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Um gafanhoto no estômago do monstro
Por Silvio Fernando
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É muito provável que você não saiba quem é Nathanael West. Aliás, é provável que quase ninguém saiba. Sua obra completa quando posta junta ocupa menos de 500 páginas em edições de bolso, e consiste de apenas quatro livros publicados de favor, por amigos influentes (da rodinha ilustre participavam William Faulkner, Scott Fitzgerald, Dashiell Hammett e S. J. Perelman,de quem era cunhado). Foram fracassos de venda colossais, embora hoje tenham status de obras cult.
A primeira delas surgiu quando West completou 25 anos. A vida alucinada de Balso Snell começa assim: um cidadão comum passeia pelos arredores de Tróia e dá de cara com o famoso cavalo. A única entrada possível se dá por intermédio de um orifício, justamente o pior deles. Isso mesmo.
Os outros livros eram ainda mais ácidos: Miss Corações Solitários, vertido para o francês por um entusiasmado Sartre (mas aí era tarde: seu autor já estava morto) e Um milhão de dólares.
West escreveu o livro na contramão das histórias infantis em moda na época, destinadas a levantar o ânimo das criancinhas americanas envoltas no pesadelo da Grande Depressão. Nessas histórias era comum sapateiros e engraxates tornarem-se milionários poucas páginas antes do fim.
O herói de West sai com o mesmo objetivo; dinheiro para pagar a hipoteca da casa de sua mãe. Volta aleijado, banguela, caolho, é preso e ainda se vê obrigado a dormir com um marajá. Como tiro de misericórdia, a casa da mãe é hipotecada.
Com temas assim é fácil entender porque os livros de West pareciam cimentados nas prateleiras: ele destruía as ilusões americanas no momento em que os americanos mais precisavam delas.
Mas talvez o principal iludido por idéias mirabolantes fosse o próprio Nathanael West achando que um possível leitor esfomeado fosse gastar os quase três dólares que o livro custava,se os tivesse preferiria torrar ante a visão de sorrisos cintilantes nalgum musical mambembe,ou num filme alegrinho de Frank Capra.
Não podendo se sustentar como escritor, West virou roteirista de filmes vagabundos dos estúdios mais baratos de Hollywood. Seu primeiro trabalho foi o de transformar Miss Corações... num enredo fácil e rendoso. Conseguiu, virou um dos filmes mais inócuos de que se tem notícia até hoje.
De escritor e pensador liberal, West tornou-se mero trabalhador assalariado, mais uma ovelha engravatada no rebanho anônimo de gente. Mas não perdeu as presas. Sua obra derradeira, O Dia do Gafanhoto, publicada um ano antes de sua morte, é um testemunho parcial e rancoroso do que viu por lá.
Deve ser verdade, sempre que Hollywood falou de si mesma, falou mal. Os filmes deste filão que mais deram certo foram: Barton Flink,O Jogador, No Silêncio da Noite, e o insuperável Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder, diretor do último, ouviu de um produtor enfurecido, que jamais arranjaria emprego de novo em Hollywood, a praga não pegou; depois de Crepúsculo, Wilder ficou ainda mais famoso, fazendo outros quase 20 filmes; mas isso é a história de outro rebelde).
O biógrafo de Billy Wilder e de outros tantos figurões do cinema, Helmuth Karasek, em seu livro relata uma conversação entre duas lendas americanas, que deixa claro o clima de individualismo presente nos estúdios. Clark Gable achega-se perto de um caipira, que perambula entre os sets de filmagem com ar perdido. O caipira era William Faulkner, recém-contratado como chefe dos roteiristas da Metro.
-- O que o senhor faz mister Faulkner?
-- Eu escrevo livros.E o senhor, mister Gable?
O diálogo é verdadeiro. Gable nunca leu um livro, Faulkner nunca entrou num cinema. E trabalhavam na mesma "companhia". Ilhados, como quase todo mundo ali.
Mas não são só os empregados dos grandes estúdios a serem alvejados pelo sarcasmo de Nat, sobra bílis pra todo mundo: atores decadentes, mocinhas em busca do estrelato fácil, artistas com a mente e o bolso sodomizados pelo dinheiro nem sempre suficiente dos estúdios, estrangeiros, maconheiros, fãs alucinados, mães corujas, molambos. Todos, em maior ou menor grau, estão retratados ali.
Não é um belo retrato. Mas é o retrato que um dos personagens centrais da história, Tod Hackett, está pintando.Nas horas vagas, bem entendido, já que Tod tem que jogar fora seu diploma de Belas-Artes para ficar pintando caubóis e cenários. É West, mais uma vez travestido num de seus vários personagens insatisfeitos.
Há outros de mesmo quilate no livro; Harry Greener, ator embrulhão, doente e fracassado; sua filha Faye, menor de idade e sem nenhum talento, sempre disposta a prestar favores de cama, mesa e banho por uma chance de "brilhar na tela", prática comum à tantas starlets, e Homer Simpson, talvez o personagem mais trágico do livro; de inteligência obtusa, grandalhão e desajeitado, sofre sem ter a consciência disso. Para piorar, ainda comete o azar de se apaixonar por Faye.
Nessa máquina de moer gente em que se transformou a indústria de cinema americana, vista com os olhos do gafanhoto-mor West, nem os personagens principais escapam do sacrifício. Na visão do autor, Hollywood era uma espécie de monstro que devorava seus filhos, manipulando-os e fabricando seus sonhos enquanto dormiam, embalados pela música e pelas luzes da sala escura de cinema.
Isso fica ainda mais claro, nas últimas páginas do livro; quando a multidão, voraz como uma nuvem de gafanhotos, comprime-se diante dos portões do estúdio na ânsia de ver seus ídolos. No meio da montoeira de gente, estão Tod Hackett e um desorientado Homer Simpson.
O alarido da multidão encobre gritos, socos, bolinações. Provoca o que qualquer grupo ensandecido provoca: quebra-quebra. Homer é tragado pela turba, Tod é agredido e carregado para uma viatura. De lá, meio grogue, observa a multidão, o circo formado.
De repente solta uma gargalhada. Enlouquece.
Finda-se o dia do gafanhoto. Isto é, até a próxima sessão de cinema.

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