I
P: Vários trechos do livro narram passagens aparentemente prosaicas em que você teve insights sobre a vida. O trecho “basta não ser insensível à magia para que ela aconteça” seria uma boa chave para a obra?
BM: A frase que você cita é uma ótima chave. O livro, aliás, começa com uma frase do André Breton que diz a mesma coisa: “A aventura mora na esquina”. A gente pode se surpreender e aprender continuamente. Inclusive olhando uma vaca no pasto. Aliás, uma das crônicas do livro se chama “Quando a vaca ensina”. Foi uma crônica que eu escrevi numa cidadezinha do Vale do Loire, Villedieu-la-Blouère. Fica no campo. Eu frequentemente saio para andar de bicicleta e olhar as vaquinhas. Um dia, olhando para uma delas, me dei conta de que precisava conquistar a natureza calma da vaca, e essa ideia deu origem a uma crônica sobre a importância da contemplação para nós. Não é por acaso que os chineses a valorizam tanto e são longevos.
P: Como não ser insensível à magia?
BM: Treinando o olhar e a escuta, que é uma fonte contínua de surpresa e renovação. Mas também podendo olhar e escutar com os olhos e os ouvidos do coração.
P: Os textos também falam sobre a importância da imaginação para o ser humano superar as limitações da realidade.
BM: Em muitas crônicas, eu abordo o tema. Numa delas, focalizando a frase “Navegar é preciso, viver não”, que já existia na Idade Média. O que me levou a pensar nessa frase foi a visita a um museu de Oslo, onde eu vi o túmulo dos vikings, que eram enterrados no próprio navio. Imaginar é fundamental para suportar a realidade em certas circunstâncias. Digo no livro que, sem o poder da imaginação, não teria sido possível sobreviver no Gulag ou no campo de concentração.
P: Como manter viva a fantasia e a imaginação?
BM: Não se deixando intoxicar pela fantasia e a imaginação alheias. Não consumindo livros, filmes, discos continuamente. Deixando o vazio existir. Quando eu estou escrevendo, por exemplo, eu só leio e só vejo o que diz respeito ao que estou fazendo. A música não interfere.
P: Os textos foram escritos no intervalo de alguns anos e no espaço de muitas viagens pelo Brasil e pelo exterior. Que papel esse conjunto ocupa na sua obra?
BM: As crônicas fazem parte dos textos que eu escrevo para viver. Para suspender a minha hora e ir longe com o meu imaginário e ser feliz dessa maneira. Não tem nada a ver com o romance, por exemplo, que requer um trabalho considerável de pesquisa e de orquestração dos dados. No romance que vou lançar no ano que vem, eu já estou há quatro anos. Para fazer O Papagaio e o Doutor,levei cinco. As crônicas, eu escrevo com facilidade, embora haja um trabalho estilístico, a procura da forma mais contundente, do ritmo mais eficaz.
P: As viagens provocaram o livro ou vice-versa?
BM: Nem todas as crônicas foram escritas a partir de viagens. Algumas eu escrevi por ter olhado pela janela, outras, por ter ido até a esquina. Notre-Dame fica perto da minha casa, em Paris, e a primeira crônica do livro foi escrita porque eu fui visitar a igreja pela enésima vez, e, nessa ocasião, talvez por causa da luz, fiquei literalmente perplexa com os vitrais. Foi essa primeira crônica que deu título ao livro: quando Paris cintila.
P: Como foram escolhidos os lugares visitados?
