Entrei na sala e logo em seguida ouvi a gargalhada. Olhei no quadro negro,
e entendi porque: mais uma vez alguém havia me "desenhado".
Cabeça e óculos enormes, orelhões e aquele olhar esquisito
do "crânio". Me pegaram de novo. Meu problema? Era o primeiro
da classe.
Claro que ser primeiro
na classe tem suas vantagens. A gente sai da terceira série antes
de ter que fazer a barba. Ainda somos menores de idade na oitava série,
e por isso não precisamos gastar dia 15 de novembro numa fila interminável
de votação. E nunca somos tentados a gastar um dinheirão
comprando gabaritos de exames para podermos passar de ano.
Não é
nada fácil ser o cérebro da turma, especialmente para o
jovem cristão que já se sente margenalizado por ser "diferente".
Algumas das lutas que pode enfrentar incluem:
*Ser considerado o "xodozinho" da professora
*Não fazer parte das panelas mais "quentes" da escola;
ser excluído de festas, jogos, etc.
*Sofrer pressão para colaborar na cola
*Ter que fazer a maior parte de trabalhos em grupo
*Sofrer a "síndrome de perfeição": uma
vez que estabelecemos um padrão alto, ninguém fica contente
com qualquer coisa menos de "10".
*Ser ridicularizado pelos outros, como se nossa inteligência fosse
tão desejável como contrair dengue nas suas férias
*Ser acusado de "elevar o padrão" da turma, assim fazendo
os outros parecerem burros
Como pode o aluno
cristão lidar com estes "males" de primeiro da classe?
Dois jovens na Palavra de Deus, José e Daniel, nos fornecem exemplos
de garra e fibra em meio a zombaria, provação e até
perseguição por serem "primeiros de suas classes"
Pelo que entendemos
em Gênesis, José era um rapaz super-inteligente, lindo, responsável
e fiel (Gn. 37, 39:6). Lemos sobre Daniel que ele era de "sangue
nobre", inteligente (talvez brilhante) e que era contado entre os
melhores jovens em todo o Israel (Dn. 1:2-4). Ambos destes jovens sofreram
pelas suas habilidades especiais. Mas também receberam os "parabéns"
de Deus, e recompensas que contrabalançaram as inconveniências
que sofreram por serem os "primeiros da classe". A vida destes
dois jovens nos ensina alguns princípios muito práticos,
para podermos "agüentar a barra" como alunos de destaque:
1. Seja fiel, custe
o que custar. Estou convencido de que a maioria daqueles que são
"primeiro da classe" não são mais inteligentes
que o resto da turma. Muitas vezes são simplesmente mais responsáveis.
Entregam trabalhos na data prevista. Não deixam que o cachorro
coma suas tarefas de casa. Estudam para provas. Fidelidade muitas vezes
explica a distinção entre mediocridade e excelência
Infelizmente, o jovem
fiel é muitas vezes tentado a abaixar o padrão. A pressão
de colegas para ser igual a eles pode ser quase insuportável. Daniel
e José sofreram pressão enorme, mas sabiam que o que Deus
queria em seus filhos era fidelidade (1 Co. 4:1). Ambos eram jovens de
destaque em todos os sentidos, por serem fiéis
2. Seja íntegro.
Outra tentação do jovem inteligente é de sacrificar
sua integridade no altar da popularidade. A pressão para colar
pode ser tremenda, especialmente quando a resistência resulta em
gozação, margenalização, ou até mesmo
ameaças. Assim, José e Daniel enfrentaram forte "persuasão"
para abaixarem seu padrão de integridade. Os irmãos de José
não gostaram nem um pouco do padrão alto que ele havia estabelecido.
Fazia com que eles parecessem maus. Daniel também foi tentado a
quebrar a lei de seu Deus, comendo comidas proibidas para ganhar o favor
do rei. Mas recusou, preferindo o aplauso do céu do que a aceitação
dos homens.
3. Tenha confiança
na bênção de Deus. Para agüentar as hostilidades
de colegas (e até irmãos) ciumentos, o jovem precisa confiar
nas promessas de Deus de um futuro brilhante. A gozação
é difícil, mas é temporária e não chega
a ser nada em comparação com os galardões que Deus
oferece no futuro próximo e distante (cf. Rm. 8:17). José
sofreu repetidas vezes pela sua insistência em manter um padrão
alto, mas no fim não somente foi elevado a uma posição
de destaque, como também salvou a vida de toda a sua família
(Gn. 50:20). Daniel foi perseguido por colegas invejosos, mas Deus libertou-o
da boca dos leões (Dn. 6). O jovem cristão precisa lembrar
que a pressão ajuda a lapidar caráter. Provérbios
nos adverte "Se te mostras fraco no dia da angústia, a tua
força é pequena" (24:10). Vale a pena esperar a bênção
de Deus, sendo firmes nos
"dias da angústia"
4. Não vingue-se.
Precisamos fugir da tentação de nos vingar, retribuir ou
simplesmente rir na cara de um colega que não passa de ano (ou
de prova). José tinha toda oportunidade de dar troco para seus
irmãos depois de tudo que havia sofrido às mãos deles,
mas ao invés disso abençoou-os. Daniel nunca mostrou um
espírito vingativo contra seus inimigos, mas esperava a hora de
Deus, que "acertou as contas". Provérbios nos lembra,
"Não digas, 'Vingar-me-ei do mal'; espera pelo SENHOR, e ele
te livrará" (20:22)
5. Não seja
orgulhoso. É muito difícil para quem nunca tirou nota menos
de "9.0" entender alguém que nunca tirou nota acima de
"8,0". Impaciência, ridicularização ou um
ar de superioridade e arrogância nunca convem ao jovem cristão.
O primeiro da classe precisa sempre lembrar as palavras de Paulo em 1
Co. 4:7: "Pois quem é que te faz sobressair? e que tens tu
que não tenhas recebido? e, se o recebeste, por que te vanglorias,
como se o não tiveras recebido?" Cabe ao jovem cristão
"primeiro da classe" ajudar os seus colegas, e compreender suas
dificuldades. Deve ser compassivo para com aqueles que não tiveram
os mesmos privilégios como ele, sempre lembrando de que tudo que
ele tem ele recebeu como dom de Deus para ser
usado no serviço de outros.
Nunca gostei nem um
pouco dos desenhos que ocasionalmente enfrentava no quadro-negro da minha
classe. Mas descobri, com o passar de tempo, que no fundo os outros alunos
me respeitavam. Tive oportunidades de ajudá-los em seus estudos
e também pude testemunhar para eles explicando porque não
podia colar nas provas. Mais tarde, quando recebi os resultados do vestibular,
sabia que valia a pena nunca ter relaxado diante da pressão. Valeu
a pena continuar "firme e inabalável" (1 Co. 15:58).
E havia outra vantagem. Quando me formei do colégio, não
precisava convidar netos para minha formatura.
Pr. Davi Merkh
está casado com sua esposa Carol a 22 anos e têm 6 filhos. Leciona no Seminário Bíblico Palavra da Vida, ministra como pastor auxiliar de exposição bíblica na Primeira Igreja Batista de Atibaia, e é autor de 14 livros com temas voltados para ministério criativo e o lar cristão pelas Editoras Hagnos e Atos.
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