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Há 150 anos minha família faz política. Foi e é republicana histórica. Tivemos em nossa história, que eu me lembre, dois governadores, um ministro de estado, deputados, vereadores e prefeitos. Republicanos e gente comprometida com os trabalhadores desse país. Ligados à história de Minas Gerais. E eu não fui a ovelha negra: comecei a fazer política ainda secundarista, no início dos anos 60. Assim, parte de minhas memórias é sobre minha vida de opositor ao regime militar. Que o(a) querido(a) irmão(ã) leitor(a), porém, leve em conta uma coisa: embora filho de mãe mineira, católica, e pai judeu, nessa época ainda não tinha aceitado Jesus como Senhor e Salvador de minha vida. Este foi um longo caminho... Aqui vai um capítulo de minhas memórias. E em tudo dou glória a Deus, por seu poder e misericórdia. Pr. Jorge Pinheiro.

Estranhos caminhos...

Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos...

Rebeca tirou o pé do acelerador. O carro deslizou de lado e bateu forte no barranco. Por alguns momentos, nenhum de nós entendeu o que estava acontecendo. Filemon estava com o rosto sangrando, o corpo amolecido pelo impacto. No banco de trás, eu e Yasmin nos recuperamos rápido do susto e saltamos do carro. Juntos, os três agarramos Filemon pelos braços e o puxamos para fora. Estava pálido demais, cor de cera, a não ser pelo vermelho que continuava a lhe escorrer pela cara.

-- Está morto, disse Rebeca.
-- Não, não está, respondeu Yasmin.
E cada uma olhou para a outra, numa disputa de olhares que todo mundo conhecia muito bem. Elas se odiavam e nunca perdiam a oportunidade de demonstrar isso. Absurdo, essas duas vão começar a brigar aqui, quem sabe vão se engalfinhar, se morder, xingar a mãe, sei lá, enquanto o Filemon se esvai em sangue.

-- Ele está com a cabeça machucada. Se for alguma coisa muito grave, a gente só vai saber depois. Não dá para chamar o médico, agora.
As duas olharam para mim como se estivessem diante de um extraterrestre. Pegamos uma estopa velha e suja de óleo, a única que havia na hora, limpamos a cabeça de Filemon e fizemos uma bandagem com uns trapos que estavam jogados no fundo do carro, um Dolphine que era pau pra toda obra.

Encostamos o rapaz no barranco e, então, voltamos ao mundo real. Eram duas e trinta da madrugada. Ali estávamos quatro militantes do Movimento Nacionalista Revolucionário com um carro cheio de armas, tombado junto a um barranco da rua Almirante Alexandrino, em Santa Teresa. Na verdade, eu tinha avisado a Rebeca, cuidado que esses trilhos escorregam. Cuidado com essa curva perto do hospital alemão, cuidado. Mas, quem disse que Rebeca escutava. Ela sempre se considerou uma Mata Hari. Só não usava piteira. Mas será mesmo que Mata Hari usava piteira ou isso era mais uma criação de Hollywood?

-- Estamos perto de casa. Uns cinqüenta metros. O problema é se passa alguém. Recomposta da ira inoportuna, Yasmin ajeitou a blusa e a mini-saia. E para ser verdadeiro, as mini de Yasmin eram micros. Tinha uma dúzia delas. Sacudiu a cabeça, passou a mão pelo cabelo, como se, de repente, estivesse acordando para a vida.

-- Vamos à luta, antes que alguém nos veja.
E, mais uma vez, os três voltamos a trabalhar juntos. Destombamos o carro, abracei Filemon o melhor que pude, agarrando-o como se fosse um bêbado e o arrastei até o prédio. As duas mulheres, cheias de pacotes, tentavam andar rápido na minha frente. Não corriam. As metralhadoras, mesmo desmontadas, formavam volumes pesados. Era só o que faltava, sermos presos agora, depois de uma viagem tão longa.

