22 de Abril de 2003


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FELLINI de Fellini
Por Silvio Fernando
Este ano completa-se o decênio da morte de Federico Fellini. Dono de um estilo de filmar (que foi se soltando e evoluindo com o passar dos anos e dos filmes) tão peculiar, a ponto de virar um verbete no dicionário: felliniano.

Figurinha carimbada em retrospectivas e mostras de cinema, dentre a fauna de cineastas surgidos nos anos 50 e 60, Fellini é sem dúvida o mais popular entre os cinemaníacos. Mesmo concorrendo com pesos pesados como Visconti (a rigor, seu cinema é melhor, não possuindo tantos altos e baixos) e Antonioni (sua galeria feminina é rica em nuanças psicológicas, enquanto a do amigo permanece na superficialidade caricatural das loucas, gordas, ninfomaníacas, etc.). Mesmo assim é o cineasta mais lembrado.

Não tendo um garoto de programa que o assassinasse nalguma praia ou um derrame que o paralisasse, viu-se livre para criar e se possível deformar, o mundo lá fora em detrimento do seu, mais colorido, lisérgico e quase sempre tão terrível quanto o outro. Deu certo. Nestes anos todos, mais do que redefinir um conceito de cinema em escala mundial, e inventar novas películas, Fellini se reinventou. A tal ponto de (situação única no cinema) haver incorporado o próprio nome a algumas de suas crias: Satirycon, Roma, Casanova.

Auto-referente por natureza, Fellini multifacetava-se em vários de seus filmes: deixando a cidade natal que o asfixiava em Os Boas Vidas (1953), chegando a capital na condição de repórter (Roma, 1972), se estabelecendo nessa estranha cidade que abrigava desde freqüentadores de missa à participantes de orgias (A Doce Vida,1960). Até a angústia existencial como artista perplexo diante do caos que o cerca (8 e meio, 1963).

Criador da vedete-monstro (ele mesmo pertencente ao time), o diretor não escapou de ele mesmo virar personagem em histórias nem sempre dignas de um Oscar: seu envolvimento com prostitutas, a amante escondida por 30 anos da mulher, Giulietta Masina, as brigas com o atual ministro da Itália, etc.

O fato de haver ganho a Palma de Ouro em Cannes e abocanhado quatro Oscars em sua carreira não o impediu de ser copiado, criticado e enxovalhado ao longo de sua trajetória por trás da câmera. Criticado pela esquerda ranzinza por mostrar o estilo dos ricos e burgueses, amaldiçoado pelo clero que o taxava de sacrílego e imoral. Muitas vezes reverenciado e menosprezado pelo mesmo grupo de pessoas (o caso mais célebre foi o de Glauber Rocha que achando Fellini "um católico subserviente", dormiu na projeção de Roma e após uma conversa com Luis Buñuel, saiu convencido, declarando tietagem explicita a Fellini).

Após 10 anos de silêncio, chega a hora de rever o julgamento. Com o lançamento em cópia nova de 3 Fellini da segunda fase, chegando aos cinemas. O primeiro deles em ordem cronológica é Satirycon. Fazendo uma adaptação do original de Petrônio, representa um mergulho direto no desvario romano a.C. O livro escrito como uma crítica ao governo de Nero, foi moldado pelo diretor de modo a tratar das frivolidades do mundo atual. Com um material desse, não era surpresa que o filme fosse severamente criticado por anos.

Roma. É interessante notar a trilogia que se formou, graças à obsessão do cineasta com a cidade: A Doce Vida - Satirycon - Roma. Mas enquanto os primeiros limitam-se a retratar uma certa parte num certo tempo, o último (por meio de recuos no tempo) retrata a Roma de todos os ângulos e tempos possíveis. Deste modo forma-se um quadro geral amplo, com até uma participação de Gore Vidal.

Já Amarcord é justamente o contrário. Nele, nada precisa ser exato ou fazer muito sentido. O título em dialeto romagnol antigo significa "eu me lembro". Mas, sendo Fellini quem é, uma lembrança distorcida, mais poética do que real. Mesmo assim o filme toca em assuntos desagradáveis. O maior deles sendo a própria Rimini acorrentada a própria ignorância. É ela a grande personagem do filme, sua protagonista. Que impulsiona o vazio de toda uma cidade se deslocar para ver a passagem do transatlântico, a imensa fogueira e anima a população a apoiar os horrores do fascismo. E. hoje, dá corda a seu rival, Silvio Bellusconi.