Rivalidade
entre Irmãos

Zé Sérgio
é um adolescente de catorze anos de idade e, ele e seu irmão
Ricardo, de dezesseis anos brigam constantemente.
Qualquer olhar diferente ou um gesto mais abrupto, sempre provoca uma batalha
verbal, física, ou ambas. Eles competem entre si pela atenção
de qualquer pessoa. Argumentam sobre quem ficará com o lugar privilegiado
no carro, quem terá prioridade em assistir TV e quem é o mais
habilidoso no futebol.
Muitas vezes, objetos valiosos da casa acabam despedaçados simplesmente
por estarem ao alcance dos dois durante uma briga.
Um dia Zé Sérgio implicou com o tempo que seu irmão
estava gastando ao telefone com a namorada. Sem pensar duas vezes, ele calmamente
cortou o fio do aparelho, e sentiu-se vitorioso!
Em outra oportunidade, fora de si, inteiramente irado, ele ameaçou
Ricardo com uma faca.
Desesperados, sem saber como agir diante da situação, seus
pais procuraram-me para aconselhamento.
Irmãos e irmãs podem ser os maiores amigos, os piores inimigos,
ou ambos, dependendo das circunstâncias, da hora do dia e das oscilações
de humor.
Irmãos podem ser surpreendentemente amáveis uns para com os
outros, mas também podem ser implacavelmente cruéis.
Rivalidade entre irmãos, até certo ponto, deve ser encarada
como natural, talvez inevitável. É um espírito de ciúme
e competição entre pessoas da família. Ela pode ter
um efeito devastador no lar, sendo um elemento destrutivo ao invés
de construtivo.
Quando a rivalidade provoca brigas freqüentes e competição
séria e descontrolada, isso gera comportamentos abusivos. Quando
um dos irmãos sente-se vitimado e preterido por seus pais em favor
do outro, ele tende a tornar-se obsessivo, procurando sempre que possível
"puxar o tapete" de quem ele julga ser a causa de seu aborrecimento.
Geralmente o abuso entre irmãos resulta da tentativa de um dominar
o outro, exercer poder sobre o mais frágil. Para tanto, são
utilizadas algumas táticas que vão do extremo verbal, com
adjetivos pejorativos e cruéis e a insinuação de fatos
aterrorizadores que apavoram o (a) mais sensível e/ou mais ingênuo
(a), até o despotismo físico, demonstrado na destruição
de objetos queridos que o outro gosta, arranhões, beliscões,
socos e mesmo pontapés.
CAUSAS
1. Favoritismo
Os filhos dependem muito do amor, da atenção dos pais
para suas necessidades serem satisfeitas. Para eles, o pai e a mãe
são seu porto seguro, seu ponto de referência e, por
isso, não querem dividi-los com ninguém.
O favoritismo dos pais para com um de seus filhos consegue incitar
uma tremenda rivalidade entre os irmãos. Em Gênesis
37. 12-36, temos a descrição de um pai, Jacó,
que favoreceu o filho de sua velhice, José, inclusive presenteando-o
com uma capa multicolorida. Isso enraiveceu seus irmãos,
provocando entre eles uma enorme barreira que permaneceu por décadas.
2. Ciúmes
A principal fonte de ciúme é a insegurança
que provém da competição. Irmãos sentem
ciúmes das notas altas que o outro consegue, dos talentos
que ele possui, de sua aparência, de seus privilégios
familiares, da atenção e do carinho que os pais lhe
dedicam. Todos esses fatores, e ainda outros, criam um clima de
rivalidade que pode culminar em abusos.
3. Transferência
Às vezes os sentimentos hostis que causam a rivalidade entre
irmãos decorrem de uma transferência de frustração
e raiva. Os pais brigam com um deles por uma determinada atitude
ou comportamento, negam um pedido, etc. Imediatamente, para aplacar
sua frustração e raiva, ele "descarrega"
sobre o irmãozinho (a) toda sua ira, chegando até
a bater no menor, que é mais indefeso, transferindo para
alguém que não tem nada a ver com o caso, toda sua
hostilidade, apenas por ter sido contrariado.