Eu sabia que este era um trabalho de formiga. Cansativo, suado e longo. A medida era a história. Sorte nossa que a história marchava a nosso favor. Rua Almirante Alexandrino, 1190 apto. 202S. Um apartamento de dois quartos e sala ampla, com rede, o grande charme da casa, uma estante de tijolos, com os cinqüenta livros mais lidos por nós revolucionários. Desde o pequeno Régis Debray até O 18 Brumário de Luís Bonaparte, de Karl Marx. Sem dúvida, uma biblioteca pequena, uns cem livros ao todo, mas que carinho tenho por eles.

Deitei Filemon na rede. Ele gemeu. A testa e a cara dele estavam roxas. É, não é desta vez que ele vai empacotar. Que bom. Se ele morresse agora ia ser um deus nos sacuda.

Yasmin passou em direção à cozinha. Bem à vontade. Ela sempre gostou de andar assim, por isso detesta visita. Os pacotes estavam arrumadinhos ao lado do oratório barroco que eu trouxe de Congonhas do Campo. Metralhadoras e barroco mineiro. Eis aí um bom símbolo para a revolução brasileira. O futuro encontra suas bases no sonho de Aleijadinho. Que loucura, um escultor de mãos podres. Se ao menos fosse poeta, poderia ditar os seus sonhos, ao invés de cinzelá-los em pedra, sabão não há dúvida, mas pedra é pedra.

Rebeca é gente fina. De Recife, mas criada no Rio. Antes de ser aeromoça, estagiou no Caderno B do Jornal do Brasil. Anda empinadinha, olha de cima, fala professoralmente e quer casar com um escritor famoso. Não ia dormir aqui em casa, mas essa hora não vai encontrar táxi, nem bonde.
Ônibus muito menos.

-- Onde eu durmo? No dos hóspedes?
-- Não quer comer alguma coisa antes? Tem salada de batata com maionese na geladeira, cerveja e uma torta de maçã da Colombo. Vem também, Yasmin, levanta dessa cama e vamos fazer um lanche porque o dia foi duro.

-- Torta eu quero. Salada não. É muito pesado a essa hora, disse Rebeca, encaminhando-se para a cozinha.
E Yasmin, toda alegre, veio cantarolando Noel. "Quando o apito, da fábrica de tecidos..." Ela tem o maior orgulho de sua origem proletária. A bisavó era escrava e de tão pobre, quando recebeu alforria, vendeu um dos filhos como grumete para um navio de bandeira chinesa. Sempre que conta essa estória cai na gargalhada e diz que deve ter uma porção de tios na China. O pai era sapateiro. Morreu tuberculoso.

E a mãe... Ah! A mãe! Ninguém em todo o Rio de Janeiro faz uma feijoada como ela. Quando Yasmin canta Noel, tenho a nítida impressão que ele nasceu na Penha. É como se ela estivesse falando de um conhecido, de um desses vizinhos que freqüenta o mesmo bar e divide com a gente um sambinha que acabou de sair do forno. Eu gosto de Yasmin. Tem um gênio danado. É desconfiada, briguenta e sarcástica. É, esta é a palavra exata para defini-la: sarcástica. Despreza solenemente ricos e intelectuais.

Não sei porque está comigo. Somos antípodas. Claro que não sou rico, fiquei apenas com os defeitos de quem foi criado como se fosse. Intelectual? Sou, mas isso só produz grandes brigas com Yasmin. Acho Glauber, o protestante, um gênio. Já troquei umas idéias com ele no Paissandu e gosto mesmo dos filmes dele. Yasmin diz que um governo de trabalhadores não vai gastar um tostão com um cara que faz filmes que ninguém entende. E vai por aí.

