13 de junho de 2003


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A quarta face do Cristianismo
Por Silvio Fernando


No último dia 10 de junho, a Faculdade Teológica Batista de São Paulo promoveu a palestra com o tema "Pentecostalismo: Movimento espúrio ou a quarta face do Cristianismo?".

Para falar sobre o tema foi convidado o professor Antônio Carlos de Melo Magalhães, doutor em Teologia pela Universidade de Hamburgo, Alemanha, e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, da Universidade Metodista de São Paulo.

Leia abaixo, trechos da entrevista com o conferencista, concedida à Bíblia World Net.

Força civilizatória?

BWN - O Movimento Pentecostal têm vivido um boom nos últimos anos, mesmo assim, ou por isso mesmo, vem recebendo inúmeras críticas de certos setores evangélicos. Por que?

Magalhães - O Pentecostalismo vem crescendo muito nos últimos anos, por uma convergência de fatores: o desespero dos tempos de hoje, a miséria crescente, a alienação, a ânsia por uma maior liberdade de culto...

Estes e outros fatores formam uma rede, uma teia de motivos que ajudaram a acelerar o crescimento Pentecostal em continentes como África, Ásia e América Latina. Isso gera algumas críticas, como é de se esperar.

BWN - Uma delas traz o peso de uma bigorna, diz respeito a indução...

Magalhães - Toda manipulação deve ser veementemente criticada e combatida. O Pentecostalismo oferece uma liberdade de culto alcançada, uma religião libertada da moral de classe média. Isso deve ser visto como uma conquista.

É claro que, com isso, muitas pessoas freqüentam um templo, muito mais pela sedução destilada pela Igreja, pelo acolhimento fraterno e pela terapeutização (natural) presente no meio, do que pela identificação com a doutrina do lugar.

Outra acusação séria é a de que a pessoa do Espírito Santo passa a ser o eixo principal da Trindade e a comunidade, ali presente, passa a ser, para os fiéis, toda a Igreja existente na face da Terra.

BWN - Mesmo assim muita gente está disposta a ver sangue Pentecostal rolando...

Magalhães - Note bem, eu nunca tive uma experiência que você possa chamar de pentecostal, falar em línguas, ter visões... Não obstante, a leitura que eu faço do Movimento Pentecostal é de cunho teológico, e não sociológico como normalmente se faz.

A primeira pergunta que eu faço diante disso é: o Pentecostalismo assusta quem? E por que?

Ora, se há algo que eu temo muito, este algo também me fascina grandemente. O pastor que prega e "re-prega" sobre um mesmo tema de maneira anormal, compulsiva, acaba tornando-se vítima da própria pregação.

Mas voltando à sua pergunta, não há como extinguir o Pentecostalismo, pois a experiência pentecostal sempre esteve presente na história do Cristianismo, no entanto, essa é a primeira vez que o Pentecostalismo torna-se hegemônico.

Só para você ter uma idéia: no começo o movimento Pentecostal foi praticamente banido dos púlpitos de nossas Igrejas Tradicionais, mas hoje, voltou e influencia nossos ritos batistas, por exemplo.

BWN - Qual a relação entre populações de baixa renda e este novo tipo de fé, digamos, mais elétrica?

Magalhães - Freqüentemente os detratores do Pentecostalismo o invalidam, dizendo que é um fenômeno religioso típico da pobreza, oriundo da alienação... Não creio que isso seja verdade. O Pentecostalismo, hoje, provou ser um fenômeno de eixo transversal; atingindo ricos, pobres, remediados...

Outra coisa que me desagrada, é a ignorância preconceituosa embutida nesta acusação. Nós primórdios da História Cristã fomos uma religião quase que exclusiva de pobres e miseráveis, até virarmos essa força civilizadora moderna, resultado de um longo processo.

BWN - Há chances desta quarta face transformar-se em processo civilizatório tal como as outras?

Magalhães - Este processo tem sido retardado por alguns motivos. Um deles é o de que o Pentecostalismo nunca será uma força cultural (o que é diferente de presença social, algo que ele já é) enquanto não notar as ambigüidades da nação. Já é hora de sair do solo Protestante de Genebra.

Tirando isso, este "novo" movimento tem toda a tendência de tornar-se força cultural, tal como as outras faces do Cristianismo que o precederam.