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Por que a França está ardendo?
Por Jorge Pinheiro
Está é a pergunta que o mundo faz nesses momentos. E, em minha correspondência com meu amigo e executivo francês, Ricardo Guinancio, que mora em Paris, obtive uma série de informações e respostas que quero dividir com os leitores.
Para o Ricardo, a imprensa mundial está exagerando muito, só para vender jornais e subir nas pesquisas dos Ibopes nacionais. Para ele, agora, a situação está quase normal e o número de incidentes tem diminuído a cada dia. O "estado de urgência" decretado pelo governo federal francês é mais uma ação política do que uma necessidade real, embora autorize os prefeitos a decretar o "toque de recolher" se necessário.
Mas mesmo sem o "estado de urgência", cada cidade pode decretar o "toque de recolher" se o prefeito da cidade julgar necessário. Varias cidades fazem isso faz anos. Lembre-se, diz Ricardo, que das 44 mil cidades francesas, 80% delas têm menos de mil habitantes.
Caro Jorge, os analistas e jornalistas americanos não são os que têm as melhores análises da situação francesa. O ponto de vista deles, pode ser respeitado, porém, carece de uma análise objetiva e não anglo-saxônica.
A situação da "banlieue" francesa, inclusive dos subúrbios de Paris, não é somente um problema de falta de integração. Será que os problemas das favelas no
Brasil são um problema de falta de integração? Já faz três anos que temos todos os anos 50 mil carros queimados, ou seja, cerca 150 por dia. O ministério do interior daqui suprimiu todas as estatísticas ruins para abafar a violência.
A policia foi reorganizada e os efetivos diminuíram. A policia de proximidade foi suprimida. As associações culturais que são agentes eficazes de integração foram penalizadas pelo corte de verbas. O ministro do interior utiliza uma maneira belicosa de falar, agredindo as classes mais pobres só para se mostrar e continuar a ser candidato à presidente.
Tivemos uma série de medidas para suprimir a assistência social e várias leis de repressão foram acrescentadas, sem haver em contrapartida medidas de prevenção, o que só piorou a situação. Qual é o país que pode integrar todas as classes sociais sem dar emprego e esperança num futuro melhor?
A violência nos bairros sensíveis ainda vai aumentar. Haverá, certamente, uma retaliação dos grupos de extrema direita incendiando mesquitas. Haverá expulsões dos sem-papéis e dos estrangeiros. Haverá uma nova lei da imigração e restrições suplementares contra os clandestinos.
Porém, em 2007, haverá eleições presidenciais. Toda a classe pensante na França está discutindo as soluções para o problema. Os erros e fraquezas da política da "ville" dos 30 últimos anos estão sendo admitidos e analisados. Varias medidas e idéias já foram propostas. Mas isso leva tempo.
A maioria das favelas, "cités", vão ser destruídas e reurbanizadas. Existe uma grande luta contra o racismo. Vários empregos subvencionados serão propostos aos jovens vindos da imigração: segunda e terceira gerações. Uma agência nacional vai ter o objetivo de encontrar emprego para esses jovens. Outras medidas locais, regionais e nacionais estão sendo colocadas em prática.
Enfim, a França continua sendo uma bênção e o evangelho continua progredindo lentamente, porém de forma constante. Um abração, Ricardo.

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