Guimarães Rosa, diz Yasmin, a vermelha, é um católico reacionário, e Nélson Rodrigues, machista. Mas gosta do Tenório. E quando ela gosta, ela ri. Na verdade, gargalha. Dá a maior tesão, quando vejo Yasmin rindo. Os olhos dela se fecham, mostra os dentes super brancos. E o corpo todo ri junto. Quem estiver perto fica eletricamente contagiado. É uma alegria carioca, de subúrbio, que rima com samba, cerveja gelada, empadinha da Praça Quinze e gol do Flamengo.

-- Antenor, larga o Filemon aí nessa rede e vem comer. Afinal foi você quem deu a idéia.
Antenor é o meu nome político. Quem me deu foi Tiago, o poeta. É um visionário, mas desses que o país precisa. Sabe combinar política e sonho. É amigo do Fidel, mas também do Negrão de Lima. Às vezes fico pensando de quem ele não é amigo? Conhece todo mundo. Até a queda de Jango freqüentava todas as altas rodas, e dormia em lençóis de linho, com a fina flor da aristocracia, como ele mesmo diz. Agora, clandestino, mas elegante, ele vem aqui para casa, deita na rede da sala, folheia a minha trilogia do camarada Mao Tsétung, em francês, e conta suas estórias. Tem um sotaque forte de homem do Amazonas. É um herói.

-- Rebeca, você sabia que salada de maionese é a especialidade de Yasmin?
-- Diz logo que aprendi faz um ano. Imagina, com minha mãe em casa quem se atrevia a entrar na cozinha. Faz um ano que Antenor está comendo salada de maionese. Sorte que ele gosta.
-- Vocês não acham que seria bom colocar uma compressa quente na testa do Filemon? E dar um chá de camomila com uma aspirina para ele? O companheiro vai despertar com uma dor de cabeça do cão.
-- Boa idéia, Antenor. Mas enquanto eu fervo a água para o chá, me conta como é que você e Yasmin se conheceram. Se é que pode?
-- Que é isso, Rebeca? Mais do que você conhece a gente! Não há como quebrar a segurança. Você sabe o Sol, o jornal do Reinaldo Jardim e da Joana, lá no Jornal dos Sports? Bem, tudo começou ali. Yasmin estava no primeiro ano de jornalismo da Federal e eu na PUC. Soube na Manchete que iam lançar um jornal novo, e quando vi que só tinha cobra, resolvi fazer os testes. Coisa fina, melhor jornal não existia. Se tivesse só o Carpeaux já valeria a pena. Ele corrigia meus textos, com gagueira e tudo, dava dicas e comentava as coisas que escrevíamos. Um monstro. Tinha o Cony, que ensinou a moçada a cobrir polícia e vai por aí. E muita gente bonita. Aliás, como diz o Ajuricaba, que anda meio caído por você, era só dar uma volta pela arte, para se ficar apaixonado. E como arte lembra cartum, não dá para esquecer o Henfil. Pena que durou pouco.

-- Ajuricaba caído por mim? Se está, nunca falou.
-- Mas é lógico, ele é super tímido. Aliás, o Antenor morre de ciúmes dele, quando ele vem aqui em casa. É um tímido charmoso.
-- Tímido, charmoso, sonhador, poeta. Só falta ir para a Sorbonne pela Air France.
-- Deixa de indiretas. A Rebeca já disse que ele nunca a cantou, fica você aí falando em Air France e outras bobagens.
-- Espera ai, não quero comprar briga. Só acho que ele sonha com a Rebeca porque ela é aeromoça. Aliás, faz parte dos sonhos eróticos masculinos. Normalista, freira, aeromoça...
-- Deixa de machismo, Antenor, e conta logo como foi que você conheceu Yasmin.
-- É melhor deixar para outra hora. A água está fervendo e depois do chá do Filemon a gente tem que dormir, cortou sabiamente a companheira Yasmin.

Filemon tomou o chá, com muito vagar e gemidos, fez cara feia na hora da aspirina e recostou a cabeça no travesseiro que Rebeca ajeitou com cuidado na rede.

