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Lacan, o Doutor

 trecho
 resumo
 histórico

Quem não estranha, escuta e não ouve… olha e não vê. Se Freud não tivesse estranhado o lapso, ele não teria descoberto o que significa dizer uma coisa quando a gente quer dizer outra. Não teria descoberto o inconsciente…


Originária de uma família de imigrantes libaneses, Seriema vive o drama de uma ocidental descendente de orientais. Por ocupar o lugar do primogênito, ela não tem direito de ser mulher. No imaginário de seus ancestrais, o primogênito é um homem, e ela só pode ser reconhecida e amada se dissimular o próprio sexo, renunciar à maternidade.

Para escapar à sua condição, Seriema vai à França fazer análise com um célebre psicanalista. De sessão em sessão, ela se libera do discurso que a oprime, até, enfim, conquistar a possibilidade de ser mãe. Até se reconhecer no sexo feminino e aceitar seu corpo mestiço, marcado pelos rituais brasileiros – um corpo que não é inteiramente branco nem negro, é mulato pelas suas crenças. Bendiz o Brasil, que acolhe todas as religiões, ignorando os tabus e recusando as catequeses. Quer o país da língua em que se criou, a língua cantada do ão.

Seriemase libera graças à psicanálise, às sessões em que o Doutor, interpretando as falas de sua analisanda, faz o drama ser escutado por ela até escapar à repetição e se reinventar.

O modo como a sessão termina é sempre em função da fala, e o texto da peça o indica claramente. Trata-se do modo do Doutor, que se vale da interrupção do discurso para interpretar a fala do analisando, dar ênfase ao essencial. A interpretação sempre teatral do Doutor não acontece por acaso. Decorre da sua concepção da análise, que, para ele, é uma forma de epopeia. Exalta os fatos da vida do sujeito como a epopeia exalta os fatos da vida do herói.

A peça se estrutura em torno de duas personagens principais: o Doutor, grande psicanalista francês, e Seriema, sua analisanda, originária do Brasil. Além desses personagens, há cinco outros: Maria, a empregada que criou Seriema, e quatro ancestrais libaneses – Hila, Aziri, Faia e Jarja –, que falam árabe ou português com sotaque árabe. São sete personagens, mas a peça poderá ser feita por cinco atores, pois há dois ancestrais femininos, cujos papéis pode ser feito por uma só atriz, e dois ancestrais masculinos, cujos papéis pode ser feito por um só ator.

O recurso de projeção dos ancestrais numa tela também é plausível. A encenação requer ainda uma dançarina negra para o papel da Pombagira, entidade do culto umbandista, e do Egun Babá, espírito ancestral, cujos rosto e corpo não aparecem. Nesta peça, que narra a viagem de Seriema à França e o seu retorno ao país de origem, o Brasil, a música e a dança são fundamentais. E também as diferentes línguas: o nagô, que aparece nos cantos; o árabe, falado pelos ancestrais libaneses; o francês, falado pelo Doutor e por Seriema; e o português do Brasil, que a heroína continuamente celebra e é a razão da sua volta ao país natal.

A peça foi escrita para 6 personagens. Seriema; Doutor, Maria, Hila, Aziri, Jarja e Faia, os ancestrais libaneses (que podem ser representados por uma atriz e um ator apenas); Pombagira, entidade da umbanda; Egun Babá, espírito ancestral africano.


Adeus, Doutor foi escrita em português e traduzida para o francês pela autora em colaboração com o poeta francês Jean Sarzana. Para a elaboração da peça, a autora contou com a preciosa orientação do diretor francês Antoine Bourseiller. A peça ainda não foi montada no Brasil ou na França. Em dezembro de 2008, houve leitura pública do texto em São Paulo, com os atores Bete Coelho no papel de Seriema e Ricardo Bittencourt como o Doutor. A direção foi do diretor francês Jean-Luc Paliès.

Acesse aqui o texto de Adeus, Doutor