Originária de uma família de imigrantes libaneses, Seriema vive o drama de uma ocidental descendente de orientais. Por ocupar o lugar do primogênito, ela não tem direito de ser mulher. No imaginário de seus ancestrais, o primogênito é um homem, e ela só pode ser reconhecida e amada se dissimular o próprio sexo, renunciar à maternidade.
Para escapar à sua condição, Seriema vai à França fazer análise com um célebre psicanalista. De sessão em sessão, ela se libera do discurso que a oprime, até, enfim, conquistar a possibilidade de ser mãe. Até se reconhecer no sexo feminino e aceitar seu corpo mestiço, marcado pelos rituais brasileiros – um corpo que não é inteiramente branco nem negro, é mulato pelas suas crenças. Bendiz o Brasil, que acolhe todas as religiões, ignorando os tabus e recusando as catequeses. Quer o país da língua em que se criou, a língua cantada do ão.
Seriemase libera graças à psicanálise, às sessões em que o Doutor, interpretando as falas de sua analisanda, faz o drama ser escutado por ela até escapar à repetição e se reinventar.
O modo como a sessão termina é sempre em função da fala, e o texto da peça o indica claramente. Trata-se do modo do Doutor, que se vale da interrupção do discurso para interpretar a fala do analisando, dar ênfase ao essencial. A interpretação sempre teatral do Doutor não acontece por acaso. Decorre da sua concepção da análise, que, para ele, é uma forma de epopeia. Exalta os fatos da vida do sujeito como a epopeia exalta os fatos da vida do herói.
A peça se estrutura em torno de duas personagens principais: o Doutor, grande psicanalista francês, e Seriema, sua analisanda, originária do Brasil. Além desses personagens, há cinco outros: Maria, a empregada que criou Seriema, e quatro ancestrais libaneses – Hila, Aziri, Faia e Jarja –, que falam árabe ou português com sotaque árabe. São sete personagens, mas a peça poderá ser feita por cinco atores, pois há dois ancestrais femininos, cujos papéis pode ser feito por uma só atriz, e dois ancestrais masculinos, cujos papéis pode ser feito por um só ator.
O recurso de projeção dos ancestrais numa tela também é plausível. A encenação requer ainda uma dançarina negra para o papel da Pombagira, entidade do culto umbandista, e do Egun Babá, espírito ancestral, cujos rosto e corpo não aparecem. Nesta peça, que narra a viagem de Seriema à França e o seu retorno ao país de origem, o Brasil, a música e a dança são fundamentais. E também as diferentes línguas: o nagô, que aparece nos cantos; o árabe, falado pelos ancestrais libaneses; o francês, falado pelo Doutor e por Seriema; e o português do Brasil, que a heroína continuamente celebra e é a razão da sua volta ao país natal.
A peça foi escrita para 6 personagens. Seriema; Doutor, Maria, Hila, Aziri, Jarja e Faia, os ancestrais libaneses (que podem ser representados por uma atriz e um ator apenas); Pombagira, entidade da umbanda; Egun Babá, espírito ancestral africano.
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