22 de Abril de 2003


Índice Redação



Perdão, mas tem um fã no meu pescoço!
Por Silvio Fernando

"O cinema serve para mostrar filmes e não pessoas ao vivo. Francamente, é meio assustador isto aqui" disse em tom de brincadeira, o diretor Roman Polanski após a salva de palmas que precedeu sua chegada ao palco improvisado montado no Cine Sesc. O cinema vem exibindo, desde o dia 19, numa Mostra quase completa, alguns dos filmes mais antigos do diretor.

Entre eles estão Faca na Água (Noz W Wodzie), primeiro longa do diretor, Armadilha do Destino (Cul-de-Sac) e a comédia A Dança dos Vampiros (The Fearless Vampire Killer Or Pardon Me, But Your Teeth Are In My Neck). Ausentes da telona há pelo menos 15 anos.

Polanski teve até agora, dois encontros com o público: o primeiro deles com a imprensa, uma entrevista coletiva marcada para o dia 22, definida por ele como "not a press, only a stress conferency".

Polanski mostrou-se cortês e simpático com a imprensa, tendo o cuidado de evitar certas perguntas: "Desculpe, não tenho problemas em falar disso, mas estamos falando de cinema agora" respondeu quando perguntado por um repórter sobre sua situação de ilegalidade nos Estados Unidos. Polanski foi acusado de drogar e estuprar uma garota de, na época, 13 anos. Deixando garota e processo pra trás, o diretor pegou mala e cuia e foi viver em Paris, onde mora até hoje.

Em compensação, não se fez de rogado em discutir planos e tomadas com seu público do dia 23, composto quase que inteiramente por fãs e estudantes de cinema.

As perguntas iam desde sua opinião sobre "A Paixão de Cristo" ("Se como judeu acho o filme anti-semita? Bem, eu ainda não vi o filme, mas pelo que sei, a mãe de Jesus era judia") até conselhos sobre carreira: "A única coisa que eu posso dizer a vocês é que se algum dia dirigirem um filme não se assustem com as críticas de jornal, evite ler qualquer crítica sobre o seu trabalho. Só leiam as boas. Elas geralmente são escritas por pessoas que você admira e respeita".

Fisgados pelo bom humor de Polanski, os fãs não ligaram para as constantes e cordiais evasivas do diretor: ("Por que os críticos não gostam de Lua de Fel?, Não sei, pergunta pra eles" . Ou "Não posso dizer o que acho de São Paulo ou dos paulistanos porque eu cheguei ontem, mas acho o meu hotel bárbaro").

TODOS INQUILINOS

Depois de 50 minutos (20 a mais do que o tempo originalmente previsto) Polanski despede-se com mais uma gracinha"Eu vou cobrar cinco dólares de cada um pelas dicas". Do trajeto entre palco improvisado e saída da sala de cinema leva-se um minuto apenas. Polanski leva quinze. Está amarrado em meio ao cordão de fãs, dando autógrafos. Pelo seu meio sorriso automático percebe-se que, a esta altura, ele já não enxerga rostos, só papéis.

Só então noto como Polanski é realmente baixo. É difícil localiza-lo em meio a tantos fãs mais altos que ele. Quando consigo me aproximar surge uma loira (mais alta que ele, mais alta que eu) levando pelo braço, o diminuto diretor até o bar do Sesc. Trancado lá, Polanski permanece seguro dos fãs que querem carinhosamente depredá-lo. Um número menor de fãs forma-se, agora, ao redor das paredes de vidro do bar. Trazem livros, cópias de roteiro e biografias para serem autografadas. O segurança informa que só entra quem estiver portando crachá. Mostro minha carteira de jornalista.

Continuo sem entrar

Três pessoas entram no bar, a falta do crachá intensifica comentários políticos por parte dos fãs, ouve-se a idéia de "complô" e "máfia de amigos do Sesc". Dali a dez minutos a mesma situação ocorre com mais quatro ou cinco privilegiados deste comportamento VIP. Uma biografia autografada passa pela porta diminuindo burburinhos.

Depois da partida do diretor entrevisto uma fã. "Nos sentimos todos inquilinos" diz, em tom filosófico numa referência a um dos filmes de Polanski. "Você pelo menos ganhou alguma coisa". De fato, a caminho da saída, Polanski me pisou o pé.