Livro & Cia

À procura do santo graal


Foi o apóstolo Paulo quem melhor resumiu a inexplicável atração entre o feio e o valioso, ao escrever: “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós” (2 Coríntios 4.7). E, confirmando as palavras paulinas, a Casa Nazarena encerra um valioso estudo de Mildred Bangs Wynkoop atrás de uma capa em desalinho com as mais elegantes tendências da produção editorial. E mesmo que não exista uma relação direta entre selos badalados e densidade de conteúdo, o despretensioso volume ilustra o fato de que freqüentemente acham-se tesouros escondidos em recipientes, digamos, quase toscos.

O achado ocorreu durante uma perambulação – espécie de “window-shopping” – pela livraria do Seminário Betel, onde me atraiu a proposta do título Fundamentos da teologia armínio-wesleyana. No instante, nem eu era Indiana Jones, nem o livro era o cálice modesto, descoberto pelo arqueólogo de Holly wood, em “Indiana Jones e a última cruzada” (de Steven Spielberg, 1989), dentro de uma caverna que ocultava o legendário Santo Graal.

Na verdade, Fundamentos começou em 1960, como uma palestra proferida em Taiwan pela então sexagenária teóloga americana. Publicada inicialmente em mandarim, o texto virou apostila no mimeógrafo de um japonês, que a verteu em sua própria língua. Outros japoneses, da Igreja Holiness (Santidade), pediram à autora que produzisse um livro com aquele material. Somente em 1967, Fundamentos finalmente chegou às livrarias e, desde o ano passado, os brasileiros podem lê-lo em português.

Mas por que, afinal, este livro é um tesouro? Por sua própria natureza os tesouros podem variar de forma, substância e outras propriedades físico-químicas. E certamente, para ser um tesouro, é mais necessário ter relevância do que beleza exterior. No caso, nem é uma preferência teológica por um ou outro que o define como valioso. A rigor, as mais diversas contribuições do pensamento ao estudo de Deus, suas palavras e ações já são, por si, valiosas. Não é sequer preciso concordar com o seu conteúdo explícito, mas é vital conhecê-lo.

Contudo, tais leituras não ameaçam a filiação denominacional, nem posições ideológicas, mas certamente enriquecem o entendimento, aperfeiçoam o conhecimento objetivo da matéria. Por isso, não é injustiça afirmar que essa leitura é indispensável, até prioritária.

Quando o que se quer é conhecimento, mais do que o enlevo, o aprofunda-mento mais que o refrigério, essa literatura pode ser um tesouro, menos ao leitor exigente e pré-informado do que para quem busca algum conhecimento de teologia. Ademais, as quatro décadas que esconderam um material que, ao lado de obras ligadas aos mais importantes pensadores do saber teológico, nos faz reflexionar acerca de Deus, sua palavra, seu povo e seu reino. Simples na forma e no preço (R$ 19,90, no catálogo da editora campineira), numa estante, Fundamentos arrisca-se a ser descartado por compradores atrás de autores e formatos mais vistosos.

Jornalista, professor do Seminário Teológico Betel e pastor da Igreja Metodista

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