BM: Há viagens que eu fiz a trabalho. Por exemplo, a viagem para a China. Fui lançar o Paris não acaba nunca no Salão do Livro de Pequim e depois aproveitei para fazer a rota da seda. Meu marido, que hoje já não está, era historiador, falava muito em Dunhuang, que fica nessa rota e é o maior centro de arte budista do mundo. Os ascetas se radicaram lá durante dez décadas, pintando e esculpindo as suas visões. Maravilha absoluta. Outras viagens, eu fiz com o meu companheiro de hoje, Jean Sarzana, a quem o livro é dedicado. Antes de trabalhar na Sociedade dos Autores, em Paris, ele trabalhava no Sindicato Nacional dos Editores e precisava viajar muito. Aproveitei o quanto pude para conhecer lugares. Fui para Oslo, Istambul, Tessalônica... Para a Índia, eu fui com meu filho, que me deu um xeque-mate. “– Só viajo com você, mãe, se nós formos para a Índia.” Fomos e as crônicas sobre a Índia desabrocharam na viagem de Madras a Madurai. Nós estudávamos muito para saber o que estávamos vendo, entender o comportamento das pessoas. O indiano se autoriza a dormir ou meditar em público, entrega-se a si mesmo em qualquer lugar. Por isso eu digo que a Índia merece ser chamada de “Mother India”.
P: O livro pretende provocar ou confortar o leitor?
BM: Por um lado, provoca. Por outro, conforta. Exatamente como o meu consultório sentimental. Só que eu não escrevo com a pretensão de fazer isto ou aquilo. Vou escrevendo...
P: Em “Quando a árvore é uma grinalda”, você diz que prefere “a escrita ao turismo, o computador ao avião”, ou seja, escrever a viajar, e que “não é preciso sair do lugar para ir à China”. No entanto, os lugares visitados por você parecem ter um papel fundamental nas suas experiências e nos seus escritos, não?
BM: A tudo eu prefiro escrever, ficar calada e ver as palavras surgirem milagrosamente na tela do computador. Fiz o possível e o impossível para ser escritora. Quando achei que já tinha cumprido a minha missão relativa à difusão do pensamento lacaniano, ou seja, fundado o Colégio Freudiano do Rio de Janeiro, cujo papel foi muito relevante, limitei a minha atividade clínica para dispor de mais tempo para escrever. O lugar que eu prefiro para isso é a minha casa, embora eu escreva em qualquer lugar. Numa certa época, sempre que podia, ia escrever nos bares de Paris, no meio das pessoas. Não tenho problema de concentração. Agora, eu adoro viajar e estou sempre com o pé na estrada. Daí eu aproveito a viagem para tomar notas e escrever na volta. Quando Paris cintila é o resultado disso.
P: Ocorreu-lhe que os textos talvez despertem no leitor a vontade de refazer as viagens que você fez?
BM: Tomara que isso aconteça e quando Paris cintila se torne, como Paris não acaba nunca, um guia poético que o turista leva junto com o guia tradicional.
P: Você suprime pontuação e letras maiúsculas. Por quê? Qual a função do recurso?
BM: A maiúscula e o ponto final são usados para pontuar o texto segundo normas estabelecidas. Eu não uso esse recurso gramatical nas crônicas, porque a minha pontuação aí é função do ritmo. Trata-se de uma pontuação poética, que eu faço me valendo do espaçamento. Mas, nos textos cujo estilo é mais tradicional, como o Consultório Sentimental ou as entrevistas para jornal, eu uso a pontuação gramatical.
P: Você é psicanalista e também escritora, artista. No livro, há muitas referências explícitas à arte e poucas à psicanálise. Por quê?
BM: A referência principal do livro é a arte, mas a psicanálise permeia todas as minhas meditações.
P: Você já respondia a questões de leitores nas páginas da Folha de S. Paulo e exerce essa atividade no site da Veja. O que essa experiência lhe trouxe?
BM: O mais importante foi ter descoberto uma maneira nova de fazer o consultório sentimental, que existe desde a antiguidade – o Nelson Rodrigues fez também. A novidade consiste em responder à questão do leitor sem a pretensão ilusória de solucioná-la. De tal maneira que ele encontre uma dica útil, e os outros possam se reconhecer no problema que, assim, se torna universal.
