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Consolação (2009)

I

P: Como nasceu Consolação? Ele é uma continuação de O amante brasileiro ou as histórias são distintas?
BM: Um romance nada tem a ver com o outro. O tema de Consolação é a perda. O tema de O amante brasileiroé o amor feliz. De comum, no entanto, existe a valorização do amor. Ao fim e ao cabo de uma longa errância, Laura, a heroína de Consolação, supera a perda, porque se dá conta de que o amor é maior do que a morte.

P: Quando Laura atravessa São Paulo, ela retrata a realidade brasileira, a cidade com toda a miséria que, para quem nela vive, inexiste em Paris. Qual foi sua intenção ao tratar dessas feridas sociais no livro?
BM: Laura perde o marido na França e, ao voltar para São Paulo, vai para o Cemitério da Consolação, porque quer estar entre os mortos. Depois de ter falado com o pai morto, que a aconselha a sair da concha do luto, ela erra pelas ruas de São Paulo, ouvindo pela primeira vez os moradores de rua e se debruçando, graças a isso, sobre outros dramas que não o dela. A cidade que Laura atravessa é uma metáfora do inferno, ao qual ela desce antes de encontrar a consolação que procura. Focalizei São Paulo porque esta é a cidade natal de Laura, mas a errância poderia ter sido em Paris, onde hoje, infelizmente, há um número enorme de mendigos. A toda esquina a gente encontra um. O fato é que a errância de Laura humaniza “os que nunca são vistos nem ouvidos” e esta também é uma das razões pelas quais eu abri e expus a ferida.

P: Apesar da tristeza inicial que o tema desperta, o romance segue rumo ao consolo, ao mesmo tempo que devolve Laura à terra natal. A analogia com o conforto do "colo materno" é inevitável. Como foi montada a estrutura deste romance, em que tudo se fecha em torno do título?
BM: Colo materno, é isso aí mesmo. Você tem toda razão. Em última instância, é sempre a mãe que a gente procura. Mas, no livro, a consolação se realiza em várias etapas. No cemitério, o que consola a heroína é o diálogo com os mortos, Oswald e Mario de Andrade antes do pai. Na rua, é o diálogo com os miseráveis, que a surpreendem e lhe ensinam muita coisa . No teatro, é a escuta do Manifesto Antropófago e a imersão na tradição da alegria, a nossa grande tradição, que ela havia perdido de vista.

P: Quanto tempo a senhora demora na produção de um livro:?
BM: Isso é incrivelmente arbitrário. Paris não acaba nunca, o meu livro de maior sucesso, eu escrevi em seis meses. Não fiz roteiro nenhum. Ele foi se fazendo e, no fim, era como deveria ser. O livro aconteceu magicamente. Com os textos líricos, que a Record vai publicar no ano que vem e compõem A trilogia do amor, foi a mesma coisa. Os textos que mais me custaram foram O Papagaio e o Doutor e Consolação. Nos dois, eu fiquei cinco anos. Foram dois suplícios, porque eu insisti em descobrir a estrutura da obra à medida que escrevia, ou seja, compunha. Graças a esse método, eu descobri, no primeiro livro, que o inconsciente pode inclusive nos fazer escolher um analista pelo que ele não sabe e não pelo que ele sabe. Ou seja, um analista diante de quem o analisando não tem como se desvelar. Trata-se de um paradoxo absoluto, que mostra a força do inconsciente e revela outra faceta da condição humana. No segundo livro, o método me fez descobrir que só a rememoração permite superar a perda e ela é vital. Perder não significa não ter, porque existe a memória.

P: Como é sua rotina de escritora? Tem horário certo e local determinado para escrever? Costuma escrever diariamente, mesmo que não haja um livro ainda delineado? Faz um planejamento prévio do que será o livro?
BM: No começo, eu só escrevia de manhã. Acordava e já ia para a máquina de escrever. Nem bom-dia eu dizia, de medo de perder a inspiração. Eu ainda era vítima da inibição, tão temida pelos escritores. Agora, eu escrevo à tarde. Depois de ter feito ginástica e ioga ou de ter me ocupado das coisas da vida cotidiana. Prefiro escrever no meu escritório, mas posso escrever em qualquer lugar, porque fico tomada pelo meu desejo e nada me desconcentra.Escrevo quase  diariamente e, quando não escrevo, penso em escrever. O planejamento do livro depende do livro. Mas, em geral, o texto precede o pensamento, porque eu acredito no inconsciente como fonte de descoberta. Sou uma escritora realista, mas o meu procedimento tem a ver com o que eu aprendi na análise, em que a gente primeiro fala e depois entende o que disse.