Rapaz corajoso esse. Brizolista, gaúcho. O meu amigo guerrilheiro mais chegado. Fez Caparaó. Ele, Bayard, Amadeu e mais onze companheiros ficaram na serra durante 150 dias. Montaram acampamentos, esconderam uma tonelada de armamentos e víveres, mas foram cercados em março de 67 por seis mil homens da PM de Minas Gerais, do Exército e da FAB. Do grupo, sete eram militares punidos pela ditadura por serem leais ao governo de Jango, entre eles Filemon. Rebeldes, jovens. Cercados na altura de Manhuaçu. A guerrilha não estava implantada. A população das cidadezinhas da região nem sabiam o que estava acontecendo. No dia 4 de abril de 1967, o Estado de S. Paulo noticiou: "Oito guerrilheiros que estavam acampados na serra de Caparaó (...) foram presos pelo 11o Batalhão de Infantaria da Polícia Militar de Minas Gerais. O grupo era formado de sete militares cassados e um civil".

Prisão de segurança não segura quem só tem um objetivo, fugir. Fica na prisão quem se acomoda, quem aceita cumprir pena. Quem dorme e acorda preparando a fuga, foge. E aqui está o meu amigo, comandante Filemon, em minha casa, aparelho do Movimento Nacionalista Revolucionário, tonto de dor de cabeça, por causa da derrapada de uma aeromoça empinadinha, que não ouve a voz da experiência. As duas já foram dormir. Vou me aninhar no regaço quente de Yasmin. Poetar não é meu forte. Vou mesmo agarrar aquela moça e tirar o maior ronco. Amanhã cedo tenho que entrar em contato com o médico da organização, antes de ir para a Manchete.

Jornalista e socialista

Esse pedaço da cidade tem um charme especial. Gosto de mato. Esses sabiás, as mangueiras aí no fundo do prédio, lembram a Santa Teresa dos anos 50. Tinha macumba num terreno baldio perto do nosso edifício. Todo sábado de manhã ia lá recolher as moedinhas que colocavam para o santo, era a minha mina particular, nunca contei para ninguém, tinha guerra de barro molhado, depois da chuva, num pedaço de morro desabado, com direito a cabeça quebrada e muito choro, tinha enterro de gato vivo, estilingue, muita queimada e, sublime, pudim de chocolate de merenda na escola pública.

Tinha meu pai, grande, gordo e bravo, me ensinando judô, torcendo pelo América, revisando no Jornal do Brasil, apoiando os socialistas, fazendo campanha contra a palavra judiar, negando-se a ser candidato a vereador. Tinha minha mãe, pequenininha, delicada, que comprava as roupas do menino no Príncipe, lia romances franceses, e tinham os dois fazendo guerra de água na banheira, nas tardes dos finais de semana.

Amynthas, cento e dez quilos de carinho. Li e reli, até decorar, uma carta que escreveu de Vitória para minha mãe em 1951.

Querida Maria,
Que a Paz do Senhor esteja contigo e nossos filhos, é o que de coração te desejo. São 5,15 da manhã do dia de finados de 1951, portanto, ha 31 anos que havia deixado Vitória e ha 25 que não via minha velha mãe, o que hontem se deu. Não imaginas, cheguei de surpresa, minha irmã reconheceu-me, mas mamãe não me conheceu.
A velha é, hoje, um espectro daquilo que foi ha muito. Está quasi sem andar, mesmo dentro de casa para faze-lo precisa de um bastão...
Acredito mesmo que não poderá ir muito longe, entretanto, só Deus, o Boníssimo, poderá sabe-lo. Hoje vive relembrando seus dias felizes, muito nervosa, e disse minha irmã que depois que a outra faleceu, ela cahiu como que da noite para o dia...