P: Qual a repercussão do trabalho? Houve casos de pessoas lhe pedirem conselhos na rua?
BM: A repercussão do trabalho é boa. Estou no meu terceiro ano. Ninguém me pede conselhos na rua, porque eu não dou conselhos na coluna. Ensino o leitor a se debruçar sobre a questão subjetiva e levá-la a sério. Trata-se, na verdade, de uma nova educação sentimental.
P: Como é falar sobre questões tão íntimas para uma pessoa, sabendo dela apenas um fragmento enviado por carta ou e-mail?
BM: O fragmento é revelador. Às vezes, basta uma frase, uma palavra. Fui formada por Lacan, que dava ênfase à palavra, ao sentido, e não à significação Há conceitos de Lacan, resumidos numa só palavra, como, por exemplo, falesser, que diz respeito ao sujeito. O termo engloba o falo, a fala e o falecer, ou seja, o amor, a vida e a morte.
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“A tudo eu prefiro escrever”, entrevista concedida a Jadyr Pavão Jr., publicada no site Veja.com, São Paulo, 13/03/2008
II
P: Você disse que escreveu Paris não acaba nunca como quem se despede. Como você escreveu quando Paris cintila?
BM: Como quem não se cansa de assistir ao espetáculo do mundo e sabe que ele um dia acaba.
P: Qual a relação que você estabelece entre os dois livros?
BM: Paris não acaba nunca é uma errância em Paris, a cidade em que eu me prometi viver, aos 18 anos, vendo a Vitória de Samotrácia no Louvre. O impacto da beleza foi tal que eu desejei ardentemente morar naquela cidade. Quando a ocasião surgiu, eu fui. Surgiu primeiro graças ao meu encontro com Lacan e depois com meu marido, Alain Mangin, que já não está. Era historiador e me formou na cultura francesa. Colaborou no Paris não acaba nunca, que é, no começo, um diálogo com escritores como Hemingway, Joyce, Fitzgerald e Victor Hugo. Com eles, o leitor anda pelos diferentes quarteirões e pelas margens do Sena, vê o desabrochar da primavera e as árvores amarelo-ocres do outono, senta-se nos bares para tomar um bordeaux ou um beaujolais. Descobre, através da leitura, que é possível se surpreender a cada passo. E, como Paris não é Paris sem as lojas de gastronomia, se deleita com o que o texto revela sobre uma cozinha tão pródiga em queijos e vinhos quanto o Carnaval brasileiro em fantasias e máscaras. Com esse livro, eu aprendi o quão importante é a gente se deixar guiar pelo que vê, se perder nos lugares para descobri-los de verdade. Daí, eu insensivelmente parti para o quando Paris cintila, que reúne crônicas cujas ideias surgiram em vários lugares do mundo – Paris, Barcelona, Oslo, Istambul, Tessalônica, Pequim, Dunhuang (na rota da seda), Madras, Ouro Preto, Praia do Forte ou Nova York. Mas foram todas escritas em Paris, onde eu moro uma parte do ano há décadas, precisamente para escrever. Usei acima a palavra insensivelmente porque não tinha a intenção de escrever o livro quando comecei. Fui escrevendo uma crônica depois da outra por prazer e, de repente o livro estava pronto.
P: O que levou você a compartilhar suas perplexidades e reflexões em um livro?
BM: A cada perplexidade, frequentemente nascida de um fato trivial, eu sentia a necessidade de expressar com clareza o que eu havia visto ou escutado com clareza. Na verdade, o livro é feito de pequenas iluminações. Posso inclusive usar o termo epifania.
P: Não é a primeira vez que você escreve sem usar maiúsculas nem ponto final. O que a fez optar por esse estilo?
