01 de Abril de 2003


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Um escândalo delicado
Por Silvio Fernando

A primeira cena que vemos em close, é a de um homem (Maurice Ronet) fitando obsessivamente o cano de uma arma. Carregada. Assim começa o filme Trinta anos esta noite de Louis Malle, adaptação do livro de Pierre Drieu de la Rochelle, Fogo Fátuo. Malle, diretor francês reconhecido em todo o mundo sob a pecha de cineasta do escândalo, devido a abordagens nem sempre veladas em seus filmes de determinados assuntos (a prostituição infantil em Pretty Baby, o incesto em O Sopro no Coração e o colaboracionismo francês no Lacomb Lucien, este sim, um verdadeiro tabu para os franceses).

Tais adjetivos fazem bem e mal. Se por um lado alavancam a obra de um artista chamando atenção para o mote da história, por outro rotulam a mesma, quando não seu criador. É o caso de Malle neste filme cujo tema abordado desde a primeira cena é o suicídio, ainda um tabu do mundo Ocidental.

Se o objetivo da história fosse realmente o de fazer "escândalo" e se Louisinho fosse um Adrian Lyne da vida, teríamos purê de miolos ao invés das elegantes tomadas de Malle (quando a personagem chega as vias de fato, a lente da câmera simplesmente "embaça" saindo de foco).

A delicadeza do diretor se contrapõe a "eficiência" narrativa hollywoodiana de sempre, onde importa mais mostrar o herói apertando o gatilho (espécie de ejaculação mítica do personagem, transmitida de maneira catártica aos expectadores, como gostam de dizer os críticos da Cahiers du Cinema, doidos por ver freudianismo, dos filmecos americanos classe Z, até as comédias de Mazzaropi). Felizmente, em 1963, quando Malle rodou este filme, Lyne ainda mascava chupeta. Melhor,assim o tema fica mais interessante.

Como se não bastasse a discussão sobre o suicídio,o filme ainda faz um balanço da sociedade burguesa da época, questiona a intelectualidade francesa, a banalização dos relacionamentos amorosos-sexuais e o alcoolismo a que se entrega Alain Leroy, personagem de Ronet (uma suavizada de Malle na história, já que no original a carga é um pouco mais pesada: cocaína). Natural, no livro a trama é centrada sobre as ruínas do existencialismo (de la Rochelle era partidário do nazi-facismo).

O que fez o diretor passar por maus bocados. Sua adaptação de Fogo Fátuo chegou as telas três anos após a morte de um dos ícones do movimento existencialista Albert Camus (o outro, Jean-Paul Sartre, começava a perder um pouco da sua aura de Pelé do movimento, que ostentara por mais de duas décadas, principalmente entre os estudantes). Por causa desse contexto, o filme foi interpretado como uma reafirmação do autor politicamente maldito na França, sendo rotulado como apologético ao suicídio. Longe disso.

O que reforça o comportamento doentio de Lerot são os vivos; incapaz de sentir-se tocado pelo meio de maneira significativa, o espaço a sua volta desmorona aos poucos até chegar a um limite insuportável no filme; a véspera do suicídio. O fracasso sexual com a amante, a recaída no vício, o encontro com uma antiga namorada (agora casada com outro), a impotência da medicina e a frieza dos amigos, são os sintomas finais desse universo que rui, da sociedade que o aparta de si mesma.

Lerot é o retrato fiel de um suicida, seu autor Drieu de la Rochelle matou-se em 1945 e Louis Malle admitiu que se não houvesse realizado o filme, teria feito o mesmo no final dos anos 60.

O personagem possui traços comuns a quase todos os suicidas: alcoolismo (responsável por 18% dos casos de acordo com a Organização Mundial de Saúde), e depressão (comum em 30% dos casos). Um fraco, portanto. Com essas características tem que ser expurgado do meio em que vive, de acordo com o novo modelo de seleção natural ajustado ao mundo contemporâneo, na sociedade de hoje só os firmes, fortes e donos de um Galaxie sobreviverão.

Nesse novo mundo erigido por alicerces nem sempre saudáveis, não há lugar para indecisos. As únicas perguntas toleradas são as banais, de resolução prática em cinco segundos. A tristeza e a felicidade viraram simples mercadorias do neoliberalismo. Um slogan, uma idéia, cabe num botton e vale exatamente 1,99. Podem dar adeus a maio de 68.

Dentro dessa esfera derrotista o único ato de recusa que cabe ao personagem é dar cabo de si mesmo. Apagar a luz. Não deixa de ser também uma forma de linguagem, um pedido de socorro que não podendo ser verbalizado, é expresso de outra forma, tardiamente.

É o que Lerot faz, na última cena de Trinta anos..., com o auxílio de uma bala dissipa sua existência. Sem sensacionalismo ou estrondo, Malle nos faz refletir sobre assunto tão sério e desagradável, sem cair no fatalismo, e o faz de maneira tão suave quanto os acordes de uma balada. E com mais eficácia também.