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Eles matam pessoas, não matam?
Por Silvio Fernando
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"Nossas forças de coalizão sob minhas ordens começam a atacar alvos específicos de importância militar (...) os perigos sobre nosso país e o mundo serão superados.Nós passaremos esse momento de risco e continuaremos o trabalho pela paz. Nós defenderemos nossa liberdade. Nós traremos liberdade para os outros. E nós venceremos.Que Deus abençoe nosso país e todos que o defendem."
Com essas palavras Bush terminou seu pronunciamento épico-bíblico-hollywoodiano, transmitido na íntegra pela CNN e demais grandes emissoras, horas após a saraivada de mísseis que marcou o primeiro ataque ao Iraque.
Enquanto o saldo de mortos iraquianos aumenta a cada novo bombardeio, o grosso dos americanos (71%) apóiam essa batalha em clima de jihad. Em contrapartida as manifestações contra Bush & Cia. foram contidas no melhor estilo democrático: com jatos de água fria, bombas de fumaça e cassetetes da polícia.
O presidente dos EUA vem sendo, simultaneamente catapultado à condição de grande líder e enxadrista militar pela conservadora e tacanha direita americana e demonizado por seus opositores.
Explica-se: George Walker Bush, notório beberrão, conhece Jesus e converte-se a um ramo fundamentalista, possuidor de uma considerável força nos EUA. Para tal ramo a figura do país corresponde ao Novo Israel do mundo, nos tempos de hoje. Bush (por credulidade ou conveniência, não se sabe) segue o ensinamento à risca. Note-se por exemplo o número de vezes em que aparece em seus discursos a palavra guerra seguida por Deus.
Paradoxalmente o primeiro ataque ao Iraque ocorreu num dia "santo": no início da sexta-feira (no mundo islâmico equivaleria ao shabath dos judeus). Tomadas de "empréstimo" por militares americanos as emissoras de TV e rádio estatais, que antes veiculavam mensagens com teor patriótico (a vinheta do curioso programa traz uma estátua da Liberdade com uma caveira em lugar do rosto) passaram a transmitir em árabe a frase "este é o dia que estávamos esperando". Oh, happy day.
"A desobediência americana às decisões da ONU pode abrir um perigoso precedente em ocasiões futuras", admitiu preocupado, o secretário-geral das Nações Unidas Kofi Annan. Com razão. Afinal, já é a quarta vez que as Nações Unidas não conseguem evitar a guerra (Coréia em 1950, Vietnã em 60, as Malvinas em 82). Agora, porém, o caso é mais grave.
Técnicos da universidade de Iowa prevêem, caso o conflito cesse em até 15 dias, um custo de 210 milhões (em moeda americana) divididos em tanques, bombas e mortos. A cada dia depois disto, adicione mais 2 milhões. Se um dos países usar suas armas nucleares multiplique tudo por 5 e tem-se a guerra mais dispendiosa realizada até hoje.
Pensando nisso o Pentágono já traçou linhas para a ocupação norte-americana em solo iraquiano, finda a batalha. Atualmente, os Estados Unidos são o 12 país no ranking de reservas petrolíferas, detendo 2,13% do petróleo mundial (22 bilhões de barris). Isso tudo vai durar 7 anos. Daí a dependência americana em relação aos poços de petróleo, semelhante a de 1973. Mas isso não parece ser problema, já que os poços de petróleo ficarão "sob tutela americana" como garantiu o secretário de estado Collin Powel, com jeito de "bwana".
Saddam na mira
O primeiro ataque teve seus 24 mísseis direcionados contra um"alvo oportuno". Por "alvo oportuno" leia-se Saddam Hussein e seu escalão. Para realizar o intento foram mandadas tropas especiais da Força Delta, subdivisão de elite, cuja existência é constantemente negada pelo governo. "A expectativa é de mata-lo (Saddam) dentro de alguns dias". disse um integrante de tropa.
Desde o ano passado Saddam tornou-se uma espécie de alvo para os Estados Unidos. Mas um alvo móvel.
Chamado de "cigano" por seus inimigos ocidentais, o ditador dorme apenas 4 horas por noite e quando o faz, não dorme duas vezes sob o mesmo teto, vaga a noite por alguns de seus oito palácios suntuosos e fortificados, em contraste com os casebres da população local.
A rotina de Saddam consiste em despertar as 3 da manhã, tomar o desjejum acompanhado por seus numerosos guarda-costas e a ida cada dia num carro diferente, para um de seus palácios. O que confirma o dito de Hegel; um ditador acaba tornando-se sempre, prisioneiro de si mesmo. Ainda que viva/esconda-se numa gaiola dourada.

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