A dor que Cura


Você
já foi pego por um temporal? Daqueles que mesmo que a gente esteja
com guarda-chuva, acaba ficando encharcado? É claro que isso também
já aconteceu comigo! Neste momento, porém, estou seco e observando
pela janela do meu apartamento a tempestade que desaba lá fora. Os
raios, como rápidos chicotes de néon rasgam os céus
deixando um rastro de luz extremamente claro, seguido de trovões
que ecoam como assustadoras bombas. Surge em minha mente, de forma inevitável,
aquela passagem do livro do profeta Naum: "O Senhor tem o seu caminho
na tormenta e na tempestade" (Naum 1.3).
Sabemos que, além do fenômeno físico propriamente dito,
Deus também caminha através das tempestades de nossas vidas.
E, como isso funciona quando se iniciam os redemoinhos compostos por enfermidades,
acidentes, morte? O que acontece em meio às tempestades das irritações
e frustrações? Como ficam os temporais que nos sobrevêm
decorrentes de nossa própria desobediência e pecado?
Davi também tem uma resposta para essas perguntas: O salmo 115.3
nos diz: "No céu está o nosso Deus e tudo faz como lhe
agrada".
Ele muitas vezes nos faz atravessar tempestades de disciplina porque nos
ama. A vida está intercalada com essas tempestades. E mesmo quando
estamos em meio aos "trovões" devemos nos consolar com
o fato de que Deus se utiliza desse método para, de forma mais eficaz,
desenvolver em nós um caráter mais digno e firme. As "pesadas
gotas" nos conduzem ao caminho da humildade e nos levam a aceitar o
caminho e o papel que Ele separou para nós. O objetivo delas é
atingir nossos corações, como podemos ver em Hebreus 12.5-6:
"... e estais esquecidos da exortação que, como a filhos,
discorre convosco: Filho meu, não menosprezes a correção
que vem do Senhor, nem desmaies quando por Ele és reprovado; porque
o Senhor corrige a quem ama, e açoita a todo filho a quem recebe".
Uma das razões porque Deus permite adversidade em nossas vidas é
que Ele utiliza o sofrimento para expressar Seu grande amor. Parece incoerente
e é realmente difícil o ser humano entender que um Pai amoroso
concorde e até promova a dor na vida daqueles que ama. Em nossas
mentes os conceitos de amor e dor são diametralmente opostos. Talvez
essa seja uma das razões de muitos pais serem contra a utilização
da vara, visto a possibilidade de causarem dor em seus filhos. É
aparentemente ilógico pais amorosos baterem em seus filhos queridos.
Porém, o pensamento de Deus coloca disciplina e amor caminhando juntos.
O amor necessita prever a possibilidade e probabilidade de vir a sentir
dor.
Até que ponto o Senhor permite que a dor nos acometa? Há um
limite imposto por Ele à adversidade que nos atinge?
Para que Paulo lhe prestasse atenção, Deus o cegou temporariamente;
quase matou Jonas, que foi engolido por um grande peixe. Acho que até
podemos afirmar que Deus fará qualquer coisa para motivar-nos a obedecê-Lo.
Certamente Ele não sente satisfação em submeter-nos
ao sofrimento, mas Deus odeia o pecado e está disposto a aplicar-nos
a provação visando livrar-nos do mal, do pecado.
A Palavra de Deus revela em Hebreus 5.8: "... embora sendo Filho, aprendeu
a obediência pelas coisas que sofreu..." . Se o Pai não
poupou Seu próprio Filho de sofrer, visando Seu aprendizado, quanto
mais não o permitirá a nós, pecadores?
Ainda em Hebreus, encontramos uma palavra de encorajamento: "... nem
desmaies quando por Ele és reprovado" (Hb 12.5b). Quando nos
deparamos com a disciplina divina, nossa tendência é desanimarmos
e sermos dominados pela auto piedade e desconfiança, ficando até
amargurados com o Senhor. Consideramos que Ele é severo demais e
questionamos Sua justiça e bondade.
Constantemente esquecemos que nosso Pai eterno nos trata como filhos e filhas.
