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O senador José Alencar fala ao PT e aos evangélicos

Um dos mais respeitáveis teólogos da atualidade, fundador da Fraternidade Teológica Latino-Americana, Samuel Escobar, disse no final do século passado, que "o mundo de amanhã não precisa de latino-americanos que aspirem viver na comodidade e no luxo (...), mas de latino-americanos que convençam seus parceiros (...) de que se pode viver com simplicidade e alegria, com os meios necessários para realizar a obra, e um senso de satisfação que vem da fidelidade ao chamado de Deus".
No alvorecer do século 21, os evangélicos brasileiros reconhecem que é impossível ao ser humano viver a experiência da graça salvadora de Deus, sem recuperar a visão bíblica de ser humano como ser social, cuja transformação é vivida no contexto de sua própria comunidade.
Partindo dessa constatação, achamos por bem analisar uma entrevista que o senador José Alencar, do Partido Liberal de Minas Gerais, candidato a vice-presidente na chapa de Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores, deu ao Informes, órgão do PT dirigido aos núcleos do partido, da segunda quinzena de junho.
Nela, como bom protestante imbuído dos valores da Reforma, tão bem analisados por Max Weber na Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, o senador defende um governo montado no tripé sentimento nacional, sensibilidade social e probidade administrativa. O empresário mineiro, de 70 anos, com uma bem-sucedida carreira de empresário, chega a ficar indignado quando se fala de risco Brasil. "Como é que podem nos comparar com a Nigéria?".
É interessante ver que a ética protestante está sendo reconhecida como diferencial positivo também pelo mundo não evangélico. Na Veja de domingo (30/06/2002), em reportagem de capa sobre os evangélicos, a revista diz, citando o economista Carlos Lessa, reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que as igrejas evangélicas contribuem para a criação de uma nova ética, que trará reflexos positivos para o país. "Os crentes não transigem quanto às regras e aprendem a cobrá-las de si e dos irmãos".

Concorde com tal afirmação, ainda segundo a revista, o professor Almir de Souza Maia, reitor da Universidade Metodista de Piracicaba diz que "os fundamentos do movimento protestante pregam a moralização do indivíduo e o desenvolvimento de uma ética de responsabilidade social".

Alternância de poder

Assim, é totalmente natural que o senador Alencar defenda a probidade administrativa, que não traduz apenas desejo evangélico, já que, segundo ele, as pesquisas mostram que 70% dos brasileiros, desejam a alternância do poder, a alternância com o Partido dos Trabalhadores e agora com o Partido Liberal.
Mas o que é sentimento nacional? Para o senador evangélico, o Brasil é um dos países mais ricos do mundo em recursos naturais e humanos. "Estamos em 5º lugar em extensão territorial, possuímos um solo riquíssimo, mas também muitas áreas improdutivas. As potencialidades do Brasil são gigantescas para a empresa rural, para agricultura familiar e temos espaço à vontade para que nos voltemos para a produção e valorizemos o trabalho".

Para ele, "os geólogos falam que o Brasil tem 3,5 milhões de quilômetros quadrados de bacia sedimentar onde há petróleo em terra e nós nem começamos a prospectar. Sabemos que a Petrobrás, que é empresa brasileira relativamente nova, desenvolveu tecnologia em águas profundas de fazer inveja aos estudiosos do mundo inteiro. Temos a maior reserva de água doce do planeta, especialmente na região amazônica. Por outro lado, o Brasil não tem cuidado do seu dever. Por exemplo, na área de saneamento, não se tem feito nada. Vejam os rios Tietê, em São Paulo e o Arrudas, em Belo Horizonte, que são esgotos a céu aberto. Falhamos na área de estradas, portos e não temos mais navegação de cabotagem. Então, há muito a ser feito e temos que trabalhar".

Assim, para o senador, o sentimento nacional pode fazer frente a esse nervosismo de mercado, de pressões do FMI que traduzem interesses de especuladores.

Para ele, existem os especuladores que chegam a uma importância tal que possuem as tais agências de cotação. Então, eles dão uma nota para o país. Mas sabem que um país como o Brasil, com todo seu potencial, não pode representar esse risco. Não pode, não tem sentido. Como é que o Brasil pode representar maior risco do que qualquer país da América Latina? Chegamos a ultrapassar a Nigéria em termos de risco? Onde é que nós estamos?

