17 de outubro de 2003


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Com quantos Kane se faz um Welles?
Por Silvio Fernando

Rosebud. A palavra mais famosa do cinema ocidental, por pouco não ficou de fora do roteiro de Orson Welles e Herman J.Mankiewicz, entrando na história apenas por intermédio deste último. Welles, que desde garoto devorava as peças de Shakespeare (revelou numa entrevista, que aos 10 anos "brincava de Hamlet") preferia algo mais classudo para o final de sua primeira obra (prima): Kane, minutos antes de sua morte, recitando um poema de Coleridge, Byron, Shakespeare. Algo assim. Não deu. Ficou Rosebud mesmo.

Foi um achado. Se você prestar alguma atenção no filme verá como a simples menção da palavra serve de gancho para alinhavar as cenas até então "independentes demais" conforme avaliavam os pouco confiáveis jornais de Hearst.

Esse problema de "colagem" das cenas numa seqüência inteligível para o expectador, representou a primeira dor de cabeça para a dupla de roteiristas até re-escreverem pela quarta vez o roteiro de Kane (por enquanto, sem o cidadão do título) abandonando no processo cenas que eles achavam, não fariam sombra ao resto do filme. (Algumas delas são: o enterro do filho de Kane, morto numa agitação fascista; o encontro entre Kane e seu pai num velho teatro e a descoberta do amante de Susan - morto por Kane).

Um ilustre biografado

A enxaqueca nº2, claro, foi o furacão causado por William Randolph Hearst frente aos donos de estúdios e distribuidores do filme. O engraçado de tudo isso é que o rei da imprensa marrom, não teria sabido nem sequer da confecção da película se seu fiel e bêbado amigo Herman Mankievicz não soltasse a língua num final de semana regado a (muito) uísque. Hearst não deu muita importância ao caso, afinal funcionava como propaganda, não?

O magnata só parou de sorrir quando sua alcoviteira de plantão, a colunista Louella Parsons - na época recém-contratada e doida para mostrar serviço - o alertou para outro personagem presente no filme: a segunda mulher de Kane, Susan Alexander.

O modelo para Susan, ninguém mais ignora, foi Marion Davies, amante de Hearst. Não haveria tanto problema se Welles não tivesse feito questão de bombardear a personagem com fatos e pormenores desprezíveis, falsos em sua maioria.

Marion podia não ser um anjo de candura para com Hearst, mas também não era a megera burra e infeliz que todos nós conhecemos hoje, via Welles. E ao contrário do filme, ela tinha, sim, algum talento, mas para a comédia, algo que Hearst quase nunca a deixava fazer.

Com essa gama de fatores exposta no filme, é claro que Hearst tentou comprar a fita. Desembolsou US$ 800.000 unicamente para ver seus negativos pegarem fogo. Com a recusa de Welles, não restou outra alternativa a Hearst (que no fundo devia ser um homem romântico) senão declarar Cidadão Kane, como o (filme) mais perigoso da América.

O que o jornalista nunca desconfiou foi que Kane pudesse ter outros modelos além de sua irritada pessoa.Tinha vários: o milionário Howard Hughes, o conquistador mongol Kubla Khan (que realmente construiu uma Xanadú para si), o capitão Kurtz de Heart of Darkness (a primeira opção de filme para Welles, abortada pela RKO por motivos financeiros). Além do próprio Welles que entre outros predicados, era filho de um alcoólatra, órfão de mãe e, vejam só, tinha um tutor chamado Berstein.

Nem Welles, nem Kane aparentavam ser muito chegados a escolas dominicais (o personagem de Joseph Cotten, numa das seqüências do filme, menciona ateísmo de Kane). Mesmo assim a máxima bíblica "Que aproveitaria ao homem ganhar o mundo todo, e perder a sua alma?(Mc 8.36)" parece encontrar eco no filme. Quase todos os personagens do filme concordam que Rosebud foi algo perdido por Kane. Mas e Welles, o que perdeu?

Seja por praga de Hearst ou não, Welles nunca mais conseguiu se acertar em Hollywood, a despeito do totem erigido em torno do filme e do aumento significativo em sua conta bancária (a ele cabiam, por contrato, 25% dos lucros do filme). Com o fracasso de Cidadão Kane, os estúdios cancelaram um a um, os projetos do diretor que ia aos poucos, deixando de ser o menino prodígio dos estúdios para tornar-se um pirralho incômodo.

Nenhum cineasta teve tantos filmes remodelados a partir do gosto fácil dos produtores (Soberba teve o final mudado e "encolheu" 44 minutos. A Marca da Maldade teve sua narrativa mudada para uma forma linear). Ao contrário de Kane/Khan, Welles não tinha uma Xanadú para refúgio particular. Seu exílio na Europa revelou-se infrutífero quando, por falta de verba, seus filmes não puderam ser terminados.

Welles morreu em 1985, aos 70 anos. Gordo, amargo e sozinho. Exatamente como os personagens interpretados por ele nos anos 40 e 50. Um ano após sua morte foi mostrado em Cannes o copião deDon Quixote - seu último Rosebud.