Teologia

O Problema do Texto e da Tradução de Habacuque 2.4


Este versículo é um dos mais importantes da tradição teológica da igreja cristã. Na verdade trata-se de um texto extremamente importante para a compreensão do livro de Habacuque1. Podemos dizer que este é o texto central da obra do profeta que viu a queda de Judá. Todavia Habacuque 2.4 apresenta muitas dificuldades de compreensão nos manuscritos antigos.2 No entanto, se queremos fazer boa teologia, é necessário que estudemos as questões lingüísticas e teológicas.

Vejamos duas alternativas de tradução conhecidas:

Eis o soberbo! A sua alma não é reta nele; mas o justo pela sua fé viverá. (Versão Revisada - Juerp)

“Escreva: O ímpio está envaidecido; seus desejos não são bons; mas o justo viverá pela sua fidelidade (NVI - Vida/SBI).

O texto hebraico (Texto Massorético) diz literalmente no início: “eis que está inchada”. O verbo assim traduzido, ‘uplâ3, aparece no plural e não apresenta sujeito. Aparentemente o sujeito caiu da frase. Todavia, o contraste com a outra metade do verso exige que o verbo seja uma referência ao ímpio. Portanto o sentido contextual parece ser, conforme a tradução da NVI, “o ímpio está envaidecido (orgulhoso)”. A próxima frase diz literalmente “sua alma4 não é reta nele”. É provável que o termo “alma”, tão rico semanticamente, seja uma referência às intenções do ímpio.

Portanto, “seu desejo não é correto” (i.e., é mau) capta adequadamente a idéia.

A parte final do versículo fala do justo. O texto diz literalmente que ele “viverá” pela sua “fidelidade”. É difícil especificar o significado exato de “viverá” aqui. Dentre as várias alternativas, no contexto, cabe a idéia de “ser preservado, sobreviver”. No entanto, a frase pode englobar significado mais amplo. Quanto à “fidelidade” (‘emûnâ) há grande discussão. Muitas traduções preferem traduzir o termo hebraico por “fé” (Revisada, Corrigida, Atualizada). A origem da opção “fé” está ligada ao enfoque hermenêutico da antiga versão grega do Antigo Testamento, a Septuaginta (LXX) (pistis); que depois foi citada no Novo Testamento e utilizada na teologia cristã por Paulo (Romanos 1.17; Gálatas 3.11) e pelo autor de Hebreus (10.38).

Naturalmente, cada autor neotestamentário faz uso do texto de Habacuque em um novo contexto, adaptando-o para uma nova situação de argumentação. Portanto, é absolutamente plausível que o enfoque na fé seja um pouco distinto da idéia original de Habacuque. Não há dúvida de que no contexto de Habacuque o sentido do termo é “fidelidade”. Na verdade não há grande contradição de idéia, pois “fidelidade” é a maneira concreta de expressão da “fé”, termo mais abstrato. Há uma outra diferença significativa na Septuaginta, onde aparece um sufixo pronominal de primeira pessoa no substantivo traduzido por “fidelidade”. Houve apenas uma confusão entre duas letras hebraicas, um vav e um yod. Assim, em vez de be’emûnatô (Texto Massorético) a Septuaginta leu be’emûnatî5; apesar de pequena, a mudança altera bastante a mensagem central do profeta.

Conforme a Septuaginta o justo é preservado pela fidelidade de Deus, e não por mostrar fidelidade para com Deus. Assim, a Septuaginta traz: O justo viverá pela minha fidelidade.

Diante dessas informações e da peculiaridade dos contextos, devemos seguir o texto hebraico e traduzi-lo à luz das observações mencionadas; assim, chega-mos à seguinte tradução: 4 (Escreva:)6 o ímpio está envaidecido;

seu desejo não é corre-to; mas o justo será preservado pela sua fidelidade (fé).Luiz Sayão 1 A maioria dos estudiosos mais recentes sugere uma data entre 605 e 597 aC (Roberts, 83-84, NICOT) para o livro de Habacuque.

2 A discussão detalhada é feita por Robert Haak (Haak, 57-59, OTL). 3 Algumas traduções (como a New English Bible) seguem a raiz II do léxico BDB. Estudo detalhado do problema foi elaborado por Emerton (JTS, 28, 1977, 1-18).

4 Hans W. Wolff sugere que o termo pode significar “garganta” aqui (Wolf, 22, Antropologia do Antigo Testamento).

5 A LXX (Códice Vaticano) traz ek pisteos mou (da minha fé) (Bruce, 860). 6 Acréscimo necessário para a devida compreensão.

LUIZ SAYÃO, Editor acadêmico de Edições Vida Nova, pastor, escritor, professor de Antigo Testamento

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