O ator, dramaturgo e diretor Antônio Ravan re-estréia agora em janeiro, em São Paulo, com três peças de sua autoria: Humor aos pedaços, Édipo Rirei e Quarteto em rir maior (em cartaz, já há dois anos na cidade).
O fundador das companhias teatrais Quarteto em Rir Maior e Sótãos e Porões teve trechos de sua peça O Jardim dos Cogumelos adaptados para o antigo TV Pirata, da Globo. Além de O Jardim... Ravan é autor de mais oito peças e de um livro de poesias, No mar como os peixes, tendo sido redator do extinto programa Rá Tim Bum da Cultura. Leia a seguir trechos da entrevista do dramaturgo a Bíblia World Net.
BWN - Como você definiria seu tipo de teatro? Cômico? Popular?
Ravan - Eu tento fazer um teatro do meu tempo que, eu espero, consiga divertir alguém, fazer essa massa de alguéns pensar. Popular, neste sentido. E isso não significa necessariamente esculachar a qualidade do seu produto para obter uma fatia maior de público. Na Itália, por exemplo, trechos de ópera são cantados por todos: do carroceiro ao cardeal. Isso é a cultura que vai sendo espalhada por um país. Você não vê La Traviatta baixar a qualidade vê?
BWN - Este teatro do seu tempo não corre o risco de se tornar datado pelos críticos?
Ravan - Não, porque infelizmente os problemas do ser humano continuam os mesmos. Universais. Uma peça minha, O Jardim dos Cogumelos, foi escrita em 1987. Tratava de terrorismo, bombas, expansionismo geográfico esse tipo de coisa. Cada vez que eu vejo o Bush entrando em questões que não lhe dizem respeito, eu me lembro desta peça.
Quanto à crítica...Bom, eu acho que ela persegue o óbvio. Dizer que Woody Allen é um cômico genial depois que ele faturou quatro Oscars por Annie Hall é praticamente um senso comum entre críticos agora. Espera-se que o artista escape da obviedade deste senso comum.
BWN - Comenta-se muito de um certo preconceito disfarçado da mídia para com o artista que faz humor. Esta má-vontade existe de fato?
Ravan - Existe, infelizmente. Pra você ter uma idéia: a cada peça que estréia na cidade, é mandado um convite para alguém da crítica. Quando a peça em questão é cômica, raramente um profissional dessa área se digna a vê-la e comentá-la. Já se for um drama, de preferência estrangeiro, tudo muda de figura. Passa a ser chique, in, esse tipo de coisa.
BWN - Por que o desprezo?
Ravan - Eu não sei exatamente o porquê. Talvez porque o ser humano tenha mania de se achar sério demais, grande demais. A comédia é sempre mais inteligente que o drama, no sentido de que no drama existe toda uma preparação do expectador em relação ao que ele vai ver em cena. Na comédia não, a platéia vem desarmada para o teatro e neste estado é levada a embarcar na fantasia daquilo que está sendo representado, e quando vê está rindo de si mesma, de seus próprios problemas.
BWN - O escritor Marcos Rey dizia que até as catástrofes são engraçadas, se viradas do avesso. Você concorda com essa afirmação?
Ravan - Não sei se todo momento na vida deve servir de piada. Ás vezes uma cabeça fria vale mais do que uma risadinha chocha, dessas feitas para disfarçar o embaraço. O que acontece é que a vida em si pode ser uma comédia dependendo do ângulo em que você olhe.
Uma ou outra coisa, nesta ou naquela peça, incorre em algo que eu vi com uma filha minha, que um amigo me contou... Normalmente é preciso incrementar esta situação com mais idéias, embora ás vezes ocorra de estas coisas estarem envoltas num clima de humor enorme, absurdo.
BWN - Como era fazer teatro antes da abertura política?
Ravan - Eu peguei o final da ditadura. Naquele tempo você tinha que pegar a sua peça, o seu roteiro, música, livro o que fosse, e levar para o censor analisar. Você era tratado como um facínora dentro daquele prédio, simplesmente por você estar sentado no banco, esperando o censor com uma pastinha subversiva nas mãos. E conforme fosse o seu texto ou a cabeça do censor, ele canetava o texto todo, de alto a baixo, às vezes para mostrar serviço ao chefe dele.
Qualquer ato totalitário vai contra qualquer obra de arte, uma vez que eles tentam sufocar a obra, mas só conseguem sufocar a expressão dela. Essa expressão normalmente é censurada por alguém que se acha um heroizinho, uma espécie de benfeitor coletivo. Essa mania de se fazer o bem a qualquer preço é o que acaba gerando os maiores males da humanidade: governos opressivos, guerras santas.
BWN - Em seu discurso nota-se uma certa simpatia pela esquerda, mas tanto em Édipo Rirei quanto no Quarteto em Rir Maior você faz piada com o emblema da esquerda no Brasil, o Lula.
Ravan - Eu sou eleitor do Lula desde 89. A primeira versão de Édipo Rirei tinha 30 minutos e foi escrita 3 anos depois disso, durante o impeachment do Collor. A versão atual englobou muito mais coisa e por isso mesmo, está longe de ser partidária. O que acontece é que nós atiramos pra todo lado: a corrupção dos políticos, a ingenuidade da esquerda, o pessoal da ditadura...
Já no Quarteto... o fato do líder sindical (personagem de Ravan) não saber responder numa entrevista o que é art nouveau ou se atrapalhar com culinária, não o invalida em nada no tocante a suas razões políticas, antes denigre o apresentador do programa, Donato Flores (personagem de Ivo Roberto) membro da classe dominante, orgulhoso e superficial na qualidade de homem de comunicação de massa, o oposto do líder sindical aparentemente inculto que está sendo entrevistado por ele.
BWN - E qual será o próximo passo de vocês?
Ravan - Estamos pensando em fazer algo na linha de Shakeaspeare, Ibsen. Uma idéia brincalhona com esses caras.
Onde ver: Teatro do Quarteto: Rua 13 de Maio, 830, Bela Vista Tel.: 11 3283-0056.
Humor aos Pedaços, às quintas, 21h00, estréia dia 8. Quarteto em Rir Maior, às sextas, 21h00, e sábados, 21h30, estréia dia 9. Édipo Rirei, aos sábados, 19h00, e domingos, 20h00, estréia dia 10.