28 de Abril de 2003


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Porrada com conteúdo
Por Silvio Fernando

No tablado, em cima do chão sujo, há um homem com a boca sangrando e mais algumas escoriações. Está semi-acordado. De pé, o vencedor igualmente quebrado, mas vagamente lúcido. A torcida em volta comemora, extasiada. Há um estranho clima de socialização neste lugar. É o Clube da Luta.

Um dos maiores sucessos do cinemão americano entre 99 e 2000. Mesmo assim, fez sucesso pelos motivos errados. Aqui, um incidente infeliz trouxe ainda maior popularidade ao filme, quando um jovem estudante de medicina entrou num cinema metralhando tudo. Perdeu um filmão.

A maioria da molecada que invadiu os cinemas, esperava algo no estilo de um Van Damme, um Schwarzenegger qualquer. Ação sem nenhuma reflexão. Encontraram o baixinho Edward Norton, mas não saíram decepcionados.F elizmente o Clube da Luta não é nenhum Rambo 87, onde todos os americanos (donos de um corpo Chuck Norris) esbanjam violência "patriótica" sem qualquer motivo ou razão prática.

Por trás dos chamarizes de golpes e porradas, do sangue voando, existe toda uma ideologia como pano de fundo. Esta é a bola que o diretor, David Fincher, meteu na caçapa, o grande trunfo do filme. O que faz o roteiro se sobressair da nuvem de filmes a la Oliver Stone, ou dos que ainda sugam até a última gota, um debilitado Tarantino. De acordo com esta escola, a discussão do porquê da violência é o que menos importa. Interessa é faturar em cima dela sempre que possível, com imagens limpas e cortes rápidos. Às vezes dão até bons filmes, só que incompletos.

Alguns críticos torceram o nariz ante o caldo sociológico do filme, espécie de sopa rala quando comparado a outros filmes do gênero, mas seria demais querer associar o conteúdo de um (bom) filme comercial a uma tese de mestrado.

Em doses premeditadamente convenientes a película vai, aos poucos, mostrando o lado menos elegante da fachada do mundo corporativo. Uma tendência que aos poucos vai fincando o pé no entertainment americano: cutucar quem de fato manda no american way of life. Mas com cuidado.

Ao invés de injetar closes e mais closes na cara de gente sofrida e sem dente, como o fizeram a exaustão o Neo-realismo Italiano e em sua esteira, nosso velho Cinema Novo, para mostrar o que qualquer mendigo de rua (filmado ou não, pelas lentes do Glauber) sabe: que o sistema não presta. Marx,s e tivesse uma câmera na mão, teria sido mais fino.

Aqui a escala de produção é outra: cortes rápidos, iluminação débil e câmera ultra-rápida são usados para diagnosticar uma certa malaise contêmporanea. Muito se falou, na época de seu lançamento, destes e de outros apetrechos, mas uma coisa foi deixada de lado: o verniz psicológico.

Hoje: id x ego no Clube da Luta

Segundo Freud o indivíduo, no final de seu desenvolvimento, conta com dois modos de integração a sociedade: o trabalho e o amor (genital). A sociedade mostrada por Fincher não parece admitir participantes. No filme ela é doente, sádica, fria, impessoal. E o pior de tudo; é globalizada.

Voltando ao pai da Psicanálise; Freud comprova a existência das chamadas Punção Sexual e Punção de Morte (Eros x Tanatos). O princípio do prazer (pelo qual somos regidos, buscando o que nos agrada e afastando o que incomoda) e da realidade (que nos conecta ao mundo) são mecanismos mentais que, quando corretamente equilibrados garantem a sobrevivência do indivíduo frente ao mundo.

Não é o caso do personagem de Edward Norton, empregado de famosa multinacional (que contabiliza até o lucro do seguro de um provável número de clientes mortos), que desenvolve uma insônia que permanece imune a qualquer tipo de medicamento. Acaba, para seu deleite sádico num grupo de auto-ajuda para homens com câncer nos testículos. Ali, toma contato com todo tipo de sofrimento: lágrimas rolando, soluços apertados, etc. A reação é imediata: volta a dormir, feliz e satisfeito.

Até a chegada de Marla à(s) clínica(s) em que ambos freqüentam. Um parêntese aqui: Marla deveria receber, entre psicólogos, o título de Lady Tanatos, tal a violência com que procura a (própria) morte. Esta via-crucis pessoal compreende desde ingestão de barbitúricos até tentativas de atropelamento.

Quando Norton não agüenta mais a presença de Marla, sua mente doentia lhe oferece um escape. Surge então a figura irreal de Tyler Durden (Brad Pitt) fruto da necessidade de Norton de liberar sua agressividade para fora (em casos como este, é o único jeito do paciente não ser consumido pela própria violência). É curioso notar, a existência no filme de um processo muito comum em casos de dupla personalidade; Pitt representa o avesso da moeda, e como tal abre caminho para a realização de tudo que Norton não faz por pura falta de coragem (ou que o superego não permite?). Um psicólogo mais afoito classificaria a figura de Tyler Durden como uma roupagem para o Id do personagem, na realidade um esquizofrênico.

A organização de um clube da luta, põe os homens em dia com seu instinto violento, posto para fora de maneira pouco ortodoxa. A energia transgressora deixa de ser sublimada com trabalho ou esporte. Ou seja, ao invés de integrar, segrega. Exemplo disso é o final da trama, quando o clube da luta se transforma numa organização fascistóide, com o objetivo de destruir todas as multinacionais do mundo.

Em tempo: repare como Fincher, ex-diretor de videoclipes da MTV, é um requintado estilista visual. Hematomas, olhos inchados e demais escoriações parecem saídos (propositadamente) de um quadro de Francis Bacon.

Porrada também é cultura, e em alguns casos, estilo.