4. Comparação desfavorável
A raiz do sentimento de inferioridade e da rivalidade, geralmente
é a comparação. Entre adolescentes isso ocorre
em três áreas:
A. jovens são extremamente sensíveis quanto à
sua aparência e às características de seus corpos.
É altamente inflamável, um risco eminente de explosões,
um pai desfazer-se em elogios para um de seus filhos diante do outro,
que aparentemente não é assim tão bonito.
B. os pais devem compreender que cada um de seus filhos é
único, uma pessoa completamente diferenciada. Talvez um seja estudioso
e vá muito bem na escola, enquanto o outro nem tanto. Mas este
último, com certeza, é extremamente apto para outro tipo
de atividade. É necessário haver muito cuidado e sensibilidade
para que as comparações não destruam futuros promissores.
C. crianças, em especial garotos, são extremamente
competitivos quanto a habilidades esportivas. Se o pai torce ardorosamente
para o Palmeiras, inconscientemente ele tem a tendência de ser mais
próximo do filho que gosta de jogar futebol e, claro, gosta também
do Palmeiras. O outro, que não é adepto desse esporte, sente-se
literalmente como participante de outra torcida.
5. Identidade
Um jovem torna-se inseguro e confuso quando ainda não conseguiu
descobrir quem ele é na realidade. Este é um estopim para
surgir a rivalidade com seu irmão que é mais seguro de si.
Um pequeno insulto à sua dignidade ou auto valor já é
o bastante. Esses insultos incluem gozações, sarcasmo, tratamento
injusto e tentativa de domínio que o mais forte procura exercer
sobre ele.
Especialmente durante os anos de adolescência, quando ocorrem mudanças
físicas e emocionais radicais, o jovem pode ter o "pavio curto"
em relação ao irmão.
Está também comprovado que durante os anos de adolescência,
os níveis hormonais têm relação com os freqüentes
rompantes de ira.
6. Stress
Uma das fontes de rivalidade entre filhos de um mesmo casal é o
stress que advém da situação familiar: conflitos
entre os pais, tensões financeiras, pai ou mãe alcoólatra,
etc. Inadvertidamente os progenitores jogam sobre seus filhos suas aflições,
lutas, temores, necessidades, desentendimentos, impondo-lhes um fardo
demasiadamente pesado que só pode culminar com stress na vida dos
adolescentes, provocando rivalidade entre eles.
7. Ambiente doméstico
A própria estrutura familiar pode ocasionar conflitos entre irmãos.
Eles competem pelo espaço em si, pelos objetos e áreas tangíveis
da casa. Alguns exemplos seriam a disputa pelo uso do telefone, do banheiro,
da TV, a batalha por privilégios no quarto, quando ambos ou todos
dormem juntos, etc.
8. Desejo de receber atenção
Os filhos são carentes do carinho, atenção e cuidado
de seus pais. Eles brigam com o propósito de obter a atenção
do pai ou da mãe, ou dos dois, mesmo a custo de serem posteriormente
disciplinados ou receberem uma reprimenda.
CONSEQÜÊNCIAS
1. A rivalidade não é totalmente destrutiva
Enquanto a rivalidade entre os filhos pode preocupar sensivelmente os
pais e criar alguns transtornos familiares, por outro lado ela não
é totalmente destrutiva.
Quando ainda pequenos, a grande maioria dos irmãos costuma brigar
de vez em quando. Isso é normal! Essa forma de relacionamento deve
servir para amadurecer a capacidade de interagir e enfrentar os conflitos
humanos.
2. Ataque à auto estima
Isso acontece quando a rivalidade e o conflito são severos e atacam
frontalmente a auto estima, o valor do outro (a). Se uma criança,
através de um longo período de tempo, é espezinhada
por seu irmão, sem a interferência ou intervenção
corretiva dos pais, ela cresce, atravessa a adolescência com dificuldade
e alcança a maturidade com sentimentos de inadequação
e inferioridade. Ela crê nas mensagens que recebeu na infância.
