26 de Novembro de 2004


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Secularização e poder eclesiástico
Por Julio César

A civilização ocidental tem passado por um avassalador processo de secularização. A globalização aliada ao avanço tecnológico tem sido a grande portadora desse fenômeno.

A secularização se caracteriza antes de tudo pela dessacralização do mundo. A sociedade e a cultura são desnudadas de sua roupagem sagrada e mostradas como corporificações humanas. A Igreja – englobando católicos, protestantes e ortodoxos – é destituída de seu papel de agência reguladora da sociedade, o que implica o seu afastamento de áreas que outrora exercia o controle como a política, a educação, a cultura e a ética.

Ela é desautorizada de invocar o nome de Deus para reivindicar a supremacia de seu pensamento, uma vez que Deus "morreu" ou, como preferem outros, a humanidade atingiu a "maioridade", se libertando da tutela da religião. Isto significa que o lema sofista – "o homem é a medida de todas as coisas" – é o que vigora, ou seja, a humanidade é senhora de si e seus atributos, por serem construções humanas, são legitimamente questionáveis e violáveis; por isso, é descabida a idéia de uma ética transcendente. À Igreja, no máximo, é consentida que exerça influência sobre seus membros, mas sem pretensões de voltar a ter supremacia na sociedade.

Para àqueles que saúdam o secularismo ele caminha a passos curtos, visto que, percebem ainda uma influência forte do Cristianismo na sociedade. Não obstante, àqueles que temem, em especial as instituições religiosas, que já foram hegemônicas, vêem ele avançar a passos largos. Qual deve ser a resposta da Igreja de Cristo a esse fenômeno? Acredito que em suma é ser missionária. No entanto esboçarei três atitudes que julgo mister para um ministério profícuo.

1. Ser Autocrítica: Isto exige uma mea culpa por diversas vezes ter se prestado a ser um instrumento de legitimação de ordens sociais iníquas, como se Deus às chancelasse. As cruzadas, a escravidão, a segregação racial, o nazismo, o comunismo, o fascismo, capitalismo e o imperialismo são exemplos que maculam a história da igreja, ainda mais levando em consideração a primazia que ela tinha na sociedade. Entretanto, a generalização é um equívoco. A despeito de muitos setores terem aderido ou se silenciado a esses acontecimentos, Deus em sua rica providencia levantou homens e mulheres que não se curvaram ao poder temporal, denunciaram esses pecados sociais e anunciaram o Reino de Deus.

2. Desalienar a Sociedade: Tornou-se célebre a frase de Karl Marx de que "a religião é ópio do povo". Dizia isso no sentido de que a religião era um proficiente aparelho de alienação dos poderosos para desviar a consciência das massas do presente, dirigindo-a para uma esperança no além. Para isso ocultavam a autoria humana da história, levando as pessoas a se conformarem com suas mazelas, como se fossem fatalidades. Para desalienar a sociedade a Igreja precisa anunciar um Deus transcendente a história, que outorgou liberdade ao ser humano para construí-la, contudo não a abandonou a sua própria sorte, continua promovendo salvação e juízo. Considerando que o ser humano é moralmente ambíguo, pois é portador de uma Imago Dei maculada pelo pecado, nenhuma de suas produções, por mais virtuosas que sejam ou presumem ser, podem pretender ser deificadas, eternizadas ou universalizadas por pura pretensão. Pelo contrário, devem ser submetidas continuamente ao crivo da Palavra de Deus.

3. Buscar o Poder do Espírito Santo: Esta atitude condiciona as duas anteriores. É inexeqüível o ministério eclesiástico sem o revestimento de poder espiritual. Contudo, a Igreja ao longo dos anos tem confundido poder espiritual com poder institucional. Jesus, porém, ensina que o poder é para servir e não para ser servido (Mt 20.26-28).

E o serviço da Igreja é ser testemunha de Jesus por todo o mundo, é para isso que ela é habilitada com poder do Espírito Santo (At 1.8).

Esse poder não é apenas para aquecer os corações, mas para que esse calor irradie pelo mundo. Ser testemunha de Jesus não é apenas proclamar o Evangelho, mas encarná-lo por toda parte. Por fim, a fé que deve mover a Igreja em sua missão é que o Espírito Santo que convence o mundo do pecado, da justiça e do juízo e a consola (Jo 16.7-8).



Julio César Silveira é graduando em Psicologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e atuou durante o biênio 2002-2003 como membro da Comissão Acadêmica de Psicologia do Diretório Acadêmico Mary Chamberlain na Gestão Voz Ativa. É membro da Igreja Presbiteriana Filadélfia em São Caetano do Sul.
E-mail: jcsilveirasilva@uol.com.br