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Feche os olhos e Abra os Braços - Tiago 2:1-13
Pr. Davi Merkh com Adeildo Luciano Conceição

O príncipe Leopoldo era, como todos os demais príncipes são, rodeado de tudo aquilo que desejava. Se ele queria um brinquedo novo, ele o tinha. Se queria passear a cavalo, sem demora um dos servos o levava a passear. E para toda hora, exceto aquelas nas quais estudava, tinha sempre alguém de plantão para brincar com ele.

Porém, certo dia uma dúvida lhe assaltou a mente: "estas pessoas que me cercam e me assistem verdadeiramente se importam comigo? Ou será que me assistem somente por que sou o príncipe? E se eu não fosse um príncipe, me dariam atenção do mesmo jeito?"

Resolveu levar sua dúvida à última consequência. Um belo dia pediu a seu pai que queria passar uns dias na casa de sua tia Cristina e para lá se foi. Na verdade, o que ele fez foi ganhar uns dias para deixar suas roupas de príncipe e andar como simples rapaz pela aldeia mais próxima do castelo.

Que experiência! Na igreja que entrou absolutamente ninguém o notou; na mercearia ninguém lhe ofereceu nada; na praça ninguém parou para cumprimentá-lo ou nem mesmo perceberam sua presença.

Decidiu fazer um teste: enfaixou sua perna esquerda e sentou-se no canto da praça como se estivesse gravemente ferido e esperou para ver quem se importaria com ele. Praticamente ficou a tarde inteira lá, vendo muitos homens e mulheres passando por ele e deixando-o como estava, talvez pensando que ele era apenas um filho de mendigo. Até que, já quase no pôr do Sol, um camponês o viu e decidiu socorrê-lo. O príncipe Leopoldo foi respondendo às perguntas do camponês como se de fato fosse filho de mendigo e observava até que ponto iria seu interesse.

Foi quando o camponês o tomou nos braços e iria levá-lo para o hospital que ele se revelou como príncipe. Então Leopoldo o levou ao castelo e o recompensou por sua bondade revelada a alguém que até então ele não conhecia. Naquele dia o camponês disse ao príncipe: "Na verdade, quem deveria ser honrado aqui deveria ser meu pai, pois foi com ele que aprendi a fechar os olhos e abrir os braços para acolher qualquer homem."

Esta história ilustra bem a advertência que Tiago nos faz em sua carta. No capítulo 2, dos versículos de 1 a 13 ele expressa a idéia de que a maneira como tratamos as pessoas a nossa volta revela o que realmente cremos a respeito de Deus.

Tiago percebeu que aquela igreja tratava bem aos "príncipes" mas, quanto aos "do povo", nem sequer os notavam. Ele cita na carta as viúvas e órfãos, pessoas praticamente sem sustento, desesperadas, desempregadas, sem teto e sem direitos naquela época (será diferente dos dias de hoje?). Naquele tempo em uma sociedade agrícola, sem INSS, sem orfanatos e sem asilos o que tais pessoas poderiam fazer? Quase nada. E pior, quem as ajudava não tinha perspectiva nenhuma de receber algo em retorno. Nenhuma gratificação; nenhum presente; nenhuma remuneração, pois, eram pessoas indefesas e incapazes de remunerarem seus benfeitores.

Assim como o príncipe Leopoldo testou os homens de sua aldeia vizinha, Tiago criou um estudo de caso para nos ajudar a verificar se sabemos praticar a Palavra de Deus ou não. O que acontece quando essas pessoas menos privilegiadas-órfãos, viúvas, doentes, fracos, pobres, menosprezados, drogados, bêbedos-entram na igreja? Quando pessoas "problemáticas" querem fazer parte da nossa comunhão? Como encaramos as pessoas? Existem preconceitos entre nós? Valorizamos certas pessoas mais que outras? Tiago, no "estudo de caso", envia dois visitantes para nosso culto-um rico, e um pobre. Depois, ele avalia como os tratamos. E de sua avaliação concluímos que favoritismo é incompatível com a fé por quatro motivos:

I. Favoritismo é Incompatível com a Fé em Cristo (1-4)

A palavra acepção de pessoas literalmente traz a idéia de levantar o rosto de alguém, ou seja, olhar simples e somente para sua aparência, e tratar com favor e respeito aqueles que podem nos retribuir. É interessante notar que a palavra é unicamente cristã, talvez pelo fato de que o favoritismo era tão aceito no mundo antigo, como hoje, que não foi nem identificado.

