|
|
|
 |
EVANGELHO DE PASOLINI
Obra de Píer Paolo Pasolini agrada a gregos e romanos
Por Silvio Fernando
|
|
No último Natal saiu pela Versátil, O Evangelho Segundo São Mateus. Apesar do preço (R$ 42,90), o filme não deixa de ser um presente para cinéfilos em geral. No rastro do sucesso de O Evangelho Segundo São Mateus, a mesma distribuidora que já havia lançado Teorema, promete para breve os filmes Mama Roma, Desajuste Social (antigo Accatone) e Medéia, todos de Pasolini.
É a chance para ver ou rever alguns dos trabalhos mais significativos do artista que foi ao mesmo tempo poeta, romancista, cineasta e dramaturgo. E crítico também. Não só das artes como também dos novos costumes de uma "Itália prostituída pelos bens de consumo, oriundos de nova ordem vigente: a saber, o Fascismo". Escreveu ele, furibundo, em seus Scritti Corsari.
Pasolini não estava sozinho em suas críticas ao establishment romano: a maioria dos cineastas que despontou nos anos 60 e 70 vazia coro às suas indignações. Desse grupo relativamente grande (Bertollucci, Alberto Moravia, Marco Ferreri e outros menos afamados), Pasolini era o dono da voz mais possante, fazendo-se ouvir em jornais, filmes, peças e livros. Logo se tornou dissonante ao não estabelecer "alvos" determinados para seus ataques. Para ele tudo combinava direta ou indiretamente numa coisa só: o Estado -- Igreja Católica, Partido Comunista Italiano, publicidade, etc.
Essa "ausência de foco" fez dele uma das personalidades mais discutidas de seu tempo, (a intelectualidade italiana passou a ler e discutir suas colunas aos domingos). Mas também lhe impossibilitou a permanência num campo seguro. Apesar de badalado, Pasolini tornou-se uma espécie de pária intelectual.
Era odiado pela burguesia romana e também pela aristocracia italiana desejosa dos "bons tempos" com Mussolini. Fetichizado pela esquerda, a idolatria ao cineasta só acabou quando ele começou a dirigir suas críticas contra o Partido Comunista Italiano (atual Partido Democrata de Esquerda). Também a Igreja Católica se opôs duramente ao desregramento sexual de Pasolini.
Com tantos e tão variados inimigos, era de se esperar que Pasolini não durasse muito. Não durou. Foi encontrado morto, aos 53 anos, debaixo das rodas de um carro na praia deserta de Óstia. O rosto estava totalmente desfigurado. A morte do cineasta trouxe alívio aos bem pensantes da Itália. Por trás do assassinato, mal-explicado, existe a suspeita de crime político.
Como testamento Pasolini deixou Saló, 120 dias de Sodoma.
O Cristo Revolucionário De Pasolini
A vida de Cristo filtrada pelo olhar de Pasolini causou estranheza e gerou expectativa por ocasião de seu lançamento em 1964. Afinal, vale lembrar, um ano antes ele havia rodado La Ricota, um dos episódios de Rogopag, onde a fome era sofrimento maior que a cruz.
Agora aparentemente mais manso, Pasolini contou com o apoio da Igreja Católica para rodar a história, dedicada ao Papa João XXIII. Foi o filme mais premiado da carreira de Pasolini. Onze prêmios no total, incluindo o Ocic (Office Catholique Internacional du Cinema) concedido pelo Vaticano. Apesar do aval eclesiástico, a obra não escapou de perseguições políticos: a maior delas quando o ator principal, Enrique Izadoque, foi preso e torturado, devido a sua participação no filme.
Unindo marxismo e religiosidade, Pasolini conseguiu compor um retrato do Jesus histórico transcrito no livro de Mateus. Sem adulterar o texto bíblico, mostrou Jesus como ser humano, semelhante às pessoas que o cercavam, oprimidos pelo império romano. Divino, mas frágil. Um filme revolucionário se comparado às histórias dos filmes sobre Jesus, que apresentavam um Jesus domado e pacificado, inquilino dos grandes estúdios de Hollywood.
O filme também difere dos demais pelas locações, foi filmado inteiramente na Basilicata, no sul da Itália, pelos atores, não havia nenhum profissional no elenco, e pela estética neo-realista. Passada a poeira de 40 anos que circundou o filme, faz-se necessária uma nova avaliação, pondo na balança ideologia e qualidade.
O DVD fornece extras saborosos, reunindo depoimentos de gente como Cezare Zavatinni e Alberto Moravia, apresenta a filmografia completa de Pasolini, além de uma curiosa lista dos "melhores filmes do mundo" segundo o Vaticano.
Entre nós, nas cidades do interior brasileiro, processou-se um curioso fenômeno: as sessões de O Evangelho Segundo São Mateus eram sucessos de bilheteria. A metade do público não era composta pelos jovens barbudos & politizados de praxe, e sim por vovós e netinhas trazendo crucifixos e terços à tiracolo. Eram elas quem, emocionadas, engrossavam as fileiras dos cinemas. Seria o caso de se citar as palavras do próprio Jesus: "Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem".

|
|