Educação Verdadeiramente Cristã
Pr. Davi Merkh
Adeíldo Luciano Conceição


Certa vez o professor de um seminário tocou uma fita K-7 para seus alunos. Juntos escutaram a voz sonora de um pregador cativante. No final da fita, o professor pediu para seus alunos avaliarem a mensagem. Eram unânimes que fora um dos melhores sermões que já ouviram. Até que o mestre lhes explicou que o homem era o líder de uma seita que negava a divindade de Jesus. O problema não estava no que o pregador falou, mas no que ele não falou. Sua mensagem era anti-cristã.
Quem precisa de educação cristã? Todos nós! Aqueles seminaristas ainda precisavam de uma educação cristã. Pastores e professores da EBD precisam de uma educação cristã para proteger suas ovelhas contra os lobos que os devorariam. Pais precisam de educação cristã para preparar seus filhos para dias difíceis pela frente. O apóstolo João, amigo íntimo do Senhor Jesus, advertiu, "Amados, não deis crédito a qualquer espírito: antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora" (1 Jo 4:1). Paulo diz que essa ameaça atingirá proporções gigantescas no fim dos tempos: "Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios... Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres, segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos" (1 Tm 4:1, 2 Tm 4:3). Diante destas advertências dos apóstolos, certamente devemos nos preocupar em ficar atentos para detectar os falsos profetas. E é aqui que reside a importância de uma boa educação cristã: é por meio dela que nos tornamos capazes de detectar os falsos profetas e suas mensagens enganosas.
Mas, afinal de contas, o que é uma Educação verdadeiramente Cristã?
Alguns pressupõe que a Educação Cristã se baseia na memorização de fatos e textos bíblicos. Certamente a educação cristã inclui conhecimento de grandes histórias e fatos bíblicos: como Davi matou Golias, onde Paulo foi nas suas viagens missionárias, os nomes das 12 tribos de Israel e etc.. Saber que a Bíblia tem 66 livros, 1189 capítulos e 31.173 versículos é interessante. E poder citar textos bíblicos de cor pode ter muito valor na luta contra pecado. Mas os fariseus eram campeões de concursos de EBS (Escola Bíblica Sabatina), sem ter a mínima noção do que era verdadeiramente uma educação cristã. Todos nós conhecemos pessoas "craques" de Bíblia mas com vidas espirituais pobres. O próprio diabo conhece bem a Bíblia, mas nem por isso tem uma educação cristã (veja Tg 2:19; Mt 4:6). Conhecimento bíblico é fundamental, mas não é a essência da educação cristã. Educação verdadeiramente cristã toca o coração, a vida do indivíduo.
Ainda outros interpretam a Educação Cristã como sendo uma espécie de moralização. É verdade que a Bíblia está repleta de princípios e máximas morais, tais como: Amar ao próximo, não furtar e etc. Certamente princípios morais são importantes, e fazem parte de uma educação cristã. Mas a Bíblia não foi escrita como livro de etiqueta. O problema não está nos princípios morais em si. O problema é que quando limitamos a mensagem bíblica a apenas máximas morais, a mensagem cristã perde seu poder de impacto na vida do pecador e se torna uma mensagem aceitável de ser pregada dentro de qualquer círculo herético sem levar o homem ao arrependimento. Uma mensagem ou lição que recomenda moralidade e compaixão sem falar de Cristo permanece sub-cristã, mesmo que o mensageiro consiga provar que a Bíblia exige tal comportamento. Na verdade, quando observamos outras religiões e seitas, em todas elas iremos perceber máximas morais verdadeiras e compatíveis com a Palavra de Deus.
Se Educação Cristã não se resume nestas duas categorias, como então podemos defini-la? Um acontecimento na vida de uma menina na pré-escola pode nos ajudar nesta tarefa. Ela tinha que fazer o papel de Maria, mãe de Jesus, num teatro natalino. No início tudo ia muito bem, e "Maria" sorria com satisfação enquanto admirava a boneca na manjedoura. Mas logo os animais, pastores e outras crianças encheram o palco, até que ninguém podia ver o berço humilde. Foi então que a menina levantou a boneca sobre a cabeça de todos, onde ela ficou até o final da peça. Depois, quando alguém perguntou por quê ela fezaquilo, a menina declarou: "Todos estavam tirando seu lugar. . . eu tinha que levantar Jesus!" Educação verdadeiramente Cristã é isto: é a educação focalizada em Cristo, que O expõe e O exalta.
Ele é o destaque, a distinção entre ensino religioso e ensino cristão. Ele é o ponto central de todas as Escrituras. Educação cristã se resume em duas grandes lições. Não representam um "plano de aula" mágico para professores, nem uma fórmula simplista que sempre produzirá o resultado desejado. Mas são elementos que devem estar presentes de alguma forma em todo ensino que se diz "cristão".
1) Educação cristã expõe a necessidade que o homem tem de Cristo.
Não adianta ensinar princípios morais se deixamos a impressão de que o homem seja capaz de cumpri-los por si mesmo. Somente a graça de Deus, pelo Espírito de Cristo, por causa da vida de Jesus em nós, nos capacita a viver a vida cristã. "Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim... Cristo em vós, a esperança da glória" (Gl 2:20; Cl 1:27). Na criação de nossos filhos, nas nossas aulas de EBD, nos nossos púlpitos, temos que expor a carência que o homem tem de Cristo. Sem Jesus, ninguém se salva. Sem Jesus, ninguém pode viver a vida cristã (Jo 15:5).
