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Abutres Prensados
Por Silvio Fernando
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Todo fazedor de jornais deve tributo ao Maligno [La Fontaine]
Ao que tudo indica, o cineasta austríaco Billy Wilder (1906-2002) concorda com esta frase. E muito. Não á toa, um de seus melhores filmes A Montanha dos Sete Abutres, atenda na Alemanha pelo título (meio maniqueísta, é verdade) Der Teufelsreporter (O mensageiro do Diabo).
O mensageiro no caso, é Charles Tatum, jornalista medíocre vivido por Kirk Douglas, que agoniza de tédio na sonolenta cidadezinha de Albuquerque, Novo México. As coisas mudam quando ocorre o soterramento de um mineiro, Leo Minosa, debaixo da famigerada montanha do título. A ânsia do repórter em fabricar situações, a fome dos jornais por fatos frescos, os flertes entre a esposa de Leo e Tatum, são alguns dos ingredientes que mestre Wilder utiliza para montar esse prato indigesto, na verdade, um horroroso painel do jornalismo moderno.
Não é novidade. O tema da imprensa marrom é recorrente em diversas histórias de celulóide. Filmes como Ausência de Malícia, A Primeira Página (também de Wilder), O Quarto Poder e de certo modo Um Dia de Cão exploram o mesmo tema; o parasitismo da imprensa, a presteza mórbida da população em aderir ao circo incendiado, a pressa em alimentar manchetes com habitantes do mundo cão. Montando o pet shop está Charles Tatum. É ele quem brilha, em lugar da notícia. Se para ele, Leo traz prestígio profissional, para a esposa traz somente alívio e nada mais. A região torna-se conhecida, turistas se divertem. Todos lucram com o homem soterrado na montanha.
Problemas com a imprensa
O filme, hoje inscrito no rol das melhores obras do diretor, foi um fracasso colossal de público. A culpa cabe,em parte á mídia da época que, vendo-se retratada na história pelo olhar nada complacente de Wilder, legou ao filme uma frieza glacial.
Quando se manifestou, foi com a insinuação capciosa, de que Wilder não seria merecedor dos créditos enquanto co-roteirista da história. O verdadeiro e único autor, seria Charles Brackett, parceiro constante do diretor na época. O boato se deve ao fato de quando o cineasta aportou nos EUA, fugindo dos ecos nazistas de sua terra, não falava uma palavra de inglês, tendo de ligar-se a comunidade alemã de Hollywood. Passou os primeiros anos, trabalhando sob a tutela de gente como Ersnt Lubitsch (para quem escreveu, sozinho, o roteiro de Ninotchka).
A crença durou muito tempo. E só foi desfeita, quando o cineasta resolveu mudar o time: trocou o americano sisudo pelo estouvado romeno; I.A.L. Diamond. Ironias à parte, é curioso notar como Brackett, após ser demitido da dupla pelo parceiro, nunca mais se acertou como roteirista, nem em Hollywood, nem em lugar nenhum.
Wilder sabia do que estava falando. Devia. Afinal, ele fora repórter em vários países da Alemanha. E era versado em trambiques também. O primeiro script vendido, foi a um produtor que tentava esconder-se de um marido ciumento. Conseguiu fugir do provável assassino mas não de Wilder, que aproveitando-se, lhe obrigou a comprar a história.
Anos mais tarde, já famoso, e sem precisar chantagear amantes desastrados, contratou certa atriz famosa da época, meia coquete, mas com sex-appeal até as ventas, e, por isso mesmo, sinal garantido na bilheteria. Os estúdios não permitiam, via contrato, que fosse filmada em preto e branco. Wilder inventou que o processo do technicolor explicitado na tela do cinema estragaria a maquilagem de Jack Lemmon e Tony Curtis, parceiros da estrela no filme. Não se sabe como, a desculpa colou. A estrela era Marilyn Monroe e o filme Quanto Mais Quente Melhor. O resto você sabe.
Tais coisas consagram um mestre. E definem uma carreira. Pense bem: os melhores filmes de Wilder sempre trazem embutidos, entre uma cena e outra, quando não aparecem como tema principal da história, verdadeiros exercícios de malandragem e resistência dos personagens, normalmente criaturas duras, sobreviventes da nossa sociedade.
Exemplo disso, é uma das frases, hoje célebres, via Wilder & Brackett, presentes em mais um dos arranca-rabos entre Tatum e a mulher de Leo, Lorraine. A frase define bem o caráter "empresarial" do jornalista. Começa assim: "...há três de nós soterrados aqui. E os três querem sair. Vamos conseguir, e eu, pelo menos, vou fazê-lo lindamente".
O que não acontece. Com a morte de Leo, provocada pelo atraso (proposital) de meios para tirá-lo dali. A ressaca moral que abate o personagem no final do filme, age sobre o expectador, como um filtro redentor da conduta do jornalista.
Os herdeiros de Tatum, hoje, livres das incômodas prensas a la Wilder, são o melhor exemplo da evolução do jornalismo enquanto fim em si mesmo. A informação veiculada por abutres e afins, é, antes de tudo, mercadoria de consumo rápido e destinado. A genética nos ensina que nem todas as evoluções são boas, muito menos as econômicas. Curiosamente essas notícias, mesmo dando manchete, não vão parar nos jornais.

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