Joana em flor

Vou marcar com o companheiro Marcos, para ele dar um pulinho aqui na hora do almoço. Aí ele dá uma olhada no Filemon. O carro não tem problema, o Artur da oficina passa com o guincho daqui a pouco. Praia do Russel. Nunca consigo chegar antes das dez. Ainda bem que o Giudicelli sempre chega depois. Também ele não dorme. Estou com uma matéria ótima, os doze homens de ouro. São os chefões da polícia carioca. Gente da Scuderie Le Cocq, que garante de pés juntos que não têm nada a ver com o esquadrão da morte. Garantem de pés juntos, só não dizem de quem são os pés. Trocadilho infame, mas vou usar no meu texto. Se o Ney tirar, tirou. Vou tentar umas fotos de morro, tudo muito violento. Afinal, o gostoso da reportagem policial é o arrepio. Aliás, sempre dou uma dica para quem vai escrever sua primeira matéria policial: lê X-9 antes.

Um dia ainda me enrosco numa dessas esculturas do Krajberg, aqui na entrada. A minha vingança é que a Manchetinha, a cadela do Adolfo Bloch, já molhou o pé dessa árvore. Aliás, esta é a sina da escultura... É uma arte exposta. Prefiro escrever, porque o único jeito é queimar. E se não queimar tudo, vira fragmentos. Aí é o momento maior da glória, tese de doutorado em literatura, fragmentos da obra do escritor rebelde...

-- Ei, Luís, o fotógrafo e o motorista estão te esperando na frente do prédio.
Puxa que dia. Levaram Filemon para outra casa, onde pode ser mais bem cuidado. E também as armas. Mas à tarde, José Paulo me deu uma notícia terrível. Yasmin estava muito ferida. Tinha ido fazer uma reportagem, e o carro do jornal capotou na Avenida Brasil. Saí feito um louco. Na avenida, cruzei com o carro, que ainda estava com as rodas para cima e os vidros quebrados.
Puxa, como é que ele conseguiu isso? Será que vinha a 180 por hora? Entrei no hospital furioso, com um ódio da morte, das paredes brancas e do cheiro de éter. Detesto hospital.
Agora, porém, está dormindo. Sedada. Aqui em casa, na nossa cama. Eles tinham medo que ela tivesse sofrido traumatismo craniano. Para minha felicidade, alarme falso.
Dois acidentes com carros em menos de 24 horas. A bruxa está solta. Coitada da Yasmin, tem uma resistência muito baixa à dor. Se doer, um pouco que seja, ela logo desmaia. Ah! Essa casa fica tão triste quando ela não está cantando. Se estivesse boa, já estaria aqui na rede me provocando.

-- Chega pra lá, cara. Puxa, você fica com a rede toda para você.
Então, me empurra, ameaça me derrubar, depois se enrosca e dorme. Sempre levanto para ela poder dormir direito. Leio, dou voltas pela casa, fico olhando as luzes da cidade. Depois, a pego no colo e levo para a cama. Cubro só com a colcha fininha. Mas hoje não tem nada disso. Ontem, a essa hora, apesar do acidente e dos ferimentos do Filemon, a casa estava agitada. Agora, me sinto solitário. Acho que gosto dela, mesmo.
Conheci Yasmin no jornal O Sol. Na época não dei muita bola para ela. Estava apaixonado por uma pianista negra, que tocava com Maria Betânia. Eu ficava ouvindo, ouvindo, ouvindo ela tocar, embasbacado. Mas Yasmin fazia uma marcação cerrada. Eu morava no Solar da Fossa, hotel ocupado por artistas jovens, ali em Botafogo, quase na boca do túnel. Por lá andavam Caetano Velloso, Dedé Gadelha, o pessoal do MPB 4, e um amigo fora dos padrões, Wagner Tadeu Horta. Ele tinha chegado de Caratinga, com muita genialidade e uma inocência de anjo barroco.

