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Freud para principiantes
Por Silvio Fernando
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Se Freud fosse vivo teria perto de 150 anos e seria um velhinho moderno (mesmo nos dias de hoje). Na certa, estaria vendendo entrevistas ou dando aulas nalguma faculdade laureada com seu nome, ou ainda, seria capaz de entrar no ramo de móveis fabricando... divãs, quem sabe? De qualquer jeito o velhinho faz falta, e isso, desde 1939. O pessoal mata as saudades como pode, entre um e outro filme de Bergman ou lendo as biografias sérias ou não que saem por aí.
Uma delas é intitulada Freud and His Followers de autoria de um certo Paul Roazen, professor de Sociologia da Universidade de Toronto. É um cara culto ainda que não entenda patavina de Psicanálise ou qualquer novidade no gênero. Mesmo assim mete-se a escrever uma biografia dessas. Só podia dar no que deu: as 599 páginas do livro trazem as fofocas da Viena do final do século XIX. E só. Entre elas, a notícia de que Freud, já velho, fazia pipi na cama. Algo para se discutir entre comadres, no salão do cabeleireiro e não em consultórios de psicologia como pensa o professor Roazen.
Entre outras pérolas empurradas goela abaixo pelo livro, somos informados de que Freud cessou suas atividades sexuais na marca dos 41 anos (se for verdade, renderia assunto para quantas sessões de análise?), compartilhava uma horrenda vida conjugal e (por isso mesmo) teve várias amantes, a maioria delas,do tipo machenta, o que permite ao professor Roazen especular sobre um possível "componente homossexual" em Freud. A mais masculinizada de todas, Lou-Andreas-Salomé já tivera um affair com Nietzsche e com o poeta Rilke. Relacionou-se ainda com Marie Bonaparte III, descendente direta do prisioneiro de Santa Helena. Era bem relacionado, o doutor.
O problema -- pelo menos, para os descendentes de Freud -- é a solidificação dos boatos por Ernest Jones em sua extensa (3 volumes!) biografia (lançada aqui nos anos 70 pela Zahar Editores). Jones tem autoridade para confirmar ou negar o que Roazen diz: seu nome consta na lista dos mais talentosos discípulos de Freud. Ao lado de gente como Alfred Adler, Melanie Klein, Anna Freud, Otto Rank, Wilhelm Reich e Carl Gustav Jung.
Este último, o predileto do mestre, até pelo fato de não ser judeu (Freud temia que a psicanálise fosse rotulada de "ciência judaica"). Jung, apesar de odiar o pai pastor, era o único "cristão" do grupo e acabou merecendo uma deferência especial, para despeito do enciumado Jones, também ele não-judeu.
A camaradagem entre mestre e pupilo começa a esfriar quando Jung postula o inconsciente coletivo em detrimento da sexualidade, como base de formação do sujeito.Tal "discrepância" provocou ataques em Freud, que chegou a desmaiar duas vezes.
Em seu livro O inconsciente e seus símbolos o discípulo "rebelde" nos dá uma amostra do quanto as relações entre ambos andavam fragilizadas, trata-se de um sonho onde Jung penetrava numa casa escura e se deparava com 2 caveiras no andar térreo: " ...não ousei mencionar nada a Freud, sobre caveiras ou cadáveres (...)sabia que esse tema não lhe era simpático. Alimentava a impressão de que eu antecipava-lhe uma morte prematura.Chegara a essa conclusão porque eu demonstrara grande interesse pelos corpos mumificados do museu (...) Freud procurava algum "desejo inconfessável" no meu sonho." Jung termina a história com uma mentira sugerida ao amigo, para desviá-lo do verdadeiro significado de seu sonho.
Parecem dois lunáticos conversando e não os papas da psicanálise que foram. Talvez porque fossem humanos com suas falhas e fraquezas, e não deuses do saber onisciente, aprisionados nalgum podium do conhecimento humano.
Mas parece que o karma de Freud era virar alvo de biógrafos inoportunos. Para cada Peter Gay havia um Mr. Hide espreitando. As novíssimas biografias de Freud trazem notícias velhas além de incorretas. Por exemplo: o "furo" de reportagem comunicando que o velho Siggy era usuário de cocaína. O que Freud fez foi redigir ensaios notificando o uso da substância para fins anestésicos. E quanto ao consumo, uma leitura atenta nos anais da medicina da época revelaria que quase toda a classe médica dava suas cafungadas, do eminente doutor até o oftalmologista-literato Conan Doyle.
Mas não confundam Freud com os guitarristas do Led Zeppelim. Ao final da vida, numa mudança drástica de opinião, rechaça a droga. Um pouco tarde, já havia conquistado vários adeptos. Pensando bem, um dos principais escândalos do início da carreira de Freud foi o fato de um de seus pacientes, sob efeito de coca sofrer uma taquicardia e cair estirado no divã, morto. É uma coisa um pouco chata para qualquer médico, quando o tratamento não dá certo. Se os processos por negligência médica estivessem em moda como hoje, o paciente teria justiça, e nós não teríamos Psicanálise.
Em tempo: Freud, psicanalisou a amante de Jones, persuadindo-a a deixa-lo. Dizem que era muito bonita. Curiosamente, Jones nunca mencionou o fato em nenhum dos três volumes biográficos que escreveu. Freud explica.

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