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Em diálogo com o pensamento de Paul Tillich
Por Silvio Fernando
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Para que serve a teologia? Será que ela tem uma palavra para as ciências e para o ser humano na pós-modernidade?
Para responder a estas perguntas, nos dias 15 a 17 de Maio ocorreu na Universidade Metodista de São Paulo UMESP, campus localizado em São Bernardo do Campo, o 9º seminário "Em diálogo com o pensamento de Paul Tillich" trazendo conferências, estudos e debates sobre a obra do teólogo e seu alcance interdisciplinar.
O evento foi realizado pelo núcleo de Pós-Graduação em Ciências da Religião em acordo com a Sociedade Paul Tillich do Brasil, órgão de pesquisa reconhecido pelo MEC já há nove anos.
As palestras foram ministradas pelos professores doutores Eduardo Gross, Etienne Alfred Higuet, Rui Josgrilberg, Eduardo Cruz, Ênio Muller, Jorge Pinheiro (Ms), Nathanael Gabriel da Silva (Ms), contando ainda com a presença de Lucy Piccinin e Tommy A. Goto, psicanalistas.
A estava platéia constituída por professores, teólogos e demais interessados nas áreas de Filosofia, História, Psicologia, Ciências da Religião e Sociologia.
Bíblia World Net entrevistou alguns dos palestrantes, entre os quais Jorge Pinheiro, Jonas Madureira e Lucy Picinin.
Socialismo e fé
BWN- Jorge Pinheiro, o teor de seu trabalho é sobre Socialismo Religioso e Marxismo, o que pode parecer uma contradição para alguns, ao menos aparentemente. Como diria Tillich, qual a correlação entre esses temas?
Jorge Pinheiro - Enorme. O conceito de distância que alguns possam ter entre socialismo, mais especificamente o marxismo, e o sentimento de religiosidade deve-se ao desconhecimento das idéias de Marx, certa alienação em voga na mente das pessoas e ao rigor, muitas vezes folclórico, de certos grupos de esquerda no Brasil dos anos 60. Vários movimentos que surgiram aliando fé às propostas socialistas provaram que a mistura rende bons frutos, quando aplicada na dose certa, na maneira correta.
Meu trabalho é sobre a leitura que o jovem Paul Tillich fez das obras de Marx e das conclusões que ele tirou acerca do fato. Descobre então o Marx humanista e profeta (diferente do outro Marx, no final da vida, analisando os contrastes humanos pelo viés econômico). A resistência à catástrofe histórica é tarefa profética, devendo-se elaborar uma mensagem de esperança.
Para ele o espírito religioso estaria vivo no movimento socialista lhe transmitindo coragem e vida. (Já que nas duas visões; bíblica e marxista trazem uma idéia de queda, alienação para o homem).
As forças do Mal são identificadas com a injustiça, mas podem ser derrotadas. Sempre.
O nome de Deus
BWN - Jonas Madureira, seu trabalho vai buscar no existencialismo, nas citações literárias o alimento para a argumentação teológica-filosófica de Tillich, em especial a questão de se querer "nomear" Deus, isso é possível?
Jonas Madureira - É possível nomear alguma coisa, um objeto, rotulá-lo. Mas não se pode apreende-lo, transcende-lo com um nome, um código. Usei um verso de Goethe no início de meu trabalho (Deus acima de Deus e a coragem de ser) para ilustrar essa limitação. O verso nos diz que "o sentimento é tudo; o nome não é mais do que som e fumo".
Ocorre uma certa "castração" do objeto em prol do nome que se torna portador da idéia referente. Para Paul Tillich a idéia cristã de Deus fundamentou-se no fato de esta concepção pode tornar o objeto de adoração em ídolo.
Todavia, para Tillich estas e outros dúvidas a respeito de Deus, dogmas, religião, etc não afastam o fiel de seu Deus, que na realidade está acima do Deus-teísta fabricado de acordo com nossos conceitos.
Epilepsia e religião
BWN - Lucy Picinin, você trabalha com crianças epiléticas, em particular o conteúdo de seus sonhos. Em seu trabalho a senhora cita o que Paul Tillich chama "desejo de pecar" projetado no sonho. Numa perspectiva lacaniana o desejo corresponde a um vazio interior que precisa ser preenchido. Fica aqui a pergunta: Esse vazio não será sintoma de uma religião mal aplicada, impiedosa gerando após o desejo, uma culpa posterior?
Lucy Picinin - Tillich foi um filósofo sem igual, fazendo pontes com diferentes expoentes da cultura global: Marx, Heidegger, Kant, Freud e até o budismo oriental.
Quanto ao sonho ele explicou que tudo que ocorre no campo onírico depende da experiência diária do indivíduo. Este, quando sonha uma determinada situação, ele interpreta pressupondo um pecado que ainda não é pecado, mas também já não é inocência (estado presente no começo da vida da pessoa). É o desejo de pecar.Tillich nomeia esse estado como "desejo", "liberdade desperta".
O indivíduo autopune o direito de sonhar. Por sua vez, o direito de sonhar livremente, o desejo de atualizar essa liberdade de sonhar confere equilíbrio ao consciente e diminui a angústia.
Quanto à sua pergunta: o que mais eu vejo em clínicas de apoios a pessoas com problemas mentais são pacientes fanáticos, oprimidos por alguma religião e, por isso mesmo, trocam diversas vezes seu credo religioso. Ao invés do aparato da Igreja servir como fonte de alívio para aquelas pessoas provoca tormento, tacanhez mental. Infelizmente é uma das coisas mais comuns.

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