Quando desceu na rodoviária Novo Rio, levou um susto de ver tanta gente e confusão. Chegou para um sujeito, perguntou se ele podia cuidar da mala dele, enquanto ia tentar apanhar um táxi.
Conseguiu o táxi, mas a mala e o sujeito desapareceram. Seu destino era a casa de um amigo e guru, o Ziraldo, que nessa época morava em Copacabana. Quando o táxi estava no meio do caminho, no Aterro do Flamengo, Wagner apavorado com o taxímetro que não parava de saltar, tirou todo o dinheiro do bolso e disse para o motorista:

-- Moço, eu só tenho isso, será que vai dar?
-- Não se preocupe, meu filho, eu te levo até lá.
Wagner agradeceu emocionado, à boa vontade do taxista. E assim se foi, além da mala, com roupas, goiabada cascão e queijo minas, o dinheiro de todo um mês.

Essas histórias aconteciam às dúzias com ele. Estava totalmente despreparado para enfrentar a voracidade do Rio de Janeiro. Mas como desenhava! Era um gênio. Ele e seus jacarés que se devoravam. Lembro-me, certa vez, que chegou ao Solar da Fossa chorando. Tinha levado um cartum para o Correio da Manhã, onde colaborava, e o Francis disse que o trabalho não prestava, amassou e jogou fora. Wagner ficou doente.

Tinha uma namorada linda. Também de Caratinga. Não sabia bem das atividades políticas dela, mas sei que foi presa. Levaram o Wagner junto. Torturaram os dois. Humilharam os dois, um diante do outro. Quando Wagner foi solto, era outro. Havia uma tristeza em seu olhar... Era como se tivessem arrancado seu coração, sua alegria, aquela capacidade inocente de sonhar. Foi internado no Dr. Eiras, uma clínica psiquiátrica em Botafogo. Conseguiu sair uma vez. Veio direto para a Manchete. Almoçamos juntos, ele fez piadas macabras sobre a vida de interno, falou de um bispo homossexual que tinha terríveis alucinações. Contou de gente que morria por excesso de medicação. Estava destroçado. Não entendia o porque de tanta violência e eu sabia que ele não conseguia esquecer o que tinham feito com a namorada na frente dele. Voltou para o hospital. Tempos depois morreu.

Eu e Yasmin ainda temos um cartão belíssimo que desenhou para nós. Uma história em quadrinhos sobre nós dois. Mandamos imprimir e distribuímos para os mais chegados. Tiago caiu na gargalhada quando viu, Ajuricaba ficou encantado. Mas nossas mães foram taxativas:

-- Que coisa mais escandalosa!
A solidão é má conselheira, não dá para ficar pensado no Wagner, agora. Era só o que me falta, entrar em depressão.

Adoro quando Yasmin põe aquele vestido de seda, que Rebeca trouxe de Paris para ela. Fica colado no corpo. Ela parece uma boneca. Lembra-me quando a gente saía para namorar, passeando pelo Flamengo, olhando vitrines e trocando idéias sobre como montar o apartamento.

É, vou dormir. Amanhã a mãe dela chega aqui cedo. Vai ficar com ela, porque já tenho uma entrevista marcada com o Mariel para as dez da manhã. A matéria sobre os dez homens de ouro vai ficar boa. Só não sei se eles vão gostar.

Meio-dia. Recebi um telefone da Joana. Ela quer falar comigo agora, na hora do almoço. Coisa corrida assim, já sei que não é boa notícia. Marcamos um papo na Praça XV, vamos comer peixe no restaurante Albamar, olhar esse dia lindo, azul, azul, o marzão besta dominando a baía, e conversar sobre a organização, apelido político para Movimento Nacionalista Revolucionário.
Gosto do Rio dos dias claros. É quando me sinto plenamente filho dessa terra. Sol na cabeça e calor me irritam, mas a claridade do dia me deixa animado. Acordo cantando, tomo banho cantando e saio gingando pelas ruas. Sou todo carioca, só falta a camisa listrada, porque o resto tenho e faço.

