04 de agosto de 2003


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Afiado como Tesoura
Por Silvio Fernando

Tim Burton é um diretor incomum, para valer-se de um eufemismo vulgar. Foi um dos cineastas de maior destaque nos anos 90 e, ao que parece, seu brilho ainda não se apagou nestes tristes (para o cinema) anos 2000. Produz e dirige seus (quase sempre) rendosos filhotes, com uma autonomia criativa raras vezes vista, em se tratando de Hollywood. Ainda por cima, consegue abiscoitar multidões a cada novo lançamento seu. Mesmo assim, há sempre um crítico meia-boca decretando a falência das "excentricidades" de seu último filme, junto as mentes das platéias (sempre lotadas) habituadas a deglutição instantânea de filmes fast-food, habitantes das cidades sagradas da Fox & Cia. Foi assim também, quando ele quis fazer Edward Mãos-de-Tesoura.

Johnny Depp faz o Edward do título. Uma mistura de ciborgue-manequim criado por um cientista (Vincent Price) que morre antes de "aperfeiçoa-lo" com o uso de mãos.
Esse garoto de mãos estranhas e coração(?)de ouro é mais um na galeria de criaturas sombrias e marginais que brotam da cabeça de Burton a cada dois ou três anos. É o irmãozinho caçula de Batman e Bettlejuice, os outros meninos ricos de Papai Burton.

Mas isso é só pretexto para que o diretor afie as (próprias) lâminas na direção da sociedade americana, espelhada pelos estranhos vizinhos de Edward. Estão lá, caricaturizados, todos os tipos (arquétipos, se você preferir) daquela vizinhança kistch e aburguesada: o pai; capitalista até a medula, a vizinha perua; caçadora de homens em tempo integral, a esposa;mãe adorável e submissa, preparadora de saladas para toda a família, a fanática testemunha do Apocalipse, o namorado ciumento, etc.

Uma turma que faria a delícia de qualquer zoólogo com apetite intelectual suficiente para estuda-los. Burton tentou fazer isso.

Como pano de fundo da história, estão os comentários que ele vai tecendo sobre o mundo das aparências. Não por acaso, Peggy (Diane West) é vendedora de cremes Avon.

O diretor chega ao ponto de usar maquetes para a confecção de cenários, em algumas cenas propositadamente irreais do filme (como por exemplo, as tomadas aéreas do bairro) e investe no conjunto de cores fortes dando a impressão de artificialismo tanto ao lugar, quanto a relação entre as personagens.

Na verdade Edward torna-se um bibelô gótico frente aos olhos da vizinhança, imersa no marasmo do american way of life, com a finalidade única de distrair o subúrbio inteiro. Vira o fetiche da rua.

Seja proporcionando êxtases semiorgásticos as comportadas senhoras, amigas de Peggy, com os cortes de cabelo horríveis que faz, seja decorando jardins com suas estranhas esculturas, ou ainda, recebendo o estigma de ladrão do bairro, quando alimenta o ódio da comunidade (vindo de onde?) em relação a sua figura. Triste figura.

Um paralelo curioso permite ser traçado aqui:

A impossibilidade de relacionamento entre Edward e a comunidade bem comportada que o cerca, dá-se por um mesmo problema e seu reverso; se por um lado Edward não é humano, do outro, a sociedade é desumana.

A parceria entre ator e diretor continuaria por mais alguns filmes, sinônimos de diversão e qualidade, como Ed Wood e A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça.

Alguns filmes-fiasco fornecem as desagradáveis indicações de que, com o tempo, o diretor foi perdendo o corte. A versão hard e sem sal de O Planeta dos Macacos agradou pouca gente, e quanto a seu Marte Ataca!, feito antes desse, um elenco tinindo não garantiu a boa história de sempre.

O que deixa saudades, do tempo em que Burton era afiado como uma tesoura.