Tiago apresenta um cenário semelhante ao que contamos no início. Precisamos entender que a vasta maioria das pessoas na igreja primitiva eram pobres, escravos, menosprezados. A visita de um rico certamente seria ocasião especial.

O problema com favoritismo (que é o fruto de uma raiz podre) está no coração. Revela um coração que é cobiçoso, egoísta, com valores mundanos, crítico (juíz) e perverso.

Quase toda igreja tem suas panelinhas (não há problema com panelinhas, desde que não tenham tampa!). . . pessoas que encaram a igreja mais como clube do que como templo. Existem pessoas que usam a igreja para subir a escada social, para chegar ao topo da pirâmide espiritual.

A vida de Cristo em nós significa que devemos ver as pessoas como Jesus as via quando de seu ministério terreno (com órfãos e viúvas, 1.26). Será que eu vejo pessoas?

Jesus não fez acepção de pessoas (Mt 22:16). Para ele, a viúva com duas moedinhas valia tanto quanto ou até mais que o fariseu rico. Jesus via o potencial nas pessoas. Julgava pessoas não pelo seu passado, mas pelo seu futuro. Via em Pedro não uma pedra em sua sandália, mas uma rocha para sua Igreja. Via em Mateus não um coletor de impostos corrupto, mas um Escritor do Evangelho. Tocava no leproso. Confraternizava com os menosprezados, tanto rico como pobre.

A fé verdadeira não julga pessoas pela cor de sua pele, pela roupa de grife ou não, pelo país de origem, pelo carro que dirige, pelo status social, pelos graus e cursos, pelo dinheiro e casa que tem, pelo bairro onde mora. A fé verdadeira olha para todas as pessoas como candidatos para serem nosso próximo-alvo do nosso amor e do amor de Jesus. Não vê pelo que pode RECEBER, mas pelo que pode DAR.

Essa é a vida de Jesus em nós! O evangelho de Marcos nos lembra que Jesus não veio para ser servido, mas para servir, e dar a sua vida em resgate (10.45). Como praticamos a vida de Cristo em nós ? Aceitamos o irmão em Cristo porque Jesus vive nele? Recebemos o descrente, porque Cristo morreu por ele?

O filho de Deus vê todos não pela aparência, mas em relação a família de Deus. Fica cego a diferenças nacionais, sociais, econômicos, intelectuais.

II. Favoritismo é Incompatível com a Escolha de Deus (5)

Ao olharmos para a história da igreja percebemos que desde o início seus membros não foram amados por toda a sociedade. Ainda no primeiro século da era cristã, o filósofo romano Celso já descrevia os crentes como sendo: "vulgar, como um enxame de morcegos ou formigas fugindo da sus formigueira, ou rãs conduzindo um simpósio no meio de um brejo, ou minhocas numa convenção num canto da lama".

Porém, o apóstolo Paulo já havia dito aos crentes que Deus havia escolhido para ser seu povo justamente aqueles que eram os fracos e humildes ( 1 Co 1.26-27). Isto não significa que não há ricos e prósperos entre os escolhidos de Deus, mas Paulo queria consolar os crentes de Corinto pelo fato de que eles já enfrentavam o menosprezo da sociedade por causa de muitos serem pobres. Na verdade, podemos dizer que, enquanto o amor do homem é seletivo, o de Deus é "cego".

III. Favoritismo é Incompatível com a Realidade (Atual) Social (6,7)

Tiago aponta a incoerência de prestigiar as mesmas pessoas que estavam acabando com a igreja. Aqueles que haviam mal-tratado, menosprezado, oprimido, processado e blasfemado, agora recebiam lugar de honra na igreja.

