11 de setembro de 2003


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Os trunfos do azarão
Por Silvio Fernando

Chega aos cinemas a biografia do produtor e ex-vice-presidente da Paramount, Robert Evans. Narrada por ele mesmo em forma de documentário, a fita se sobressai de outras cinebiografias pelo tom de honestidade dolorida com que são apresentadas as, nem sempre, gloriosas histórias presentes na tumultuada vida de Evans, ex-tycoon, hoje apenas um homem amedrontado pela memória dos grandes estúdios.

Um pouco da história

Robert chegou ao cinema pela porta dos fundos; era um péssimo ator em filmes de segunda, com uma honrosa exceção para E Agora Brilha o Sol(1957) de Henry King baseado no original de Hemingway. O produtor do filme Darryl Zanuck, todo-poderoso da Paramount, recebeu via telegrama, as reações do set, frente ao "astro", novato e briguento.

A mensagem curta e grossa, dizia o seguinte: "Se ele (Evans) fizer o papel, o filme será um desastre absoluto. Assinado Ernest Hemingway, Ava Gardner, Tyrone Power, Henry King". Zanuck bateu o pé, e furibundo outorgou como só faz um rei (ou um tirano): The kid stay in the picture (o garoto fica no filme, título que dá nome a fita em inglês).

Ninguém teve peito para discutir. Nem mesmo Hemingway. Foi o primeiro estalo para o duvidoso ator, catapultar-se em poucos anos a condição de mega-produtor numa Hollywood que ainda sabia unir dois truques básicos: comércio e qualidade.

O primeiro negócio com alguns cifrões para o bolso de Evans foi a fita de terror O Bebê de Rosemary, que em breve se tornaria clássica, unindo dois gêneros: suspense sobrenatural e terror psicológico. O prestígio da fita serviu para realçar a imagem do Midas engravatado, arrolada desde essa época ao perfil lucrativo do produtor. Ajudou também a consolidar (e rotular) a carreira de cineasta maldito de Roman Polanski, diretor do filme.

Em 1971, Evans produz mais um grande sucesso em Hollywood: seu casamento com Ally McGraw, estrela de Love Story, filme que não só tirou a Paramount do buraco, como representou o faturamento mais gordo da indústria por cinco anos.

Nessa altura Evans já estava produzindo tudo e todos: O Poderoso Chefão, Sérpico, Chinatown.
E também Jack Nicholson, Dustin Hoffman, Robert Redfort, John Huston e até Woody Allen.

O filme aparece recheado de nomes famosos e pequenas histórias que na época foram parcialmente ocultados dos grandes tablóides, o que pode ser um prato cheio para a maioria de jovens cinéfilos que ainda não conhece o passado turbinado e tempestuoso de Evans, nem da Hollywood que ele ajudou a criar.

Ao que parece o clima de efervescência cultural e sexual tomou conta de quase todo mundo naqueles coloridos anos 70. Muito uísque, cocaína e sexo eram parte integrante do cardápio das festas em Beverly Hills. As mesmas festas onde Dennis Hopper sempre bêbado, tinha a mania de esmurrar seus desafetos, em sua maioria, integrantes da velha escola de cinema que Hooper achava estar "superando" ou onde Roman Polanski fora acusado do estupro de uma menina de 13 anos numa festa na casa de Jack Nicholson.

Acompanhando os milhares de dólares gastos nas festas, uma batelada de prêmios ganhos todo ano, acumulava-se na estante destes azarões do entretenimento, dos quais o principal sempre foi Robert Evans. Aparentemente, ele não tinha do que reclamar.

O caminho da decadência

Mas para Evans, a década terminou com gosto de ressaca. Após o chute que tomara da mulher, que o trocara por Steve McQueen, com quem filmava na época - mais bonito e menos ocupado. Evans superou do jeito que pôde. Circulando pela night em porsches novinhos, com uma dúzia de starlets e modelos em cada braço, a cada noite.

O envolvimento tardio com drogas (cocaína, depois dos 40), os fracassos, até então inéditos, nas bilheterias e o envolvimento do produtor num assassinato envolvendo traficantes abafaram a curta e promissora carreira de Evans por algum tempo. Demitido pelo estúdio que ele próprio erguera do pó (sem trocadilho), Evans permaneceria liquidado não fosse a ajuda de amigos que lhe arranjaram emprego nas televisões a até a restituição de sua antiga casa (como fez Jack Nicholson, num programa de TV).

Essas e outras histórias estão no documentário da dupla Burstein e Morgen. Após os créditos finais, Dustin Hoffman aparece imitando Bob Evans nos intervalos de filmagem de Maratona da Morte.

Robert Evans simboliza o retrato esmaecido de uma época e de um modo de fazer cinema (domando o "monstro" do mercado) que, infelizmente, já não existe mais. Herdamos apenas a tecnologia antiestética e, por isso mesmo, estéril. Não deveriam ter demitido Evans, fizesse o que fizesse.
Sua praga pegou.

O Show não Pode Parar (The Kid Stay in the Picture.) Documentário. Direção de Nanette Burstein e Brett Morgen. EUA/2002. Duração: 94 minutos. Em São Paulo no Cinearte I, das 14h ás 22h.