Como
estrangeiro no Brasil, sinto muito que serei sempre um "peixe fora
da água". Não tenho um "RG" mas um "RNE"-Registro
Nacional de Estrangeiro". Esse meu "visto permanente" me
identifica como "estranho" em todos os sentidos: além de
ser uma cor esquisita (laranja), sempre me identifica como alguém
permanentemente carimbado como "diferente". Não importa
quanto eu me esforço, nunca ficarei completamente contextualizado.
Não gosto quando pessoas olham para minha roupa-camisa xadrez com
bermuda amarela e meia branca-e logo dizem "eis aí, mais um
gringo". Odeio quando pessoas perguntam logo depois de conversarmos
alguns minutinhos: "Você não é daqui, né?"
Ninguém
gosta de ser diferente. Há forte pressão para se conformar
. ..mas ao mesmo tempo, uma tensão por saber que nunca será
igual aos outros. No meu caso, estou no Brasil sem ser totalmente
do Brasil.
Como
crentes em Cristo Jesus, sofremos uma outra tensão: a de sermos
conformados com a imagem de Jesus (Rm 8.29) e não conformados com
o mundo (Rm 12.1,2), mas ao mesmo tempo, ser tudo para todos para ganhar
alguns (1 Co 9.22). Jesus caracterizou bem essa tensão quando disse
que estamos "no mundo, mas não do mundo." Como podemos
estar no mundo sem permitir que o mundo esteja em nós?
Uma
pequena fábula ilustra o desafio de sermos equilibrados, em nossa
convivência com o mundo
Era
uma vez, uma família de Urubus vivia na fenda de uma rocha numa
montanha. Um dia foi descoberto que a família passava mal, pois
pegara uma doença comendo carne podre
Quando
o Gavião soube disso, ficou muito crítico. "É
problema deles" ele falou. "Vivem comendo animais mortos o tempo
todo. Merecem tudo que recebem. Eles nunca aprendem." O Gavião,
indignado pelo estilo de vida podre dos Urubus, em vez de ajudá-los,
iniciou uma campanha contra eles. Enquanto os Urubus se tornaram cada
vez mais fracos, o Gavião advertiu aos outros pássaros a
não se aproximarem da casa deles. Passava baixo-assinados para
expulsá-los da vizinhança. Quando os Urubus estavam mal
mesmo, o Gavião contava piadas a custo deles
A
Águia lidou com o problema dos Urubus de forma totalmente diferente.
Nunca um fã deles, a Águia simplesmente os ignorava. Construiu
seu ninho muito mais alto do que o deles (e muito acima dos outros pássaros
também) e os olhou com nariz (ou bico) empinado. Ficou isolada
dos outros pássaros e dos seus problemas, formando sua própria
comunidade exclusivista, com suas próprias regrinhas e regulamentos
O
Papagaio foi diferente-o oposto da Águia. Sempre fascinado pelo
Urubu, ele admirava sua independência e liberdade. Mesmo sabendo
o risco de viver como um Urubu, ele não se importava muito com
isso. Por que ele também não podia comer o que ele queria,
quando ele queria, mesmo se fosse comida estragada? E assim ele fez. O
papagaio se tornou como um Urubu. Ele voou como Urubu, comeu como Urubu.
Infelizmente, também pegou doença como o Urubu. Certamente
não ajudou em nada os Urubus, fora o fato de que a miséria
gosta de companhia
Esta
fábula ilustra como alguns respondem de formas diferentes ao desafio
de estar "no mundo, mas não ser do mundo". A maioria
de nós adota uma de três atitudes no nosso envolvimento com
o mundo. Vamos considerar estas respostas, e depois propor uma maneira
bíblica de lidar com a sociedade em que vivemos.
O
Crente Gavião: Ataca o Mundo
O
gavião é um pássaro bonito, porém agressivo
e orgulhoso, que vive a custo dos outros. Parece majestoso, mas não
é tão sofisticado que não pode comer animais mortos.
O
cristão "gavião" tem como lema de sua vida Judas
3b: "batalhar diligentemente pela fé uma vez por todas entregue
aos santos". Ele nunca se esquece do fato de que estamos numa guerra-uma
luta de unhas e dentes contra o paganismo, secularismo, humanismo, modernismo,
liberalismo e comodismo.
Infelizmente, o crente gavião gasta tanta energia combatendo inimigos
ou tentando "concertar o mundo" através de suas críticas,
que não atrai muitos para sua causa. Adota métodos como:
marchas, envolvimento político, greves, protestos e boicotes para
demonstrar sua força, para que pessoas o respeitem.
Força
humana, mesmo em nome de Jesus, não efetua muitas mudanças
eternas. Nos dias de Jesus, os zelotes adotaram a mesma filosofia ao lidar
com o odiado jugo romano. Muitos seguidores de Jesus queriam que ele quebrasse
aquele jugo como Messias-Libertador. Mas não foi o caminho escolhido
pelo Mestre "manso e humilde de coração". Na história,
as cruzadas e a Inquisição são exemplos de tentativas
sinceras, mas enganadas de "gaviões" se relacionarem
com o mundo.