A realidade cultural do primeiro século, e por quase todos os séculos desde então, é que a maior parte da igreja verdadeira é composta de pobres, marginalizados. Deus torce por aqueles que são menos favorecidos. É uma demonstração de falta de bom senso e lógica exaltar na igreja justamente aqueles que mais perseguem a igreja de Jesus Cristo.

IV. Favoritismo é Incompatível com a Palavra de Deus (8-13)

A parábola do Bom Samaritano respondeu uma vez para sempre a pergunta: "Quem é o meu próximo?" Para Jesus, a questão de amor pelo próximo não é "quem é meu próximo", mas "para quem eu posso ser o próximo".

Conforme vs 9, se eu pratico acepção de pessoas, se eu olhar o exterior como o homem natural olha, sou transgressor da Lei, não somente de um pontinho, mas de tudo. Revelo a sujeira do meu coração, que não vê as pessoas como Jesus vê. Mostro que sou caracterizado pela rebeldia. Quebrando um só ponto da lei, eu me declaro em alto e bom som que sou capaz de quebrar tudo.

É como bater com um martelo, mesmo que levemente, em um canto de uma grande vitrine. Se você quebrar o vidro naquele lugar, você quebra tudo. Você se classifica como quebrador de vidros.

Tiago, nos versículos 12 e 13, conclui dizendo que devemos proceder de tal forma como pessoas que vivem debaixo da Lei de Cristo, que é justamente amor pelo próximo, tratando a todos com dignidade, com respeito, com amor.

Mas o que significam esses versículos ? Será que o cristão há de ser julgado e condenado? Creio que não. Jesus já pagou o preço pelos nossos pecados. Porém, existe disciplina na família de Deus. As vezes Deus precisa nos humilhar, para experimentarmos um pouco do tratamento que damos para os outros.

Certamente a Bíblia fala que devemos mostrar honra e respeito especial para certos grupos de pessoas:

Pais (Ef 6:1,2)
Velhos (Lv 19:32
Autoridades 1 Pe 2
Líderes Espirituais (1 Ts 5:12,13)

Mas também devemos tratar a todos com dignidade. Algumas pessoas, especialmente pessoas mais simples pelos padrões deste mundo, são muito sensíveis a discriminação no tratamento para com eles. Quando é que praticamos acepção de pessoas?
Quando só conversamos com nosso grupo de amigos depois do culto;
Quando só convidamos para nosso grupo pequeno, pessoas que têm o mesmo padrão social que o nosso;
Quando olhamos para pessoas com desprezo, sem saber nada sobre elas, suas circunstâncias, suas dificuldades;
Quando tratamos de forma diferenciada uma empregada ou um jardineiro do que trataremos um executivo de uma multi-nacional;
Quando permitimos que pessoas que têm duas vezes nossa idade nos chamem de Sr e Senhora quando nós os chamamos de você;
Quando agimos como que qualquer coisa serve para os pobres em nossas doações, que nunca dariamos para outras pessoas;
Quando concluímos automaticamente que pobre é pobre pela própria escolha (e esquecemos de Pv 22.2 que diz que o rico e o pobre se encontram; a um e outro fez o Senhor);
Quando criamos uma igreja homogênea, ou seja, em que desejamos que todas as pessoas sejam como nós, da nossa classe social, econômica, intelectual, etc. Mas essa não é a igreja de Jesus, a família de Deus. Precisamos de todos os irmãos.
Após meditarmos na exortação de Tiago, é preciso tomar cuidado daqui para frente. Da próxima vez que você se encontrar com um "próximo" lhe estenda a mão logo. Pode ser que ele seja um "príncipe Leopoldo" enviado por Deus para testá-lo. Quando você o ver lembre-se: "Feche os olhos para sua aparência e abra os braços para acolhê-lo."



Pr. Davi Merkh está casado com sua esposa Carol a 22 anos e têm 6 filhos. Leciona no Seminário Bíblico Palavra da Vida, ministra como pastor auxiliar de exposição bíblica na Primeira Igreja Batista de Atibaia, e é autor de 14 livros com temas voltados para ministério criativo e o lar cristão pelas Editoras Hagnos e Atos.


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pr_dmerkh@piba.org.br


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