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Riacho morno
Por Silvio Fernando
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A história é mais ou menos assim: durante a Segunda Guerra Mundial, a necessidade de ampliação de força norte-americana no Brasil determina a extração imediata de petróleo (recém-descoberto) em solo brasileiro. Para comandar a perfuração das novas terras chega um grupo de estrangeiros, entre eles Frank (Andrew McCarthy), engenheiro inglês, designado chefe da operação e sua esposa Donna (Natasha Henstridge). Como o casamento dos dois tem mais buracos que os campos que McCarthy fura em busca de petróleo, Donna em breve se engraça com Nô (Eduardo Moscovis), pescador local.
A pequena estrutura narrada acima poderia servir de base para um tema cujo mote, fosse construído a partir de reflexões sociais e/ou relações afetivas levadas a sério, foi o que aconteceu na literatura, através do romance Riacho Doce, de José Lins do Rego.
POP versus PULP
Nas mãos de Fábio Barreto, a obra de Lins do Rego foi transformada em um riacho morno, com rasos filetes d'água saindo por uma ou outra cena, permeando parte dos diálogos, que, no entanto, são insuficientes para irrigar o resto do filme, cujo roteiro permanece árido para que qualquer diretor consiga transpô-lo de maneira satisfatória.
O filme segue à risca a receita sexo, macumba e paisagens tipo cartão-postal, fazendo do filme um produto de exportação. Bela Donna é o tipo de filme que não se ressente de passar do cinema à telinha, onde se sente mais à vontade.
Mesmo com a receita testada, a história desanda. Pesa no estômago, de tão requentada. Se Sísifo, numa trama mais original, era condenado a rolar para sempre, uma pesada rocha montanha abaixo, essa versão de Lins do Rego condena as personagens a desempenhar no filme inteiro, atos e funções já previstos. Não se trata de situações arquetípicas ou personagens alegóricos, usuais desculpas para a falta de criatividade. São clichês num filme que se pretende pop, mas não consegue passar de pulp.
O colírio machista vem nas cenas em que Natasha Henstridge, a donna do título, aparece envolvida com Moscovis pelas dunas ensolaradas. É a versão marota da lei do eterno retorno de Nietzsche.
O que une Donna e Nô é sexo. O roteiro não consegue transmitir qualquer nesga de paixão. Sobra disso, esgarçada, uma química rasteira.
Ao insistir em fazer cinema de mercado, Barreto esqueceu do principal: qualidade. A prática comprova a eficácia em unir técnica e apelo popular. No presente momento talvez seja a fusão necessária para a revitalização de nosso cinema. Filmes como o Auto da Compadecida, Bossa Nova, O Rei do Rio (um Barreto muito melhor, feito em 82) e o recente Lisbela e o Prisioneiro estão aí para provar isso.
Mas, voltando ao tema de Riacho Doce, Glauber Rocha, já de olho no romance, desde os tempos em que tentava um acordo com os militares, prometera mundos para a realização do projeto: escalar Odete Lara para o papel principal, montes de inovações, questões sociais, discutindo, profetizando, etc.
Os planos nunca saíram da montanha branca de papel. Não se sabe como seria o projeto. Nem o que virariam os personagens de Lins do Rego, transformados pela estética glauberiana. Sabe-se, isto sim, o resultado da versão atual da mesma história. Sobra um filme esquecível e gostosinho de ver. Só.

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