13 de Maio de 2004


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Um Teólogo na Fronteira
Por Silvio Fernando

Entre seis e oito de maio aconteceu na Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), campus localizado em São Bernardo do Campo, o seminário anual sobre o pensamento de Paul Tillich, marcando os dez anos de existência da Sociedade Paul Tillich do Brasil. Fundada pelo Prof. Dr. Etienne Higuet, a sociedade visa difundir o pensamento do teólogo e filósofo alemão, morto em 1965.

Formada em sua maioria por catedráticos em Ciências da Religião, a sociedade conta também com Mestres e Doutores nas áreas de Psicologia, Teologia e Filosofia. Além da revista eletrônica www.metodista.br/cientificas/correlatio que publicará os trabalhos apresentados no seminário.

Reproduzimos agora os principais trechos da entrevista realizada com Jorge Pinheiro, doutorando em Ciências da Religião pela UMESP e pesquisador do CNPq e a comunicação proferida por Jaziel Guerreiro Martins, Mestre em Ciências da Religião e Pastor Batista em Santa Catarina.

A POLÍTICA COMO ALGO ESPIRITUAL

BWN - Gostaria que você comentasse a relação entre Espiritualidade e Política, presente em seu trabalho.

Pinheiro - Nossa visão da Espiritualidade implica em como vemos e exercemos nossa relação com o outro. Sei que pode parecer contrastante associarmos vida espiritual e vida política, mas elas não permanecem tão distantes assim.

Ao falarmos de espiritualidade, num primeiro momento falamos de ascese pessoal, contemplação e do exercício prático do amor. Já a espiritualidade abarca um sentido mais amplo, coletivo: trata-se da transformação da sociedade na direção do reino de Deus, para que os excluídos recebam justiça, vida e salvação histórica.

Desta maneira, a espiritualidade dá sentido à vida cotidiana e torna-se além de mística e política, profética. Infelizmente, grande parte da comunidade evangélica não ultrapassou a espiritualidade "privatizada" em direção a um compromisso social efetivo.

BWN - Existe então uma alienação política por parte dos evangélicos? Quais seriam as razões disto?

O grande número de religiosos cristãos no Brasil não chega a fazer sombra na vida política do país, porque ainda encara a política como algo mundano, esquecendo-se que a verdadeira espiritualidade não se esgota quando você fecha a Bíblia e sai do culto. A espiritualidade se faz presente também na esfera política e social. Um governo pode e deve ser exercido com amor, poder e justiça, atributos caros ao Evangelho.

BWN - Mas a existência de um poder não acaba por excluir o amor?

Pinheiro - Não necessariamente. Estas duas atitudes são interligadas pelo conceito de justiça, cuja forma permite ao poder se realizar. O Deus de amor, também é um Deus de justiça. Por isso em termos teológicos, convém que ambos os conceitos, amor e justiça, andem juntos. É o reconhecimento que os meios empregados não violentem os fins procurados. O amor não pode usar o poder para o alcance de seus fins, mas a justiça tem a obrigação de usar o poder na conquista de seus objetivos.

Não se pode dizer, porém, ao Estado que ame, só podemos desejar que possa. Usá-lo como instrumento de amor transforma o Estado em instrumento sectário, com tendências totalitárias. O elo de ligação e eqüidade normativa para a pólis é a justiça, ao negá-la a política torna-se escrava do Poder e, como dizia o Betinho, perde-se o eixo da ação política.

DEMÔNICO & DEMONÍACO

Em seu trabalho sobre o "Demônico & Demoníaco em Paul Tillich", o Prof. Mestre em Ciências da Religião Jaziel Guerreiro Martins explica que é necessário antes de tudo entender os termos "demônico" e "demoníaco" em Tillich. O primeiro representa os aspectos ambíguos presentes em todas as religiões conhecidas, o segundo receberá sempre o significado do profano, negativo. Para o teólogo a vida "não é essencial, nem existencial. É ambígua" não podendo ser separada apenas por seus aspectos "bons" ou "maus".

"A característica principal do demônico é o estado do ser desintegrado. A auto-elevação demoníaca de uma nação sobre todas as outras em nome de seu Deus ou sistema de valores produz a reação de outras nações em nome de seu Deus. A auto-elevação demoníaca de forças particulares na personalidade centrada em reivindicação de sua superioridade absoluta conduzem a reação de outras forças de uma consciência desintegrada".

Em sua argumentação, Tillich dá como exemplo o relacionamento de uma igreja com outro grupo religioso. Nessa situação o fanatismo religioso surge como resultado de uma insegurança interior, produzindo elementos de demonização. A suspeita e o ódio que aparecem nas relações com as outras religiões são a conseqüência do mesmo temor que produziu a caça às bruxas.

"É um genuíno temor ao demoníaco e portanto não pode ser superado por um ideal de tolerância que esteja baseado em indiferença ou numa minimização abstrata das diferenças. A igreja torna-se então, demoníaca.(...)", explicava o teólogo teuto-americano.

Martins alerta ao fim de seu trabalho para o risco histórico e social contido nesta postura quando assumida pela igreja:

As igrejas que representam o reino de Deus em sua luta contra a demonização estão elas mesmas sujeitas as ambigüidades da religião e expostas a demonização. Como pode então aquilo que é demonizado representar a luta contra o demoníaco? Tillich responde mostrando que as igrejas são profanas e sublimes, demoníacas e divinas, numa unidade paradoxal.

E Jaziel Guerreiro Martins concluiu com uma explicação de Tillich;

"A expressão desse paradoxo é a critica profética das igrejas pelas próprias igrejas. Algo numa igreja reage contra essa distorção da igreja como um todo. Sua luta pode levar aos movimentos de reforma, o que confere o direito de considerarem-se a si próprias como veículos do Reino de Deus".

QUEM FOI PAUL TILLICH?

O valor da obra de Tillich ultrapassa dois continentes: A Europa e os Estados Unidos. Seus escritos influenciaram as Ciências Naturais, a Teologia, a Psicologia, Filosofia, o moderno Aconselhamento Pastoral e também a Pedagogia.

Pensador polêmico, Tillich nem sempre foi uma unanimidade. Capelão luterano na Primeira Guerra Mundial, saiu de lá transformado de monarquista convicto em socialista religioso, voltando um olhar crítico para o mundo (sempre ambíguo) a sua volta.

Com o impacto recebido pelo horror da guerra passou a posicionar-se "na fronteira" de assuntos aparentemente contrários. Unindo marxismo e teologia, religiosidade e existencialismo, o erótico e o sublime... Atacou veementemente o anacronismo religioso dos púlpitos, sem contudo renegar sua substância transcendental. Introduziu na teologia princípios caros a sua pessoa: a ontologia mística e a importância do princípio profético, defendendo assim uma visão sacramental de mundo.