P: Quando a senhora decidiu escrever ficção? Quando começou?
O primeiro texto de ficção que eu escrevi foi O sexophuro e, na verdade, eu não decidi nada. O texto se impôs e jorrou. O principal trabalho foi o de cortar. Transformar 800 páginas em 80. O sexophuro é datado de 1981. Teve um bom sucesso de estima. Leyla Perrone-Moisés e Walnice Nogueira Galvão escreveram sobre o livro, que depois foi objeto de uma tese de doutoramento de literatura comparada.

P: Quais autores mais a influenciam?
BM: Joyce eu li e reli, estudei mesmo. Fui inclusive a Dublin e entrevistei Ken Monaghan, sobrinho do escritor, para a Folha de S. Paulo, e aproveitei para ver os eventos do Bloomsday. Isso pela liberdade de Joyce, liberdade na relação com a palavra, de que só ele foi capaz. Entre os brasileiros, gosto particularmente dos autores de São Paulo, Oswald e Mario. Mas também me formei com os poetas brasileiros e portugueses. Cheguei a escrever uma peça para Nathalia Timberg, estruturada a partir dos grandes poemas de amor da lusofonia. A peça se chama Paixão e foi encenada em vários estados do Brasil.

P: Qual é sua posição sobre a eutanásia e sobre a humanização da morte, que hoje se discute tanto no tratamento de pacientes fora de possibilidades terapêuticas? A morte hospitalar, asséptica e distante do cotidiano, é mais fácil para os que enfrentam a perda?
BM: A eutanásia é um direito que nós temos. Indiscutível quando se trata de um doente terminal, que deseja morrer e cuja família não quer prolongar o sofrimento, como no caso de Jacques , o personagem principal do meu romance. Humanizar a morte é ajudar a morrer. Para isso, precisamos dessacralizar a vida, que não é um bem em si. A vida só é um bem se ela for boa. Temos que nos ajudar a viver e a morrer. Estamos infelizmente a anos luz disso. Do contrário, não haveria tantas pessoas abandonadas no mundo inteiro, famintas, imundas e malcheirosas, condenadas a viver como animais. Em pleno terceiro milênio, a cena do mundo é medieval. Porque nós olhamos sem ver, escutamos sem ouvir. Para mim, a função do romance também é fazer ver e ouvir.Espero do leitor que ele possa superar a denegação, como Laura supera o luto.

P: A morte é hoje o grande tabu de nossa sociedade?
BM: Com certeza. Já em O clarão, eu tratei do tema. Falava da morte como uma estrela invisível porque quem não se esquece dela não desperdiça a vida. No romance Consolação, eu analiso as consequências da morte e o trabalho do luto, ao qual todos estamos destinados. O drama da perda é central no livro, é o seu motor do começo ao fim.

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Entrevista preparatória do lançamento da obra, concedida em junho de 2009 à equipe de imprensa da Editora Record.

II

P: Consolação começou a ser escrito em 2004, ano em que a senhora perdeu seu marido. Em que medida o percurso de Laura descreve também seu próprio percurso para superar e aprender a lidar com essa perda?
BM: Se eu não tivesse perdido meu marido, não teria tido a idéia deste romance. Mas, antes de Consolação, eu escrevi O clarão depois de ter perdido um grande amigo, o publicitário Carlito Maia. O tema da morte já me rondava. O fato de ter  presenciado a agonia do meu marido num hospital francês, onde a médica não aceitava abreviar o sofrimento dele, me fez escrever  sobre a eutanásia. Por outro lado, eu vivo a cem metros da Avenida Paulista há 30 anos e não tenho como não ver os mendigos e os moradores de rua, que são meus vizinhos.  O luto é uma verdadeira travessia do inferno, e eu fiz da Paulista o espaço do inferno que Laura atravessa antes de ouvir o discurso da consolação. Ou seja, eu parti de fatos da realidade para criar uma realidade nova, que ilumina a primeira, permite refletir sobre o luto e a superação do luto bem como sobre a cidade de São Paulo, que, além de poderosa, é eminentemente cruel.

