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A fé sob suspeita
Por Silas M. Lima
Não sei se o leitor já passou por uma situação onde duvidaram de sua fé ou
de seus motivos religiosos. Ou talvez tenham rido ou olhado torto por você
orar à mesa de um restaurante, ou procurado em suas ações uma motivação
material e não espiritual. Infelizmente fui testemunha de uma situação como
esta.
Tenho amizades que começaram pela internet. Uma delas, uma amiga japonesa chamada Takae Umeyama, me é muito querida. Takae veio ao Brasil para descobrir onde estão enterrados alguns de seus parentes. Este é um desejo de seu pai: que ela descubra onde estão enterradas estas pessoas, que ore por elas segundo sua religião (budismo) e que informe o que descobriu para sua família.
Assim ela quis fazer. Sua chegada, acompanhada de Leighton, seu noivo, foi uma grande alegria para mim e minha esposa. Os dois são pessoas maravilhosas.
Na tarde do dia 22 de julho de 2003 nós os levamos para o Consulado Geral do Japão. Takae foi inicialmente atendida por uma moça cujo nome infelizmente não anotamos. A atendente, conversando em japonês com Takae, perguntou porque ela estaria procurando os parentes falecidos. Takae explicou seus motivos, tanto os de cunho familiar - o pedido de seu pai - quanto religioso - a necessidade de orar em seus túmulos.
A atendente neste ponto olhou-a com desconfiança e insinuou que Takae poderia estar procurando seus parentes enterrados no Brasil por interesse em suas antigas posses. Minha amiga ficou chocada nessa hora. Alguns momentos depois a atendente retirou-se. Takae chorou, controlou-se. Leighton fervia diante de tal abuso e desrespeito mas ela pediu a ele que se controlasse.
A atendente voltou e pediu que esperássemos um momento pois um outro funcionário iria atendê-los. Isto aconteceu quase duas horas depois. O homem conversou com Takae. Ela ouviu as poucas informações que ele tinha sobre sua família. Algumas inclusive incorretas e ela tinha documentos para prová-lo. Em seguida exigiu um pedido de desculpas pela insinuação maldosa da primeira atendente. Não o obteve. Também eu reclamei, também Leighton, sem resultado. Apenas sorrisos irônicos.
Falarei um pouco sobre Takae Umeyama ressaltando antes que nenhuma pessoa deve ser tratada assim em um local de atendimento ao público. Takae é Ph.D. em Medicina no Japão, especialista em alguma coisa complicada que envolve temperaturas no cérebro. Seu nome já foi citado em revistas de medicina de seu país. Sua família, tradicional, é de Kyoto e Tóquio. É muito respeitada no Japão. Takae também é amiga pessoal de Antônio Inoki que é um artista marcial brasileiro muito famoso no Japão. E por aí vai, mas creio que já é o suficiente.
Alguém orar no túmulo de seus ancestrais não é mais coisa digna de crédito. A religião de alguém parece ter passado de manifestação humana universal para fonte de desculpas. Talvez respeitar o sábado seja uma desculpa para trabalhadores judeus não serem obrigados a fazer hora extra. Talvez orar no restaurante seja uma tentativa de comover o proprietário e sair sem pagar.
Fórum O que você faria se uma amiga fosse destratada por ser evangélica? E se ela fosse budista? Opine.

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