E responde: Eu conheço alguns países da África nos quais a miséria não tem nada a ver com o Brasil. Meu Deus, onde é que nós estamos? Nós estamos absolutamente incompetentes na administração da coisa pública no Brasil. De forma alguma isso pode acontecer. Temos que saber que existe uma coisa chamada competição e nós precisamos motivá-la para que o Brasil seja visto como é. Do contrário, ficaremos à mercê dessas agências que fazem do Brasil isto que está aí, que dizem que o Brasil vale tanto. Estamos pagando taxas de juros que vão matar com a economia porque se obtém um superávit primário de 3,75% do PIB, mas o custo da rolagem da dívida é três vezes esse superávit. Então, para onde vão aqueles dois terços, eles se acoplam à dívida que vai crescendo como bola de neve. Então, temos que mudar isso.

Sensibilidade nacional

Por tudo isso, além da probidade administrativa e do sentimento nacional é preciso sensibilidade nacional. Para o senador José Alencar, candidato a vice-presidente na chapa de Luiz Inácio Lula da Silva, mudar é preciso e possível. Mas alerta: "Não vamos mudar unilateralmente, rompendo contratos, de forma alguma. Vamos mudar isso voltando para o crescimento do país".

"Temos que fazer crescer nossas exportações para aliviar nosso constrangimento cambial porque o nosso déficit em transações corrente é alto. Temos que reduzir esse déficit, acabar com ele. O Brasil já teve superávit na balança comercial de US$ 18 bilhões. Era o terceiro do mundo; o primeiro era o do Japão, o segundo o da Alemanha e o terceiro o do Brasil. Depois, esse governo, há três, quatro, sete anos, começou a construir o déficit na balança comercial alegando que fazer superávit de balança comercial estava errado. São idéias dos grandes economistas e nós sempre falamos contra isso e nunca fomos ouvido. Nós abrimos os nossos portos, os nossos aeroportos e as nossas fronteiras até ao contrabando, o que explica esse armamento pesado e sofisticado que está nas mãos do crime no Rio de Janeiro, São Paulo e outras grandes cidades do país".
E ao contrário do que muita gente acredita, o senador José Alencar considera que o país tem jeito em médio prazo. Mas para isso é necessário, um governo que possua primeiramente sentimento nacional. Isso é importantíssimo. Segundo, sensibilidade em relação às pessoas e regiões menos favorecidas. Terceiro, probidade absoluta no trato da coisa pública. Se fizermos um governo montado nesse tripé, sentimento nacional, sensibilidade social e probidade, teremos já feito alguma coisa.

Veja afirma que na política os evangélicos são um trator. E que a bancada evangélica, com mais de cinqüenta parlamentares na Câmara Federal, é unida e atua muito além das barreiras partidárias nas questões relacionadas aos interesses da comunidade protestante. Quem sabe não chegou o momento de sermos um trator a favor do Brasil?

A função crítica da igreja

Certo estava o teólogo J. B. Metz [Sobre a teologia do mundo, 1968] ao explicar nossa responsabilidade social e política: Segundo Metz, a salvação empurrou Jesus para um conflito mortal com os poderes políticos de seu tempo. Isto porque sua cruz não está limitada à esfera privada da pessoa e do puramente religioso. Ela vai além. Ela está fora, como formula a teologia da Carta aos Hebreus. O véu do templo foi definitivamente rasgado. O escândalo e a promessa desta salvação são públicos.

Assim, na elaboração de uma política evangélica, à igreja cabe a tarefa de proclamar o evangelho da salvação, exercendo função crítica diante da sociedade. A igreja evangélica pode e deve assumir essa tarefa, apesar dos muitos erros que cometeu. Tal tarefa deve ser exercida na defesa da pessoa e na mobilização do poder crítico do amor que está no centro da tradição cristã.
Devemos, no entanto, saber que essa função crítica da igreja frente à sociedade poderá produzir repercussões na própria igreja, num caminho de mão dupla: promoverá uma nova consciência no interior da igreja e criará uma transformação das relações da igreja com a sociedade.

A Deus toda a glória!




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