3. Abuso
Como já mencionei, existem abusos verbais, físicos, comportamentais.
Eles criam sentimentos de culpa, desconfiança, deficiências
na habilidade de relacionar-se e uma auto estima precária.
As cicatrizes causadas por um irmão insensível podem ter
o estigma de uma marca indelével, duradoura.
CONSELHOS
1. Conversa com os pais
Seguem-se abaixo algumas perguntas que os pais devem fazer a si mesmos
ou permitir que seus filhos lhes façam:
- Você trata cada filho de modo justo, reconhecendo sua singularidade?
- Você, como pai/mãe compara seus filhos na presença
deles?
- Você demonstra partidarismo ou favoritismo?
- Você mima algum de seus filhos?
- Você utiliza diversos termos elogiosos para um de seus filhos,
enquanto para o outro (ou os outros) não?
- Você favorece algum dos filhos gastando com ele mais tempo e dinheiro,
em detrimento dos outros?
- Você menospreza algum de seus filhos, atribuindo-lhe falta de
habilidade ou capacidade?
- Você reconhece e ressalta a singularidade de cada um de seus filhos?
- Você emprega uma parte de seu tempo semanal com cada um de seus
filhos, individualmente?
2. Procurar descobrir a fonte real da rivalidade
Às vezes o conflito é nada mais, nada menos, do que a conseqüência
do fato de duas pessoas imaturas viverem sob o mesmo teto. Porém,
uma desavença pode ser um sintoma de uma emoção sufocada
abaixo da superfície por um adolescente muito irado. Talvez ela
tenha sido provocada pela insensibilidade paterna, ao embaraçar
e envergonhar seu filho diante de um professor ou de seus amigos.
Desde que os adultos, geralmente, são muito difíceis de
serem confrontados, é bem mais simples direcionar toda ira para
um irmão mais indefeso.
3. Os pais necessitam colocar-se "na pele" de seus filhos
Intelectualmente, a rivalidade entre irmãos talvez seja de difícil
compreensão. Emocionalmente, os pais têm dificuldade em aceitar
esses sentimentos hostis entre seus filhos. Para tentar entender melhor
o problema, basta que ambos, pai e mãe, individualmente voltem
ao passado, ao lar de seus pais e relembrem suas próprias lutas
com a inveja, insegurança, competição, etc.
4. Ajudar o adolescente a avaliar seus sentimentos
- Por que há esse espírito de rivalidade entre você
e seu irmão (ou seus irmãos)?
- Você tem, de alguma forma, contribuído para isso?
Na história bíblica relativa aos filhos de Jacó,
parece-me que José provocou seus irmãos contando-lhes seus
sonhos, onde invariavelmente tinha um lugar de destaque e os irmãos,
sempre o serviam.
5. Ajudar o adolescente a expressar seus pensamentos
Exemplo: - Ao pai ou à mãe: - "Sinto que você
não tem tempo para mim".
- Ao irmão: - "Nós éramos bons amigos, mas sinto
que isso acabou. O que eu tenho feito para afastá-lo de mim?"
6. Cuidado para não comparar
Exemplo: "Por que você não é como seu (sua) irmão
(ã) ?"
7. Cada adolescente deve ser tratado individualmente - e
não da mesma forma que seus irmãos.
Os filhos anseiam por um tratamento diferenciado de seus pais, os quais,
por sua vez, respondem tentando justificar que são justos. No entanto,
eles precisam lembrar que cada filho é único, singular.
Cada um tem interesses, talentos, dons e personalidades diferentes. Eles
devem ser amados com a mesma intensidade, mas tratados diferenciadamente,
conforme seus pontos fortes e fracos e seus interesses pessoais.
8. Ensinar perdão
Adolescentes zangados, com ódio de seus irmãos, necessitam
da cura que somente é concedida pelo perdão. Precisam aprender
a perdoar a si mesmos e aos irmãos. Tenho certeza absoluta que
o perdão pode curar uma rivalidade crônica entre irmãos
mais rapidamente do que qualquer intervenção terapêutica
profissional.
