Maria Angélica chegou ao meu escritório acompanhada de sua mãe. Ambas tinham esperanças de que, em duas ou três sessões de aconselhamento, eu solucionasse todos os problemas daquele garota!.
Ela pareceu-me fria, distante, fazendo questão de manter um considerável afastamento emocional e demonstrou muita dificuldade em expressar desembaraçadamente o que sentia.
Na verdade, creio que Maria Angélica estava aborrecida e constrangida por sua mãe submetê-la, no seu entender, ao suplício de um aconselhamento. O silêncio foi a forma que ela encontrou para tentar preservar sua dignidade. Se ela se abrisse inteiramente comigo, estaria concordando com sua mãe que necessitava de ajuda.
Depois de algumas sessões, descobri o motivo de suas lutas interiores. Maria Angélica finalmente confessou seu terror em ter que enfrentar pessoas desconhecidas, todas aquelas que não pertenciam ao seu círculo de familiares e amigos mais próximos.
Bem que ela gostaria de se relacionar facilmente com os outros, conhecer novas pessoas, ter e fazer diversos e diferente amigos. Porém, o receio de dizer algo ou ter alguma atitude que a embaraçasse, que a deixasse muito exposta, era mais forte.
Ela me disse que, às vezes, chegava a se esconder só para não ter que enfrentar uma visita. Diariamente ia e voltava sozinha da escola, para evitar ter que conversar com algum colega. Sempre chegava ao colégio quando a aula estava prestes a começar, pois assim não era obrigada a sentar ao lado de ninguém.
Maria Angélica era uma pessoa muito só. No entanto, sua timidez não era suficiente para preencher suas necessidades como ser humano, como adolescente.
Timidez é o medo de encontrar pessoas e sentir-se desconfortável diante delas. Verdadeiramente, é a ansiedade de ser avaliado por outros e, conseqüentemente, rejeitado. Em suas formas mais extremas, a timidez transforma-se em fobia social: medo irracional e inadequado. A fobia é experimentada em situações que não apresentam nenhuma ameaça real.
Enquanto muitos adolescentes reconhecem sua timidez, por outro lado, ficariam surpresos ao saber que a grande maioria dos jovens, por eles tidos como extrovertidos, confessam ter vivenciado tal sentimento em algumas ocasiões.
Alguns adolescentes, devido ao excesso de timidez, têm medo de se relacionar com o sexo oposto. Sentem-se desajeitados, travados e, por isso, qualquer evento social é um tormento. Nas festas, é perfeitamente normal e presumível encontrá-los nos cantinhos mais afastados, quietos e aborrecidos.
O adolescente superprotegido, em geral, é dependente, passivo e tímido. Ele apresenta limitações, desperdiça oportunidades por causa de seu medo e não conhece a sensação de possuir um espírito aventureiro. Muitos jovens que receberam essa superproteção dos pais nunca aprenderam a confiar em si mesmos e, nem ao menos, sabem relacionar-se socialmente.
O adolescente tímido é alvo constante de ansiedade, depressão, solidão e baixa-estima. Ele encara seu grupo social como insatisfatório e deficiente na tarefa de encorajá-lo. É muito provável que ele enfrente várias dificuldades quando quiser fazer novas amizades.
O jovem tímido não é feliz por estar sozinho, mas também sente-se temeroso diante da chance de participar de encontros que, para ele, são ameaçadores.
Os pais, ou conselheiros, podem ajudar os filhos no ajustamento social. Seguem algumas idéias:
- Ajudar o adolescente a preparar o que ele quer dizer em ocasiões específicas. Desafiá-lo a escrever o que pensa em falar e pedir que dramatize a situação. Se for possível, pedir que utilize o telefone para manter uma conversação com alguém ou mesmo fazer o pedido de algum produto.
- Ajudá-lo a ensaiar um sorriso e contatar outra pessoa visualmente.Uma tarefa seria manter contato visual com cinco pessoas que ele conheça, mas com quem não tenha um relacionamento muito profundo.
- Trabalhar sua desenvoltura em expressar-se com diferentes tons de voz. Utilize um gravador.
- Peça que observe e anote o padrão comportamental de pessoas a quem respeita. Ele deve notar como as pessoas encaram suas gafes naturalmente e até mesmo riem delas. Pedir que elogie e faça perguntas a alguém e compartilhe experiências de sua própria vida.
- Descobrir o senso de humor escondido que o adolescente porventura possa ter e encorajá-lo a desenvolvê-lo.
- Avaliar o que ele acha de sua própria aparência, pois ela, e a interação social, estão interligadas. A aparência física causa um profundo impacto numa primeira impressão. Vestir-se apropriadamente, pode fazê-lo sentir-se melhor a respeito de si mesmo.
- Encorajá-lo a envolver-se em um serviço voluntário. Compartilhando dons, talentos, conhecimentos e sentimentos, esse jovem poderá aliviar sua timidez.
Ajude-o a descobrir seu dom natural e sua capacidade espiritual. Descubra maneiras de como canalizar suas habilidades em uma tarefa ou serviço que o realize pessoalmente.
PERSPECTIVA BÍBLICA
Êxodo 3.1 a 4.17, especificamente o versículo 4.11.
Quando Deus chamou Moisés e este, desconfiando de sua própria capacidade e olhando para sua inibição pessoal, colocou uma série de dificuldades, ouviu dEle uma verdade que serve de exortação para todos nós: "Respondeu-lhe o Senhor: quem fez a boca do homem? Ou quem faz o mudo ou o surdo, ou o que vê, ou o cego? Não sou eu, o Senhor?"
Jeremias 1. 4-10
Ao ser chamado, Jeremias julgou-se inapto, mas o Senhor lhe disse: "... a todos a quem eu te enviar, irás; e tudo quanto eu te mandar, falarás. Não temas diante deles; porque eu sou contigo para te livrar, diz o Senhor."
1 Coríntios 1. 26-29
"... Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes;"
2 Coríntios 4.7
"Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós."
A época da adolescência é uma fase que determina muito o caráter, o desempenho do futuro adulto. Oferecer-lhes um tempo tranqüilo, onde possam sentir o amparo emocional e a compreensão daqueles que estão ao seu lado e se interessam por ele, contribuirá sensivelmente para seu sucesso como pessoa.
A timidez, quando detectada desde a infância e adolescência, pode ser trabalhada e revertida em determinação, em auto superação. Além destes conceitos é essencial que nossos adolescentes sejam amados, aceitos e acompanhados de perto, respeitando-se sua individualidade.
Certamente, o tempo gasto ao lado de um jovem até vê-lo adquirir a força e a compreensão necessárias para vencer suas próprias limitações, nunca será em vão.
Artigo baseado no capítulo 6 - "Timidez", do livro "Adolescência - Crise ou Curtição?", de Jaime Kemp, Editora Vida.
JAIME KEMP
é atualmente diretor da Sociedade Religiosa Lar Cristão. Foi missionário da Sepal por 31 anos e fundador da Missão Vencedores Por Cristo. É conferencista e autor de 33 livros. Aceita convites para seminários e palestras.