BM: A convenção gramatical sempre me contrariou, porque na minha escrita o que importa é o ritmo, e é a ele que a frase deve obedecer. Lutei para encontrar a minha forma. Foram muitos livros para chegar a ela. Ou melhor, para poder me exercitar em diferentes formas. Uma das vantagens do texto sem maiúscula nem ponto final é que o leitor pode entrar nele com mais facilidade, criando a sua própria pontuação. Eu escrevo para ser lida e, se possível, muito lida.
P: Quando você adotou esse estilo? Por quê? Quais as suas referências para escrever com o mínimo de pontuação? Inspirou-se em algum escritor, como Clarice Lispector ou José Saramago? Foi influenciada pela poesia?
BM: Não adotei esse estilo, foi ele que me adotou. E, na verdade, há muita pontuação no meu texto, só que ela é feita com a vírgula e o espaçamento. A poesia certamente me influenciou.
P: Suas crônicas são como uma cena. O teatro foi uma influência na sua maneira de escrever?
BM: Nenhuma forma de expressão é tão fácil para mim quanto o teatro. Escrevi seis peças das quais duas foram encenadas. Paixão, por Nathalia Timberg, e O amante brasileiro, pelo elenco do Teatro Oficina, que, no próximo ano, também vai encenar Brasileira de Paris. A tendência é que eu escreva e trabalhe cada vez mais para o teatro. Eu, aliás, sempre estive nele, porque, à sua maneira, o consultório do analista é um teatro. Existe inclusive a expressão artifício analítico. O analista é um ator que encarna o morto para que o inconsciente do analisando possa se revelar.
P: Por que os títulos de todas as crônicas começam com quando?
BM: O livro ia se chamar “Quando”, porque o que importa nele é o instante privilegiado da iluminação. Acabou se chamando quando Paris cintila, porque este é o titulo da primeira crônica e todas foram escritas em Paris, que é tão minha cidade quanto São Paulo.
P: Fatos corriqueiros, conversas simples, viagens e curiosidades serviram de inspiração para suas crônicas. Uma história ou um fato vivido surge para você como uma crônica imediatamente?
BM: Surge como uma possível crônica. Depois, eu trabalho e retrabalho, leio em voz alta, gravo, escuto até bater o martelo e voltar de novo à errância. Para escrever a última crônica do livro, levei quatro anos.
P: Quando escrever é essencial?
BM: Sempre que algo me intriga. Ou quando a vida é insuportável. Acontece.
P: Quando Paris cintila pode ser lido como um guia de viagens? Um convite para conhecer o mundo sob um olhar, um ângulo diferente dos roteiros tradicionais?
BM: Numa das crônicas eu digo que, pela surpresa que a viagem propicia, ela é um bem. Com ela, nós voltamos à infância, ao tempo em que nos surpreendíamos continuamente, temos a felicidade de olhar o mundo com olhos de criança e nos alegrar.
P: Você comparou alguns aspectos da cultura oriental e ocidental, como a medicina chinesa e o modo de vida indiano. O que nos falta? O que deveríamos aprender com o Oriente?
BM: Estive num grande mosteiro tibetano no sul da China, o mosteiro de Labrang, onde tive a ocasião de trocar ideias com um lama que era médico. Entre outras coisas, ele me falou da importância da paciência para a cura da doença. Elogiou a medicina ocidental pelo avanço no campo da cirurgia, mas criticou os nossos remédios pelos tantos efeitos colaterais. Na Índia, eu me surpreendi com o fato de os indianos dormirem e meditarem em público. Entregam-se a si mesmos quando isso se impõe. Maravilhoso. Nós, ocidentais, somos vítimas do time is money. Falta-nos a paciência e o gosto da contemplação. Os dois são fundamentais para a longevidade.
P: Você escreveu as crônicas em diversas cidades. Alguma a encantou ou inspirou mais?
BM: Escrevi todas em Paris, que é a cidade das cidades, pelas mil e uma razões que estão explicitadas em Paris não acaba nunca. Por sinal, em chinês, o título do livro é Paris tem mil e um charmes.
P: Quando Paris cintila?