Ao invés de esperarmos pela disciplina sempre que cometemos deslizes,
ficamos assustados com ela. Na verdade, tal atitude de Deus não passa
de uma evidência de que somos seus filhos. É a garantia de
um relacionamento entre pai e filho. "É para disciplina que
perseverais (Deus vos trata como a filhos); pois, que filho há a
quem o pai não corrige? Mas se estais sem correção,
de que todos se têm tornado participantes, logo sois bastardos, e
não filhos" (Hb 12.7,8).
Quando olho para trás, para quando minhas filhas ainda eram pequenas,
confesso que receava que a disciplina com a vara surtisse efeitos negativos
em suas personalidades. Entretanto, não houve nenhum trauma ou rejeição
para comigo; pelo contrário, aprofundamos muito nossos laços
de pai e filhas por causa dessa disciplina exercida com amor. "Além
disso, tínhamos os nossos pais segundo a carne, que nos corrigiam,
e os respeitávamos; não havemos de estar em muito maior submissão
ao Pai dos espíritos, e então viveremos? Pois eles nos corrigiam
por pouco tempo, segundo melhor lhes parecia; Deus, porém, nos disciplina
para aproveitamento, a fim de sermos participantes da Sua santidade"
(Hb 12.9,10).
Todos nós já nos deparamos com crianças que nunca foram
disciplinadas pelos pais. A Bíblia as define como "... entregues
a si mesmas" (Pv 29.15). Além de ser uma vergonha para seus
pais, tornam-se indesejáveis e intratáveis para o convívio.
Também é verdade que quando a disciplina é falha, há
uma inclinação mais substancial para o comportamento auto
destrutivo. Deus sabe que se não formos disciplinados, o pecado terá
acesso liberado às nossas vidas e nos precipitará num caminho
de ruína. Ele nos ama tanto que não ficará de braços
cruzados, assistindo nosso fim, mas interferirá através da
disciplina.
Quando eu corrigia minhas filhas tinha dúvidas se não estava
sendo severo demais ou até mesmo injusto. Mesmo assim, diante da
possibilidade de um eventual engano, um pai consciente, responsável
e amoroso precisa disciplinar seus filhos. O argumento do versículo
10 do livro de Hebreus é praticamente esse: se nós, que somos
imperfeitos, que até cometemos erros na tarefa de disciplinar, mesmo
assim a aplicamos para o bem de nossos filhos, quanto mais Deus, que é
perfeito, que não se engana na correção a que nos sujeita,
por que Ele não nos disciplinará para evitar pecados futuros?
Tenho certeza de que algumas vezes disciplinei as meninas injustamente.
Em algumas ocasiões eu estava com raiva, em outras, o fiz com um
certo espírito de vingança. Ainda aconteceu de eu estar irritado,
então, disciplinei-as para que se comportassem bem em determinada
situação, preocupado com meu sossego e minha imagem diante
das pessoas ao redor. Contudo, nosso Pai Celestial nunca disciplina com
alvos errados, mas para criar um caráter firme e equilibrado em cada
um de nós.
"Toda disciplina, com efeito, no momento não parece ser motivo
de alegria, mas de tristeza; ao depois, entretanto, produz fruto pacífico
aos que têm sido por ela exercitados fruto de justiça"
(Hb 12.11). O propósito divino não é nosso bom comportamento
imediato. O alvo é para longo prazo. É criar um caráter
semelhante à imagem de Jesus Cristo em nossas atitudes, personalidades
e almas.
Antes de disciplinar minhas filhas, sempre procurei fazê-las entender
a razão pela qual elas deveriam passar por aquilo. Entretanto, no
que se refere ao Senhor, nem sempre Ele explica o como, onde e porquê.
Às vezes temos a impressão que nosso pecado passou despercebido.
Nada acontece. Há muitos cristãos que, ao pecar, já
se perguntam qual será a forma que Deus os disciplinará.
Podemos ter certeza de que a disciplina não é motivo de alegria,
mas de tristeza. Tristeza para o pai, para a mãe que a administram
e para os filhos que a recebem. Mas, como a Bíblia afirma: "...
ao depois, entretanto, produz fruto de justiça."
JAIME KEMP
é atualmente diretor da Sociedade Religiosa Lar Cristão. Foi missionário da Sepal por 31 anos e fundador da Missão Vencedores Por Cristo. É conferencista e autor de 33 livros. Aceita convites para seminários e palestras.
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