Mas como fazer isso de forma prática? Como pais, precisamos manter o padrão alto de santidade que Deus estabeleceu para nossos filhos, um padrão que visa atingir o coração (Mt5:48; Pv 4:23).
Pais servem como espelhos para os filhos verem o reflexo do seu interior. O pai que estabelece um padrão de fácil acesso, ou que focaliza somente o exterior (como os fariseus) cria um filho legalista ou um filho que não reconhece sua necessidade de Jesus. Professores e pastores atingem o coração quando expõem a santidade de Deus e a carência do homem, sempre apontando para a capacitação divina pela vida de Jesus.
2) Educação cristã exalta a solução divina para o homem: A Pessoa de Cristo.
Se o nosso ensino somente aponta a necessidade do homem, sem leva-lo à cruz, estamos impondo a Lei sem ministrar a Graça divina. Colocamos os ouvintes debaixo da Velha Aliança, sem contar-lhes o fim da história. Infelizmente, muito do nosso ensino (e muitos movimentos sub-cristãos de hoje) põem o povo debaixo da Lei, como se a cruz e a ressurreição de Cristo nunca tivessem acontecido, e como se eles, pelos próprios méritos, pudessem ser aceitos diante de Deus. Educação cristã leva o descrente até a cruz e o túmulo vazio, e leva o crente à semelhança com Cristo. Essa foi a "filosofia de ministério" do apóstolo Paulo (Cl 1:28,29).
Lembro-me de certa vez que estava prestes a dar um estudo bíblico num colégio evangélico sobre Pv 15:1 "A resposta branda desvia o furor, mas palavras duras suscitam a ira." Iria exortar as crianças a não ficarem iradas, a sempre falarem palavras suaves, a não provocarem seus colegas.
Mas de repente reconheci que aquela mensagem seria perfeitamente aceitável, por exemplo, entre a seita herética dos Testemunhas de Jeová. O que faltava neste ensino? Faltava um esclarecimento de que sem Jesus, ninguém era capaz de devolver palavras brandas por palavras duras; que a vida de Jesus realmente exemplificava essa atitude; que Jesus morreu e ressuscitou em nosso lugar, para que a vida dele seja vivida emnós; que aquele que ama Jesus guarda seus mandamento; que Ele quer tomar conta das nossas palavras e falar através denós. Por pouco fui poupado de ensinar uma mensagem que chamo de "sub-cristã".
Infelizmente, muitas vezes ficamos empolgados com tudo em nossas igrejas, menos Cristo. A estratégia de Satanás é desviar nossa atenção do que é central, para patinarmos sobre a periferia da nossa fé. Enchemos o calendário da igreja com programas. Envolvemo-nos na política. Seguimos doutrinas estranhas ou marginais farejando anjos (ou demônios), reivindicando bênçãos, declarando prosperidade, amarrando (ou desamarrando) demônios, mercadejando sinais, milagres e poder, tudo em nome de Jesus, mas muitas vezes sem proclamar a Jesus! (Mt 7:22,23). Talvez a maior abertura que temos dado para o inimigo está na música, onde se vê claramente uma desvalorização atual do valor final da cruz e da Pessoa de Jesus, e uma exaltação demasiada e triunfalista do poder do homem. Nossa música ficou "antropocêntrica" e não "cristocêntrica"! Uma das preocupações que devemos ter é de que a educação cristã enfatize o que Deus enfatizou em Sua Palavra-a sã doutrina focalizada na Pessoa de Cristo.
Jesus é a mensagem da educação cristã. Foi isso que Ele mesmo falou aos seus perseguidores religiosos em Jo 5:39: "Examinai as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim." No caminho a Emaús Jesus repetiu a lição: "E começando por Moisés, discorrendo por todos os profetas, expunha-lhes o que a SEU respeito constava em todas as Escrituras (Lc 24:27). O apóstolo Paulo deu esse testemunho sobre o motivo do seu ministério: "Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado... Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor"(1 Co 2:2, 2 Co 4:5).
Levantar Jesus é a grande tarefa da educação verdadeiramente cristã. Pois Ele, na Grande Comissão, nos incumbiu de ensinar a todos quantos se tornassem seus discípulos tudo quanto tinha ordenado (Mt 28.19-20). Portanto, não temos outra opção a não ser nos mantermos atentos para não perdermos de vista o verdadeiro foco da Educação Cristã - CRISTO e com isso tocar não somente o intelecto do ser humano, mas também sua alma. A Educação verdadeiramente Cristã não tem apenas o simples objetivo de formar a caráter de uma pessoa, na verdade, seu propósito é apresentar todo discípulo aprovado diante de seu Mestre.
Pr. Davi Merkh
está casado com sua esposa Carol a 22 anos e têm 6 filhos. Leciona no Seminário Bíblico Palavra da Vida, ministra como pastor auxiliar de exposição bíblica na Primeira Igreja Batista de Atibaia, e é autor de 14 livros com temas voltados para ministério criativo e o lar cristão pelas Editoras Hagnos e Atos.
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