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Bush e o Fundamentalismo Evangélico
Por João Marcos Soares
Muito tem sido comentado, ultimamente, acerca da influência religiosa sobre o presidente dos EUA e as conseqüências daí advindas. A maioria das análises destaca o papel exercido pela mentalidade fundamentalista presente em boa parte das igrejas evangélicas norte-americanas. Tal influência poderia explicar não somente as atitudes do presidente como também a grande aprovação por parte da população de seu país.
Entretanto, não é possível deixar de observar que o apoio às atitudes de George Bush nos EUA é consideravelmente maior que a presença do fundamentalismo evangélico naquele país. Esta aprovação foi medida por institutos de opinião como superior aos 70% da população dos EUA. Sabe-se que esta não é a realidade do movimento fundamentalista evangélico naquele país. Por que, então, esta vinculação da aprovação às atitudes de Bush com o fundamentalismo? Existe mesmo esta influência sobre a população norte-americana?
Tal vinculação advém da observação de algumas evidências. A primeira delas é, obviamente, a atitude de Bush em expressar sua religiosidade de forma ostensiva, notadamente em algumas campanhas eleitorais e em momentos críticos para sua administração. O exercício de forma pública de determinadas práticas, como orar, ler a Bíblia, consultar pastores famosos, auxilia a reforçar a opinião de que o fundamentalismo está sendo utilizado como instrumento de força política. A segunda evidência diz respeito ao apoio à guerra, expresso publicamente pelos principais líderes evangélicos dos EUA.
Conduzido em oração pelo general Richard Myers, o presidente George W. Bush e o congressista Ray LaHood (sentado, à direita) oram durante o Café da manhã de Oração Nacional em Washington, D.C., na quinta-feira, 6/2/03. "Nesta hora da história de nosso país -- disse o Presidente -- nós nos levantamos em oração. Oramos pelas famílias que sofreram perdas recentes. Oramos pelos homens e mulheres que servem ao redor do mundo para defender nossa liberdade". E concluiu dizendo: "Oramos pelas famílias. Oramos por sabedoria para saber e fazer o que é certo. E oramos pela paz de Deus nos negócios humanos." Fotografia de Eric Draper, da Casa Branca.
Contudo, é necessário considerar que tais atitudes não seriam suficientes para produzir o apoio que a guerra obtém hoje. A influência do fundamentalismo evangélico não se dá apenas por seu aparato de práticas litúrgicas e por transferência de prestígio de seus líderes. Sua mensagem contém alguns elementos que falam profundamente a algumas fraquezas que afligem aos norte-americanos. Alguns desses elementos são:
O retorno simples a um passado seguro. O fundamentalismo fala ao imaginário popular americano ao prometer recuperar a segurança perdida. Tal perda adviria apenas do afastamento de práticas religiosas como a obrigatoriedade de orações e leitura da Bíblia nas escolas, e não de questões mais profundas que deveriam ser também ligadas à fé cristã, como as questões dos direitos humanos, o exercício da solidariedade entre as nações, a busca da justiça etc. O importante seriam as práticas abandonadas e não uma afirmação dos valores cristãos de forma abrangente. Tal promessa colabora para a construção do elemento que segue.
Uma visão messiânica acerca de seu país. Ao apontar os EUA como o protagonista principal da história até o fim dos tempos, o fundamentalismo nada mais faz do que expressar uma ansiedade latente em seu país acerca dos destinos do império ali erigido. Assim como Fukuyama, o fundamentalista decreta o "Fim da História". É claro que tal mensagem produz uma enorme sensação de importância ao norte-americano médio. Tal como em um filme de caubói, ele é o mocinho que trará a justiça, ainda que de uma forma violenta.
A busca da paz como o exercício da dominação sobre os infiéis. "O inferno são os outros", a frase de Sartre expressa uma sabedoria que nem sempre é aplicada. Ao pregar a centralidade do protagonismo americano na história como sendo algo que depende apenas da retomada de determinadas práticas religiosas, o fundamentalismo escancara uma porta para a idéia de dominação sobre aqueles que não participam desta retomada. Tais pessoas ou organizações impedem a perfeita consecução do papel messiânico de seu país. Por isso, devem ser combatidas. A paz é resultado da dominação, do exercício do poder dos que crêem sobre aqueles que não crêem como eles. Sem se aperceber que é vítima potencial deste pensamento, a população americana se vê como uma só realidade e acredita que os que não crêem como eles devem ser combatidos. Afinal paz é estabilidade, possibilidade de consumir, de usufruir daquilo que Deus concedeu a seus escolhidos. Se isto não acontece, é porque o inimigo está atrapalhando.

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