A memória que não foi curada das feridas do passado, sem
a intervenção do perdão, prosseguirá causando
ira, amargura, ressentimento durante toda vida adulta.
A solução do perdão está em quebrar o poder
da memória de recriar ferimentos sobre alguma ocasião futura.
9. Estabeleça limites que respeitem a individualidade
de cada um.
A. Nenhum dos filhos deve gozar ou ridicularizar seu irmão.
B. O quarto do adolescente (ou seu espaço) é propriedade
particular.
C. O (a) filho (a) mais velho não pode ter a chance, ou
liberdade, de irritar o irmão menor.
D. O (a) filho (a) menor não pode ter a oportunidade, ou
a liberdade, de provocar seu irmão mais velho.
E. Os irmãos devem ser incentivados a brincarem juntos.
Por outro lado, também devem ser estimulados a ter sua recreação
sozinhos ou com algum amiguinho.
F. Os pais devem servir como mediadores dos conflitos, e fazê-lo
rapidamente quando esse conflito surgir, tomando o cuidado de serem justos.
(Estes sub-pontos foram elaborados com base no capítulo 5, do livro
"A Criança Voluntariosa" do Dr. James Dobson, Editora
Vida).
PERSPECTIVA BÍBLICA
O primeiro caso de rivalidade de que temos notícia, ocorreu na
família de Adão e está narrado em Gênesis 4.8:
Caim matou seu irmão Abel num momento de ciúme, raiva e
rancor doentios.
O segundo caso está em Gênesis 37.12-36, como já me
referi anteriormente, com José e seus irmãos.
Ainda em Juízes 9.5, Abimeleque assassinou setenta de seus irmãos
para que pudesse subir ao trono em Siquém.
Absalão mandou matar seu meio-irmão Amnon por este ter estuprado
sua irmã, Tamar (2 Samuel 13. 28, 29a).
Salomão ordenou que assassinassem seu meio-irmão Adonias,
com medo que este reclamasse o trono (1 Reis 2.25).
E, finalmente, Jeorão matou todos seus irmãos assim que
subiu ao trono de Judá (2 Crônicas 21) .
A Bíblia revela claramente os resultados trágicos da rivalidade
entre irmãos. É também muito evidente que o ciúme
entre irmãos não é aceitável ou desejável
no conjunto dos princípios da Palavra de Deus. Eis a prova dessa
constatação: Marcos 7.21,22; 2 Coríntios 12.20; Gálatas
5.19,20; Tiago 3.16; 1 Coríntios 13.4.
Diante de tantas evidências de que o Senhor tem interesse e meios
para solucionar a rivalidade entre irmãos, como resolver o conflito
entre Zé Sérgio e Ricardo?
Em primeiro lugar, é necessário entender as causas do porquê
isso estar acontecendo. Se não pudermos compreendê-las, não
poderemos cortar o mal pela raiz. Logo após, reconhecer a urgência
de trabalhar com essas desavenças, utilizando os conselhos que
expus neste capítulo. É importante frisar que, se isso não
for feito, elas poderão perpetrar-se para a vida adulta.
Por fim, confiantes na graça curadora, no poder restaurador de
um Pai que é extremamente amoroso, orar incansavelmente pela cura
desses dois rapazes.
A rivalidade entre irmãos antes de ser motivo para a exasperação
contínua de seus pais, deve ser um desafio para se aprofundarem
na vida de seus filhos com a intenção de proporcionar-lhes
um ambiente familiar que suscite amizade, carinho, compreensão,
respeito e amor entre eles.
Pr. Davi Merkh
está casado com sua esposa Carol a 22 anos e têm 6 filhos. Leciona no Seminário Bíblico Palavra da Vida, ministra como pastor auxiliar de exposição bíblica na Primeira Igreja Batista de Atibaia, e é autor de 14 livros com temas voltados para ministério criativo e o lar cristão pelas Editoras Hagnos e Atos.
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