Como a Joana marcou um ponto -- outra expressão cifrada, significa reunião, encontro, geralmente na rua --, vou de ônibus, para não dar bandeira. Táxi é um perigo. Quase todos os taxistas são informantes da polícia. E carro, que não tenho, é bandeira maior ainda. Adoro esse vento, esse cheiro de mar. Não sei porque, mas sempre me sinto mais livre, quando ando assim, sem lenço e sem documento, como soe dizer Caetano, o Velloso. Hoje estou todo pra cima, apesar da barra que segurei nesses dois últimos dias.

Joana jornalista. Joana pernambucana. Joana em flor. Ela tem o maior carinho por Yasmin. E vice-versa. Só que Joana tem uns dez anos a mais. De experiência, de sonhos, de sorrisos. Ela também é uma mulher sorridente. Translúcida. Se fosse um pouquinho mais extrovertida, seria uma típica carioca, apesar do leve sotaque recifense. Todos gostam dela, homens e mulheres. Mas, já definiu quem será seu marido. Só não sei se ele sabe disso. Mas quer saiba ou não, Joana é bastante sagaz para agarrá-lo no momento certo. É uma líder suave, democrata, socialista.

Sentamos. Ela foi direta e precisa.
-- O poeta e eu fomos informados de que corremos o risco de sofrer baixas nos próximos meses.
Muita gente tem sido presa em São Paulo. Através dessas prisões, os serviços de segurança podem chegar até nós muito rapidamente. Principalmente daqueles que não estão clandestinos, como eu, você, Yasmin e outros. Tomamos uma decisão, depois de consultar nossas lideranças fora do país.
Você e Yasmin devem sair do Brasil nas próximas semanas. Estamos sugerindo que vão para o Chile, assim não perdem o contato com o Brasil.

-- E se entrássemos para a clandestinidade?
-- Estamos muito debilitados. Não temos estrutura para absorver novos companheiros clandestinos. Isso exige casa, documentação, dinheiro. É um risco muito grande, eu diria uma irresponsabilidade. É o momento de recuarmos, acumular forças.

-- O poeta vai deixar o Brasil esta semana. Talvez vocês ainda tenham uma reunião para se despedir.

A proposta da direção do Movimento Nacionalista Revoulcionário me deixou atordoado. Senti que não era dono da minha vida, que decisões que não sabia muito bem de onde vinham estavam definindo o meu futuro. Senti uma enorme frustração. Ia deixar meu trabalho, meus amigos, minha cidade, porque algumas pessoas estavam com medo de morrer. Olhei para Joana com tristeza e perguntei:

-- E você? Vai ou fica?
-- Fico. Não tenho condições de ir. Fico e tento segurar a barra, mas gostaria que você e Yasmin saíssem o mais rápido possível. Não descarto que eu possa ser presa a qualquer momento.
Naqueles dias aprendi que as desgraças não acontecem de uma em uma. Desabam como temporal. Yasmin foi informada da situação e começamos, rapidamente, a preparar nossa saída do país. Tínhamos que negociar nos empregos, explicar a amigos e parentes que íamos para o Chile. Por mais que tentássemos fazer a situação parecer natural, jornalistas deixando suas atividades rotineiras chamam a atenção.

Na noite anterior a nosso embarque, fomos informados de que haveria uma operação pente fino em Santa Teresa. Pegamos nossos livros, aqueles que poderiam ser considerados subversivos e colocamos na mala do carro de um amigo, estacionado na rua. Depois, sem que ninguém nos visse, pulamos um muro, ao lado do prédio, com documentos e malas, e fomos dormir na casa desse amigo.
Nessa mesma noite, nossa casa foi invadida. Na manhã seguinte, partimos de ônibus para a Argentina. Destino: Santiago do Chile.

... nem os vossos caminhos, os meus caminhos diz o Senhor. Isaías 55.8.




Opinião do Leitor