BM: Quando a gente está amando, ela cintila. Mas também quando a gente enxerga no Sena os furos de luz. Quando vê imaginando o Corcunda de Notre-Dame se balançando no sino da igreja, ou, de repente, na rua, ouve a voz de Edith Piaf. Paris é um milagre da civilização.
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Entrevista concedida à equipe de imprensa da Editora Record, janeiro de 2008, preparatória do lançamento.
III
P: A sua intimidade com as palavras é fato. Que o diga este título inspirado, quando Paris cintila. Neste caso, foram as luzes de Notre-Dame, mas, normalmente como é o processo?
BM: A palavra intimidade é justa no meu caso. Basta sentar para escrever e eu escrevo. Já tive inibição, mas hoje não tenho mais. Consigo escrever em qualquer lugar, com barulho, sem barulho, com gente, sem gente. Porque gosto de me ligar ao que escuto sem ouvir e depois ver o texto aparecer milagrosamente na tela ou no papel. Antigamente, era a lettera 32. A escrita organiza o meu pensamento, e eu fico feliz. Vivo metade do ano em Paris para poder escrever em paz. quando Paris cintila foi escrito em Paris, mas as idéias das crônicas surgiram em diferentes lugares onde estive. Oslo, Tessalônica, Istambul, Pequim, Dunhuang e Labrang, na Rota da Seda, Índia,Praia do Forte, Nova York... Na verdade, este livro foi se escrevendo. Uma crônica depois da outra, sem projeto.
P: Certa vez, Ignácio de Loyola Brandão me falou sobre o processo de criação. Disse que escrever é um exercício que exige disciplina e afinco. E que precisou escrever 16 vezes o final do livro O verde violentou o muro para chegar ao que queria. Você também passa por esse sofrimento?´
BM: A vida pode me fazer sofrer, a escrita, não. Isso não quer dizer que eu não reescreva o texto. Para escrever a última crônica de quando Paris cintila,levei quatro anos. De O Papagaio e o Doutor, o romance inspirado na minha análise com Lacan, eu fiz inúmeras versões. E, como eu participei da tradução do livro para o francês, acabei reescrevendo o livro inteiro, que foi reeditado pela Record. O que me interessa é o ritmo, que precede a frase. Por isso, a minha maneira de escrever não obedece à convenção gramatical. Assim, quando Paris cintila e Paris não acaba nunca foram escritos sem maiúscula e sem ponto final. A pontuação é feita através do espaçamento. Com isso, o leitor entra no texto com a sua subjetividade e pontua à sua maneira.
P: Qual a influência da formação lacaniana na sua relação com a palavra?
BM: Tem muita influência. Lacan interpretava a sessão, valendo-se do que ele chamava de pontuação. Pontuava, cortando a sessão ou dando ênfase a uma ou outra palavra. Tratava o discurso do analisando como se fosse um texto. A genialidade dele estava nisso. Pensar que foi banido da Sociedade Internacional de Psicanálise, ou melhor, excomungado, como ele dizia! Com ele, eu aprendi a escutar, mas escrever, não. A análise não forma o escritor, que já nasce ou não ligado na palavra que quer se escrever e se forma escrevendo.
P: Você fala que as palavras surgem do vazio. Mas não é fácil esvaziar a mente. Você tem treinamento em meditação?
BM: Tenho treinamento na escuta analítica, que implica uma atenção flutuante para o inconsciente do analisando se manifestar. O analista que está preocupado com uma questão pessoal não é capaz da atenção requerida e não escuta como deve. Não diria que ele esvazia a mente, mas se desocupa de si mesmo. O escritor faz isso, inclusive quando o texto é autobiográfico. O eu do escritor não é o eu da sua pessoa, é um outro. E, se não for, o texto não acontece verdadeiramente, o escritor é traído pelo próprio narcisismo.
P: O que te interessa escrever. O que está no foco do teu olhar e do teu escutar?