P:  Em dado momento do livro, a viúva escuta de um coveiro: "A morte, dona, não existe. foi só passamento". Depois, ouve do próprio marido morto: "A morte não anula a minha existência e não anula o que você e eu vivemos". O desafio, portanto, é reinventar o significado da morte?
BM: Para superar o luto, nós precisamos diferenciar a vida da existência. Acho que a grande sacada do livro é esta. Pelo menos para mim, foi fundamental.  A pessoa morre, mas, se for rememorada, não deixa de existir, e a vida de quem a perdeu pode continuar. Daí o culto dos ancestrais  entre os povos primitivos e os ritos de rememoração nos países de cultura mediterrânea – a dos meus ancestrais, que  são originários do Líbano. Recentemente, eu estive na Córsega e na Sardenha e me surpreendi com o fato de os cemitérios estarem  sempre bem à vista, como se os vivos não pudessem ficar longe dos seus mortos. Na Sicília, em Palermo, existe um cemitério onde  há mais de mil pessoas do século passado  mumificadas. Estão com a roupa  que usavam e têm a expressão com a qual morreram. Trata-se de um teatro da morte, que é regularmente frequentado pelos sicilianos.

P: Mais adiante, a senhora escreve que "lamentar a infelicidade atrai a infelicidade". Há ou deveria haver limite para dar vazão à dor?
BM: A idéia de que a lamentação atrai a infelicidade permeia a obra de Sêneca, de Shakespeare, de Montaigne...  Os ritos aos quais eu me referi têm como função enquadrar o sofrimento no espaço e no tempo. Agora, uma coisa é lamentar a perda e outra é rememorar o morto e a sua vida. O que a heroína de Consolação descobre é isso. Ela faz a travessia do inferno paulista para passar da lamentação à rememoração, para deixar de ter pena de si mesma e voltar à vida, lembrar da nossa tradição, que é a tradição da alegria.

P:  Diante de um homem muito próximo da morte, mantido vivo artificialmente, sentindo dor e sofrendo por ter consciência da própria decrepitude, o livro questiona em mais de um momento por que não se pode escolher para si e para quem se ama uma boa morte. Qual a perspectiva de uma reivindicação como essa na cultura ocidental, em que a morte e o próprio envelhecimento ainda são temas tabus?
BM: A reivindicação da boa morte é hoje a de todas as pessoas esclarecidas. Existem no mundo inteiro  associações para defender o direito à eutanásia quando a vida já não é mais possível. O próprio Humberto Eco  escreveu recentemente  num jornal italiano que não deseja que sua vida seja  prolongada se ele estiver em condições terminais. Argumentou, para surpressa da igreja católica,  que esta sua decisão é feita em nome do amor ao próximo. Ele se valeu de um dos mandamentos para sustentar a idéia da boa morte.

P:  Em seu percurso, Laura conversa com os mortos e com personagens que passam despercebidos no dia a dia das grandes metrópoles – aqueles que a romancista Michèle Sarde chama de "quase mortos". Que outras mortes e mortos ignoramos no mundo contemporâneo?
BM: Não basta ignorar os mortos e os pobres? Sem esta ignorância, a nossa vida seria muito melhor. Nós não sofreríamos tanto de solidão, porque pertenceríamos a uma família extensa, feita também dos mortos. Por outro lado, não andaríamos entre os miseráveis, os “santos, os mendigos desconhecidos, sofredores e fodidos” a que me refiro na epígrafe do livro, citando Ginsberg.
 
P:  Como a senhora organiza sua vida e seu trabalho hoje entre São Paulo e Paris? Onde está atualmente? Onde é seu lar?
BM: Eu não vivo entre São Paulo e Paris, vivo numa e noutra cidade. Costumo ficar em São Paulo  de novembro a abril, mas estou aqui agora para lançar o romance. O meu lar é aqui e lá. Tenho com as duas cidades uma relação intensa. Paris me inspirou Paris não acaba nunca, que é o meu best seller e foi publicado inclusive na China. São Paulo, eu focalizei longamente em Consolação. Agora, a minha idéia de lar não é a de todo mundo. Até hoje, na minha residência de São Paulo, eu não tenho um sofá convencional. Só me sento para trabalhar ou comer, diante do computador ou à mesa... Estou pensando em mudar isso, porque o meu filho é cineasta e reivindica uma sala com telão Como já tenho 65 anos, estou considerando a possibilidade de um sofá. Isso não vai me impedir de fazer alguma atividade física todos os dias – ioga, natação, tai chi chuan.

P:  A senhora atende pacientes nas duas cidades? Caso sim, as questões se repetem, uma vez que dizem respeito à condição humana, ou em países com diferentes culturas e níveis de desenvolvimento social sobrevêm no divã algumas peculiaridades?
BM: Me formei com 24 anos na Faculdade de Medicina da USP e não parei de clinicar até os 60. Agora, só faço o consultório sentimental da Veja.com. Nele, respondo às questões dos leitores, procurando mostrar o que há de universal em cada história. Nessa atividade, eu trabalho na fronteira da psicanálise e da literatura.

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Entrevista ao jornal Zero Hora, Porto Alegre, agosto 2009.