conhecimento da teoria para me deixar surpreender pela questão do leitor e vir a saber algo novo graças a ela. Só estou interessada na novidade que o trabalho revela.
P: A que você atribui o sucesso do projeto?
BM: A coluna revela ao leitor a sua particularidade. Acho que isso é uma novidade na imprensa. Em geral, quem faz consultório sentimental assume a posição de quem aconselha ou cura. Não faço nem uma coisa nem outra. Não acredito na eficácia do conselho e sei que não existe cura pelo jornal. O que me interessa é fazer o método analítico vigorar e levar os leitores a se identificar com quem enviou o e-mail ao qual respondo.
P: Antes de Fale com ela, você esceveu um ensaio muito polêmico e três romances sobre o amor…
BM: Em 1983, a Editora Brasiliense lançou O que é amor, um livro controvertido por eu ter escrito que o amor no Brasil é diferente do amor na Europa, cuja referência é Tristão e Isolda, é Romeu e Julieta…Estes amantes querem o impossível e só vislumbram uma saída através da morte. Nós, brasileiros, não cultuamos o amor infeliz. Valorizamos a alegria e cultuamos o brincar. Acho que isso causou polêmica na época por causa do nosso desejo de ser iguais aos europeus. Seja como for, o livro foi bestseller e depois foi reeditado pela Record com o título E o que é o amor.
P: E os três romances de amor?
BM: Escrevi três romances nos quais os personagens falam livremente de amor e de sexo. No primeiro e no segundo, O sexophuro e A paixão de Lia, o que me interessava era dar voz ao desejo feminino, porque eu estava às voltas com essa questão. Escrevi A paixão de Lia depois de ter ouvido o monólogo da grande personagem feminina de James Joyce, Molly Bloom. Fiquei maravilhada, mas achei que ela sustentava o desejo do gozo sem dar asas ao imaginário erótico feminino, não era tão livre como eu gostaria que fosse. Depois de A paixão de Lia, escrevi O amante brasileiro para dar voz ao desejo do amor que é indiferente ao sexo das pessoas.Os três romances formam uma trilogia. A primeira parte é a história de uma mulher infeliz. A segunda parte diz respeito a uma mulher que é feliz porque tem liberdade de imaginar, mas não encontra o amante que procura. A terceira parte é a experiência do amor feliz entre um homem e uma mulher, Clara e Sébastien. Todos os personagens são atrevidos – e, se eu tivesse escrito nos anos 70, os livros teriam sido censurados. Por sorte, o que me interesssava naquela época era viver a experiência da liberação sexual. A escrita veio depois. Seja como for, também foi por ter escrito os três romances que eu fiz o Fale com ela. A literatura possibilitou várias descobertas de que eu me vali neste livro.
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Entrevista concedida à jornalista Thaís Oyama, que serviu de base para o perfil da autora, publicado sob o título de “Você fala e ela escuta de verdade” na revista Veja, 4/04/2007.
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