Missões

Agrofloresta: Cultivando Justiça Social


Ação missionária e identidade cristã

Vladimir Gaskov, teólogo leigo e conhecido pintor russo (século XVIII) foi autor de um quadro denominado A expectativa de Deus e a hipocrisia humana, conhecido popularmente como As duas montanhas. Uma pintura belíssima, onde a primeira montanha, à direita da tela, altaneira e verdejante, cobra-nos atenção. É sinônimo de vida. Árvores, corredeiras e animais marcam aquela parte do quadro com pequenos riachos que correm por suas beiradas, um local onde o sol nunca se põe.

Gaskov afirma que esta montanha representa o que cremos. Toda a fé embutida em nossos corações, expressa em nossa adoração e pregada em nossos púlpitos. E é verdade que cremos em muitas, poderosas e belíssimas coisas. Cremos em um Deus vivo e todo-poderoso; cremos na atuação do Espírito Santo ainda em nossos dias; cremos na vitória contra o pecado; cremos no Deus dos impossíveis; cremos na autoridade da Igreja para espalhar este evangelho até aos confins da terra. Enfim, nós cremos!

A montanha à esquerda da tela, é destituída de vida e beleza. Não possui vegetação ou água. É apenas um cinzento monturo de pedras, total ausência de vida e movimentos, um marasmo natural. Esta montanha simboliza, segundo o pintor, o que vivemos a despeito da fé que enche o nosso coração. Apesar de sermos a Igreja do Senhor Jesus, temos a terrível capacidade humana de crer nas insondáveis promessas de Deus ao mesmo tempo em que podemos viver e agir como a escória do mundo; crer na santidade da Igreja enquanto corações dúbios procuram com convicção o pecado; crer no poder do evangelho ao mesmo tempo em que titubeamos à primeira barreira que se levanta à nossa frente na obra missionária.

Uma das maiores armadilhas do diabo, hoje, é fomentar a separação entre o que cremos e o que fazemos. Entre a fé e a prática. Entre a ortodoxia e a ortopraxia. Entre o que vota o coração e o que praticam nossas mãos. O grande desafio desta década foi e é gerar uma Igreja que aprenda a viver, falar, andar e respirar de acordo com o que crê o seu coração.

Identidade Cristã

Em toda a teologia neo-testamentária, vemos que a missão da Igreja é cumprida sempre que um homem, uma família ou uma comunidade é confrontada com a convicção de quem eles são no Senhor, sua identidade cristã.

A carta à igreja de Laodicéia, no capítulo 3 de Apocalipse, mostra-nos este impacto e cobrança de funcionalidade. O texto fala sobre uma igreja ser quente, fria ou morna e erroneamente tem sido visto ao longo de anos como uma simples apresentação de três diferentes níveis de espiritualidade. Se o analisarmos cuidadosamente, entretanto, veremos que o assunto é a funcionalidade da Igreja, o que ela faz baseado em quem ela reconhece ser.

Esta carta começa afirmando "conheço as tuas obras" (3.15), onde a expressão erga (obra) aponta para a vida normal da Igreja, não necessariamente suas realizações. Creio que Jesus afirmava aqui o completo conhecimento - de grandes e pequenas coisas - que Ele possui sobre sua Igreja.

"Que não és quente nem frio. Quem dera fosses quente ou frio..." é basicamente uma afirmação de desejo. O Senhor Jesus desejava que Laodicéia fosse quente ou fria. Não há indícios para crermos que fosse uma expressão de ironia, e sim, o desejo de vê-los tanto quentes quanto frios. Para entendermos esta afirmação precisamos lembrar que Laodicéia localizava-se entre duas grandes e conhecidas cidades. Ao norte, Hierápolis e ao sul, Colossos.

Hierápolis era conhecida por suas fontes de águas frias. Era uma espécie de oásis no verão, para onde as multidões afluíam. Segundo Orgeoni (*), na entrada da cidade havia uma inscrição com os dizeres: "Lugar de Refrigério".

Colossos, ao sul, era ainda mais conhecida pelas suas fontes de águas quentes, sobre as quais dizia-se possuírem poderes medicinais e terapêuticos, usadas por pessoas com problemas ósseos, reumáticos, respiratórios e tantos outros. Um lugar para a terapia do corpo. Quando o Senhor afirmou: "que nem és quente nem frio" poderíamos parafrasear: Que nem possuis função de causar refrigério às vidas que o procuram; como também perdeste a função terapêutica de alívio aos aflitos. Como és morno (e águas mornas não possuem função), estou a ponto de vomitar-te da minha boca.

A missão da Igreja baseia-se na convicção de sua própria identidade, transformada em Cristo Jesus. Somos um grupo de santos, lavados pelo sangue do Cordeiro e separados pelo Senhor para sermos fiéis ao nosso Deus. Quanto mais parecidos formos com o nosso Mestre, mais funcionais seremos na missão.

Após três anos entre os konkombas, quando a igreja crescia rapidamente e o Evangelho alcançava lugares remotos, perguntei aos líderes locais sobre a razão principal que colaborava para a nossa boa comunicação, mencionando três opções: a) Habilidade de falar no dialeto local e ser entendido com facilidade; b) Entendimento da cultura, costumes e forma de vida konkomba; c) Envolvimento pessoal com a sociedade tribal, sendo aceito e aceitando-a. Eles então responderam: " O ponto mais importante para nosso povo parar para ouvi-lo é porque você sempre sorri quando nos vê, parando para nos cumprimentar e sempre alegre em nos escutar". Naquele dia eu escrevi em meu diário uma preciosa lição missionária: "caráter é mais importante que habilidade".

(*) T. Orgeoni, Natural History IX, London 1893

Rev. Ronaldo Lidório é missionário presbiteriano e membro da Missão AMEM. Trabalha já há 9 anos entre algumas tribos no noroeste africano e atualmente lidera uma equipe missionária entre os indígenas brasileiros.
É casado com Rossana e pai de dois filhos.
Autor de vários livros e doutor em Antropologia cultural e Missiologia


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