|
|
Para uns, inventor da moderna história de detetive, para outros um detetive que virou escritor e para alguns, ainda, somente um velho bêbado que às vezes brincava de escrever. Dashiell Hammett (1894-1961) podia ser tudo isso. E mais: amante misógino, marxista teimoso, cultor de uma literatura menor, principal influência do cinema noir, gênio das letras, etc. Varia conforme a opinião (nem sempre correta) de cada um. Inclusive de seus detratores, já que em sua última década de vida, Dashiell foi convidado pela crítica a descer do podium em que se encontrava.
Contam da origem do adjetivo lacônico: Alexandre, o Grande, prestes a invadir a região da Lacônia, lhes manda uma mensagem. Parte dela: "...se adentrar vossos portões, reduzi-los-ei a pó". A resposta veio pronta: "Se". A literatura de Dashiell Hammett é mais ou menos assim. Sem frescura ou palavrório inútil vai logo ao que interessa. Vemos o detetive interpelar a vítima, rolar com ela sobre o chão, desmaiar e ainda acordar em tempo de tomar o expresso de Chicago. Tudo num mesmo parágrafo.
E nem poderia deixar de ser assim. Hammett andava como todo mundo no final dos anos 20, isto é quebrado. Fazia o que podia para pagar suas contas (quando pagava) do jeito que sabia. Escrevendo. Publicando contos em revistas pulp e histórias maiores em fascículos (tão em moda na época), caso de o Falcão Maltês publicado em 20 deles na revista Black Mask.
Segundo alguns críticos e teóricos da literatura muito dessa agilidade na prosa do autor, a pressa em jogar na frente do leitor os fatos da trama se deve ao fato de seu bolso estar sempre a perigo. Em 1930 (ano de publicação do Falcão) saiu as pressas de um cinco estrelas, evitando despejo e conta, e foi se refugiar, desta vez pagando, no hoteleco do amigo Nathanael West (ele próprio escritor, autor da pérola o Dia do Gafanhoto). Também reduto de outros escritores desprevenidos na cidade grande (caso de Scott Fitzgerald e William Faulkner), coube ao casal Hammett a famosa suíte Imperial.
No dizer de Líllian Hellman - o equivalente na vida de Dashiell a uma esposa -- um título irônico "pois era um quarto abafado, empoeirado e com o pé da cama precisando de um calço." Mas não se deve condicionar o estilo de um homem a mera conjectura econômica, muito menos confiar em críticos, raramente professores de literatura dão bons escritores (vejam o caso de Edmund Wilson, por exemplo).
O fato é que seja qual for o motivo que levou Hammett a dar novo tratamento narrativo a suas historietas, proporcionou ao gênero novo fôlego, revitalizando-o para as gerações seguintes. Livrando-o das mãos polidas e bem cuidadas dos detetives ingleses, contrapôs seu estilo seco e durão ao frio cerebralismo europeu, desde essa época em voga. De quebra, aproximou este tipo de literatura de nós, pobres mortais possuidores de um intelecto comum.
Hard boiled é a palavra da cozinha inglesa designada para os ovos quando cozidos. Tomada de empréstimo por críticos deslumbrados e editores sedentos por vendas, o termo culinário acabou aparecendo nas colunas de jornais freqüentemente associado as novas histórias policiais que mesclavam o retrato de homens e mulheres inseridos naquele contexto febril, remanescentes da Grande Depressão americana que vagavam por aí virando-se como podiam. Não faltou quem jogasse auréolas por cima de Hammett e sua turma, chamando-os de críticos da sociedade americana, pensadores socialistas, etc. Exagero. Mas ajudou a vender alguns livros.
De qualquer modo vale a pena dar uma olhada na época em que Hammett começou a escrever; com os suicídios aumentando potencialmente, filas de famintos crescendo pelas ruas, esmolando um prato de comida, a Lei Seca apertando...era fácil acreditar porque seus detetives não perdiam tempo com silogismos franceses, já tascando sopapos tão logo tiravam chapéu e sobretudo. Também permite comparar as duas sociedades: inglesa e americana. Na primeira (dividida em "bons" e "maus"), o detetive combate um meio, que é sempre diferente dele. Na última, ele é parte desse "meio" e já não há uma distinção clara entre bons e maus, se houver, todos são "maus".
Hammett (a sua revelia) acabou liderando uma escola onde o aluno mais brilhante foi Raymond Chandler. Com gente desse quilate bebendo seus truques não é surpresa que em menos de uma década suas inovações tenham virado clichês; o detetive durão e com honestidade dúbia, a vilã misto de perigo e eventual prazer, espécie de mulher-aranha moderna, a polícia morosa e corrupta... Para focalizar toda essa fauna presente em seus livros, bastava Hammett olhar para seu quintal de casa.

|