Há
elementos de verdade nesta posição do gavião. Estamos
numa guerra espiritual (Ef 6.12)-só que não é contra
carne e sangue, fato que muitos gaviões esquecem em suas denúncias.
Os profetas do Velho Testamento eram muito capazes de condenar pecado
em sua sociedade, mas também sabiam ministrar graça e compaixão,
diferente dos gaviões modernos que bombardeiam clínicas
de aborto em nome de Jesus
O
reino de Jesus não é deste mundo, e não será
tomado por força, nem poder, mas por meios espirituais (Zc 4.6).
Jesus ensinava os discípulos a serem pescadores de homens; o gavião
prefere jogar uma bomba no lago e colher os peixes mortos que sobem. Jesus
nos chama para odiar o pecado, mas amar ao pecador. Nossa luta é
contra "potestades e principados", não contra homens.
A ênfase do nosso ministério tem que ser espiritual. Os meios
do nosso ministério têm que ser espirituais. Jesus e Paulo
nunca passaram baixo-assinados ou marcharam contra Roma. Não que
estes métodos nunca têm seu lugar, mas não deve constar
a totalidade do nosso envolvimento com o mundo
O
problema com o crente gavião é que ele ataca o mundo, sem
perceber que o mundo está nele.
O
Crente Águia: Isola-se do Mundo
De
todos os pássaros, talvez a águia seja o mais nobre, o mais
majestoso. Mas a águia também simboliza orgulho, arrogância,
inacessibilidade
O
texto-base do crente águia é 2 Co 6.17 "retirai-vos
do meio deles, separai-vos". Ele resolve a tensão entre "estar
no mundo, sem ser do mundo" por isolar-se do mundo. "Talvez",
pense ele, "se eu ignorar o mundo ele desapareçerá."
O cristão águia é separatista de tudo e de todos,
e tem orgulho de ser assim conhecido. Ele se acha puro, santo, por não
se contaminar com o mundo e seus problemas
O
crente águia geralmente não reconhece que se tornou irrelevante
para o mundo, pois gosta de pensar que, por ser tão diferente,
está sendo sal e luz. De fato, fica tão distante, que não
tem nenhum impacto naqueles ao seu redor!
Nos
tempos de Jesus, os essênios, grupo separatista, criou sua própria
comunidade no deserto, longe do mundo real. Ao longo da história,
muitos outros grupos tentaram escapar da poluição do mundo
sendo monges ou eremitas. Mas muitos descobriram que é impossível
escapar do mundo, pelo fato do mundo estar dentro deles. "Aonde tu
fores, tu te levas contigo."
De
todos os crentes "águias", os fariseus eram os piores.
Eles enganavam-se com suas tradições e leis, que evitavam
contato com a sociedade e os problemas das pessoas, pensando que assim
se santificariam. Mas Jesus reservou para eles suas condenações
mais quentes (Mt 23)
Um
grupo chamado os "Amish" nos Estados Unidos exemplifica o extremo
desta estratégia separatista. Os Amish formam suas próprias
comunidades, mantendo os padrões de vida de séculos passados.
Não usam luz elétrica, não dirigem carros, não
costuram botões em suas roupas, que por sinal são todas
pretas e roxas. Sua rigidez e seu legalismo os colocam "acima"
daqueles ao seu redor, ou assim pensam eles. Mas são poucos que,
atraídos pelo seu estilo de vida se tornam Amish. Pelo contrário,
muitos jovens Amish deixam a cultura de seus pais
Há
aspectos positivos do cristão águia. Deus nos chamou para
sermos santos, como ele é santo (Mt 5.48). "Santidade"
significa separação da impureza. De fato, somos sal e luz
(Mt 5.13-16), chamados para não sermos contaminados pelo mundo
(Fp 2.15,16; Tg 1.27). Mas isso não significa que precisamos nos
retirar do mundo. Não foi isso que Jesus e Paulo tinham em mente.
1 Co 5.9,10 deixa isso claro: Já em carta vos escrevi que não
vos associásseis com os impuros; refiro-me com isto não
propriamente aos impuros deste mundo, ou aos arvarentos, ou roubadores,
ou idólatras; pois, neste caso teríeis de sair do mundo."
Não
é possível separar-se do mundo e assim tornar-se santo.
Alguém tem que ver as nossas boas obras, para poder glorificar
a Deus (Mt 5.13-16). Há perigo nas comunidades e sub-culturas evangélicas,
"clubes" nas igrejas que praticamente excluem descrentes. O
crente águia não reflete o que Jesus quis dizer quando nos
chamou para estar "no mundo, mas não ser do mundo."
O
problema com o crente águia é que ele não está
no mundo, mas o mundo continua nele
O
Crente Papagaio: Imita o Mundo
O
papagaio é o "Maria-vai-com-os-outros" do reino animal.
Este conformista adota os padrões do mundo, imaginando que assim
vai ganhar seus colegas para Cristo. Sua lema é "Ser tudo
para com todos para ganhar alguns" (1 Co 9.22). O papagaio sacrifica
a verdade e a santidade em nome do amor. "Por que ser diferente?"
ele pensa. "Se for aceito por eles, terei uma uma audiência
para o evangelho."