BM: Quando escrevo um romance, medito longamente sobre um tema. Por exemplo, emO Papagaio e o Doutor, focalizei a relação entre o analista e o analisando, entre o imigrante e o seu descendente, entre o Brasil e a França. Nos três romances que vão ser reunidos na Trilogia do amor –ou seja, O sexophuro, A paixão de Lia e O amante brasileiro --, focalizei o amor e o sexo. Em O clarão, me entreguei ao tema da amizade e da morte. Cada romance foi ocasião de uma longa pesquisa . Nas crônicas, eu focalizo o que vejo e o que ouço – e não é o tema que me leva a escrever, é a surpresa. O teatro, eu faço para sobreviver, rindo muito quando a vida é trágica, ou refletindo sobre ela para não me repetir numa mesma fantasia. Depois de ter adaptado várias peças, a pedido de atores que queriam dizer um texto meu, passei a escrever diretamente para o teatro, e acho que não paro mais.O teatro é o gênero no qual tenho mais facilidade.
P: O que te fala a língua do coração. Paris fala?
BM: Aos 18 anos, eu me prometi viver em Paris. Fui raptada como a Sabina pela beleza da cidade. E tive um sentimento de liberdade que só lá. Paris é a cidade de todas as irreverências simbólicas e reais. Acho que eu hoje sou tão brasileira quanto francesa e isso é natural, porque eu sou descendente de imigrantes libaneses, e a França era a grande referência deles. Na casa da minha avó, em São Paulo, havia uma sala oriental e uma sala francesa. Isso tudo eu conto em O Papagaio e o Doutor, no qual faço a sátira do espírito papagaio dos paulistas.
P: Por que você escolheu morar em Paris?
BM: Fui escolhida repetidamente. Primeiro, quando fui raptada pela beleza da Vitória da Samotrácia no Louvre. Depois, não resisti ao Lacan e fiquei lá quatro anos fazendo análise com ele. Quando voltei ao Brasil, com o firme propósito de me radicar aqui e não sair mais, acabei me casando com um francês. Daí, tive que viver uma parte do ano lá e uma parte aqui. Não foi simples, mas foi possível e foi assim.
P: Você gosta de viajar, de conhecer lugares, pessoas. Que leitura você faz do ser humano neste momento planetário?
BM: O ser humano ? Não gosto dessa generalidade. Toda semana na Veja.com eu respondo a questões dos leitores no Consultório Sentimental e sempre levo em conta a particularidade de cada um. Me debruço na singularidade e procuro o que há de universal. De modo a tornar o casoexemplar.
P: Você lê o noticiário? O que você filtra?
BM: Nem sempre. Mas sei tudo , porque as pessoas falam do que importa.
P: O que você está lendo agora?
BM: Recentemente eu lia História da feiura, do Humberto Eco e estou para lera História da beleza. Estou relendo Montaigne, que foi um precursor da psicanálise.O primeiro na história da humanidade que introduziu o sujeito no ensaio.
P: E o seu romance, como está?
BM: Devo terminar este ano, é preciso que isso aconteça. Porque estou trabalhando nele há quatro anos. Fiz muito pesquisa, ouvindo os mendigos e os moradores de rua de São Paulo – as diferentes vozes que nunca ninguém escuta.Nesse romance, eu também focalizo a questão da eutanásia, um tema que me faz pensar na aberração do planeta. Há gente morrendo ainda de tuberculose, e a lei não autoriza o doente terminal a dispor do próprio corpo!
P: É um romance sem maíusculas e ponto final, como as crônicas? Você acha que este estilo impacta muito fortemente? Todo mundo fala disso, não é?
BM: No romance, há vários estilos, mas eu escrevi com maiúscula e ponto final. O estilo é função das vozes. O texto se deixa fazer por elas.
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Entrevista a Cássia Montenegro, jornal A Tarde, Salvador, 2008.
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