
![]() Lágrimas nos Olhos, Júbilo nos Lábios O livro dos salmos traz vários hinos que eram entoados pelo povo de Israel em ocasiões especiais. Um grupo desses hinos são os "cânticos de romagem", também chamados de "cânticos dos degraus" ou "cânticos das subidas". Eles perfazem um total de 15 salmos, do 120 ao 134, que eram entoados quando os judeus peregrinos se dirigiam para as festas em Jerusalém. Alguns estudiosos dizem que era um cântico para cada degrau da escada que dava acesso ao pátio dos gentios, no Templo. Outros estudiosos, porém, sugerem que são cânticos que eram entoados nos diversos estágios da caminhada rumo a Jerusalém. Quando entendemos o contexto desses salmos, as palavras passam a ter um novo sentido. Por exemplo: o salmo 120.5, fala de um peregrino que habita em tendas, uma referência à peregrinação; no salmo 121.1, o salmista eleva os olhos para os montes, ou seja observa a natureza ao redor, aguardando uma ação de Deus a favor do seu povo; 112.1, há alegria entre o povo porque estão se dirigindo para a Casa do Senhor; 125.2, compara o cuidado e a proteção de Deus pelo seu povo às montanhas que cercam Jerusalém. Certamente cantavam esse salmo quando estavam prestes a entrar na cidade, tendo uma visão dela e da natureza ao redor. Dentre os cânticos de romagem, gostaria de destacar nesse artigo, o salmo 126. Ele nos fala de esperança, e abre os nossos olhos para o futuro que nos aguarda. "Quando o Senhor restaurou a sorte de Sião, ficamos como quem sonha" (vs.1). Esse salmo é um memorial nacional pelo livramento divino concedido àquele povo, e faz referência ao retorno do exílio. Ser guiado por Deus é experimentar essa sensação, vez por outra, de que estamos sonhando. Ele muitas vezes nos surpreende com bênçãos e vitórias que ficamos boquiabertos, como se o real não passasse de sonho. Que maravilha! Você já se percebeu assim? O livramento nos refaz e nos enche de expectativas. Tenho por certo que você já vivenciou algo semelhante em sua vida. Mas aqui há uma questão que precisamos levantar. Muitos são os filhos do Senhor que olham para o livramento do passado e se alimentam apenas dele. Gente que vive com os olhos postos no que Deus fez e se nega, terminantemente, a olhar para o futuro que Ele tem preparado. Janires Manso, grande homem de Deus, que liderou os grupos Rebanhão e Banda Azul, e que hoje mora com o Senhor, sempre dizia: "quem vive de passado é professor de história". Não podemos viver assim. O povo de Israel olhava para o livramento passado e se sentia animado a seguir a vida. Muita gente do Senhor vive preso às amarras do que um dia deu certo. Não se desvincula da bênção passada e, assim, impede a ação do Espírito em sua vida para o novo. A tradição é importante porque nos dá um sentido de parte da história, mas ela pode ser letal se rouba de nós o sonho. O povo de Israel olhava para o passado e sonhava o futuro: "Com efeito, grandes coisas fez o Senhor por nós; por isso estamos alegres" (vs.3). A adoração não é um momento na liturgia apenas. Sabemos que é um estilo de vida. Não depende de um ambiente adequado, servido de equipamentos e instrumentos executados por músicos de boa performance. Quando realmente estamos vivendo uma vida de adoração, o louvor brota em todo o tempo, mesmo nas horas de perturbação e perplexidade, porque o adorador sabe em quem tem crido. Assim foi com o povo de Israel naqueles dias. Estava vivendo um período difícil, mas aguardava o livramento do Senhor, porque conhecia o Deus que adorava. A história daquele povo trazia as marcas do grande amor de Deus. Por isso olhava para o passado e sonhava o futuro. As circunstâncias, quando contrárias a nós, podem gerar dois tipos de sentimentos. Um saudosismo melancólico de quem um dia experimentou o grande livramento do Senhor, ou a esperança alegre de que o mesmo Deus que agiu no passado age hoje por nós. Nunca se esqueça de que Deus trabalha incessantemente a nosso favor. Tudo o que faz e permite que aconteça coopera para o nosso bem (Rm 8.28). O Neguebe era uma região árida ao sul da Palestina. Mas, vez por outra, quando a chuva caia nas localidades próximas um rio caudaloso se formava e inundava aquela região extremamente seca. Do dia para a noite o que era seco virava rio; o deserto era transformado em campo florido. O salmista orava para que Deus restaurasse o seu povo assim, como que num abrir e fechar de olhos (4). Aguardava por isso. Mas, ao mesmo tempo entendia que Deus podia livrá-los através da dor, do sofrimento, das lágrimas (5,6). Nesse caso o salmista utilizava a agricultura como ilustração. Esse é um tipo de livramento que não estamos muito dispostos a aguardar. John Stott disse certa feita que a maior tentação da igreja dos nossos dias é crer num Jesus que nos livra do sofrimento, ao invés de um Jesus que nos livra através do sofrimento. A atual sociedade da impunidade prefere crer num Deus-Paizão que não corrige os seus filhos amados, nem se utiliza da vara para a repreensão. Mas, certamente Ele assim o faz, exatamente porque não somos bastardos, mas seus filhos amados (Hb 12.5-8). O verso 6 do salmo 126, no original, é bastante enfático: Quem certamente sai andando e chorando enquanto semeia, certamente voltará com júbilo trazendo os seus feixes. Quer seja pela ação miraculosa e instantânea, quer seja pela perseverança muitas vezes sofrida, precisamos crer no Senhor, olhar para o futuro e aguardar o grande dia do livramento. Não desanimemos, pelo contrário, sigamos firmes para o alvo, trazendo em nossos lábios sempre um cântico de júbilo.
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