Os
saduceus e Herodianos nos tempos de Jesus eram assim. Assimilaram-se aos
padrões romanos e assim ganharam poder político. Mas tinham
pouca influência espiritual. Tornaram-se sal sem sabor
O
problema com o crente papagaio em relação ao mundo é
que ele não tem muito para oferecer. Para ter valor, sal tem que
ter um sabor especial, senão não presta para nada. Se não
há nenhuma diferença entre o crente e o mundo, como atrair
o mundo para Jesus? (cf. 1 Pd 3.15, Rm 12.1,2, 1 Jo 2.15-17)
Infelizmente,
muitos jovens estão se tornando papagaios, procurando aceitação
no mundo. Seu estilo de vida, não os diferencia dos seus amigos
não-crentes. Seu falar é igual, sua música é
a mesma, seus padrões de namoro são idénticos
Igualmente
preocupante são os movimentos evangélicos que adotam os
padrões do mundo para "ganhar alguns". Suas técnicas
de "marketing", sua mensagem diluída, sua ética
em nada difere do mundo. Por que seus colegas devem dar ouvidos?
O
problema com o crente papagaio é que ele está no mundo,
e o mundo está nele
Existe
um outro tipo de cristão, que melhor exemplifica o equilíbrio
entre "estar no mundo" sem que o mundo esteja nele
O
Crente Pomba: No Mundo, mas não Do Mundo
O
fim da nossa fábula ilustra como ser um crente no mundo, sem permitir
que o mundo esteja em você:p>
A
Pomba foi o único pássaro que realmente ajudou a família
Urubu. Sem condenar ou atacá-los, e sem comer carne podre como
eles comiam, a Pomba assumiu o compromisso de visitá-los e levar
carne fresca para eles. Pouco a pouco os Urubus se sentiram melhor. Percebendo
algo diferente na Pomba, logo aprenderam o segredo da sua saúde.
Aprenderam a sua higiêne, seus hábitos de vida. Depois de
algumas semanas, os Urubus estavam se comportando como Pombas. E os Urubus
e as Pombas viveram felizes para sempre.
A
pomba é um pássaro calmo, gentil, bondoso, tranqüilo.
Sempre está no meio dos outros pássaros, mas nunca causa
tumultos como as outras aves.
A
pomba sabe como estar no mundo (entre os outros pássaros) sem ser
contaminado pelo mundo (adotar seus padrões de vida). Foi isso
que Jesus tinha em mente em Jo 17.13-20. Neste texto ele traça
três verdades sobre o envolvimento do cristão "pomba"
com o mundo:
1) Não somos DO mundo (14,16)
2) Estamos NO mundo (15)
3) Somos enviados PARA o Mundo (18)
A
história de Daniel no Velho Testamento ilustra estes princípios
na vida de um crente "pomba". Com 17 anos Daniel foi exilado
para Babilônia, longe de seus familiares, de sua terra, de sua língua
e cultura. Em áreas não-morais, Daniel entrou na nova cultura
para valer. Aceitou uma mudança de nome, foi para suas escolas,
desenvolveu uma carreira no serviço civil. Em áreas morais,
porém, no tocante à lei de seu Deus, ele colocou seus pés
no chão e recusou comer e beber o que foi proibido, mesmo que custasse
sua carreira, e talvez sua vida. Ele e seus amigos não se isolaram
da cultura, pondo suas cabeças na areia, mas se envolveram até
o ponto de comprometer seus ideais
Foi
assim na vida de Jesus. Em áreas não-morais, ele se identificava
com pecadores (comia com eles, ia para suas festas de casamento, pescava
com eles.) Mas ele traçou uma linha em áreas morais e não
foi influenciado pelos padrões de vida daqueles ao seu redor. Fazia
parte de sua cultura, sem ser contaminado por ela
Confesso
que não é fácil achar este equilíbrio! A luta
é constante, e a tentação de cair para um lado ou
outro existirá sempre. O segredo é também a moral
da fábula: O cristão precisa achar equilibro para estar
no mundo, sem permitir que o mundo esteja nele.
*Não sejamos crentes gaviões, atacando e criticando o mundo
ao redor, esperando que as pessoas se comportem como cristãos,
quando não têm a capacitação do Espírito
de Deus.
*Não sejamos cristãos águias, distantes, isolados,
aquém dos problemas e do dia-a-dia do "povão".
Senão, nunca vamos alcança-los.
*Não sejamos papagaios, em nada diferentes do mundo, e por isso,
em nada atraentes para ele
Vivamos,
sim, como estrangeiros na terra. Não será fácil,
pois ninguém gosta de ser diferente. Mas a recompensa está
"fora deste mundo"
Pr. Davi Merkh
está casado com sua esposa Carol a 22 anos e têm 6 filhos. Leciona no Seminário Bíblico Palavra da Vida, ministra como pastor auxiliar de exposição bíblica na Primeira Igreja Batista de Atibaia, e é autor de 14 livros com temas voltados para ministério criativo e o lar cristão pelas Editoras Hagnos e Atos.
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