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Não leiloamos nossa fé

Muita gente deve estar pensando que nós evangélicos vamos decidir o segundo turno. É verdade que o voto evangélico foi muito importante na classificação extraordinária de Anthony Garotinho no primeiro turno (17,87% contra os 23,20% do Serra) e na vitória de Rosinha no Rio de Janeiro. Além disso, de conjunto, elegemos 60 deputados federais, 12 a mais do que em 1998.

Ao contrário do que muitos acreditam, o voto dos evangélicos não é um voto alienado. Tem autonomia ideológica e política, e não vai para onde bispos e pastores sinalizarem. Por isso, apesar dos acordos, os milhões de votos dados a Garotinho não têm um destino certo, seguindo a trilha negociada pelas lideranças das igrejas. Ou seja, não há uma migração organizada, dirigida, quer para Lula, quer para Serra.

Em manifesto divulgado na segunda-feira, dia 14/10, a Associação Evangélica Brasileira, Aevb, secção São Paulo, afirmou que somente uma denominação evangélica, a Igreja Universal do Reino de Deus, possui um projeto político definido, para conquista de cargos políticos, projeto esse que nas nestas últimas eleições passou a ser imitado por outras denominações, que disputam espaço no poder, ocupado de maneira indevida por outros grupos religiosos nos últimos 500 anos.

A declaração, que cita a Igreja Universal, não fala da decisão da Assembléia de Deus de apoiar o candidato José Serra, do PSDB. O apoio da Assembléia de Deus foi capitaneado pelo bispo Manoel Ferreira, candidato derrotado do PPB ao Senado pelo Rio de Janeiro. Manoel Ferreira é presidente vitalício das Assembléias de Deus no Brasil. No primeiro turno, a orientação da Assembléia de Deus era de que seus membros apoiassem Anthony Garotinho. Agora, a Assembléia de Deus preferiu apoiar a candidatura tucana, alegando maior compatibilidade com suas propostas.

Um de meus leitores, Darcio Augusto, pastor formado pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo, descarta a possibilidade de se transformar o voto evangélico em voto de cabresto. Levando-se em conta que certos grupos evangélicos são influenciados pela alta cúpula de suas denominações e que outros não sofrerão influência direta dos seus líderes religiosos, mas serão conduzidos a analisarem todos os fatores que envolvem os candidatos e daí escolherem o que melhor lhes convier, tudo indica que o eleitorado evangélico permanecerá dividido, afirma o teólogo.
Geralmente, quem acha que o voto evangélico é um voto alienado, acha que esta eleição é apenas um ensaio geral, a ponta do iceberg evangélico, que pretende em 2006 eleger um presidente da República. Ou seja, acreditam que em 2006 os evangélicos vão votar em bloco, liderados por seus bispos e pastores.

A antropóloga Regina Novaes, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisadora do Instituto Superior de Estudos da Religião (Iser), assim como outros cientistas da religião, não vê os evangélicos como massa homogênea.

É preciso dar aos evangélicos a possibilidade de votar como cidadãos e não como evangélicos, afirma a antropóloga. Isso fica claro quando vemos que tanto Benedita da Silva, como Garotinho são evangélicos. Ela está no Partido dos Trabalhadores e ele no Partido Socialista Brasileiro. Alias, há evangélicos em todos os partidos. Somos um povo com muitas tribos: históricos, pentecostais, neopentecostais. Evangélicos de esquerda, presentes no PCO, no PSTU e no PT; socialdemocratas, presentes no PSBD; de centro e liberais, presentes no PMDB e no PL; e conservadores, presentes no PFL e no PPB.

E também não podemos esquecer que somos 16% da população e que os católicos continuam hegemônicos, com 73,8% da população do país.

Pregadores nos grotões.

Nós evangélicos levamos a mensagem do Cristo ressuscitado aos grotões deste país. Estamos nas favelas, nos interiores da Amazônia, em meio aos índios, sertanejos e brasileiros esquecidos pelo Estado e pelos governos. Segundo a antropóloga Regina Novaes, para as populações onde não há relações estáveis com o mundo do trabalho, os evangélicos são os interlocutores de um mundo que responde a desordem social com a ordem da religião. É verdade, estamos envolvidos com ação social e a igreja evangélica brasileira cada vez mais levanta as bandeiras do evangelho social proposto por Jesus, ou seja, responder às necessidades integrais do próximo.

Mas estamos preocupados, também, no que se refere às necessidades éticas de nosso povo, e aí defendemos os direitos inalienáveis do ser humano à vida, à formação de uma família estruturada, ativa e inserida na comunidade.

É por isso, com raras exceções, porque elas existem, que somos contra a legalização da droga e pregamos a necessidade de uma vida saudável, sem dependências químicas, sejam elas o álcool ou o tabagismo. E por defender a vida, somos contra o aborto, mas a favor de todo amparo legal e institucional à mulher, não importando sua condição social. Daí que nos perguntamos: qual partido traduz a concepção de sociedade justa e digna visualizada por nós evangélicos? Não podemos dizer que há apenas um. Por isso, com ou sem acordos de cúpula, os evangélicos, usando de sua liberdade de expressão, votarão neste ou naquele candidato à presidência da República, conforme traduzam em seus discursos e programas nossas esperanças por um Brasil mais digno e justo.

E, apesar da diversidade de nosso voto, temos interesses comuns. Quando a bancada evangélica nasceu na Constituinte de 1988, defendíamos unidos a liberdade religiosa e o direito de nossas igrejas e obras sociais serem reconhecidas pelo Estado, como já acontecia com a Igreja Católica. Mas agora é o momento da diferença. Por isso, cada um de nós votará conforme sua consciência, sabendo que o faz diante do Senhor.

Que isso fique claro: não vamos decidir o segundo turno. E não votaremos em bloco. Por isso, repercutirá de norte a sul do Brasil o manifesto da Aevb, A Dança das Alianças, quando afirma:

Não autorizamos ninguém a falar por nós. Não demos procuração a apóstolos, bispos, pastores, presidentes e líderes de convenções, associações, conselhos, etc. Escolhemos em quem votar segundo nossas convicções e consciência. Não queremos nada em troca. Apenas que aqueles em que escolhemos desempenhem suas funções com responsabilidade, justiça, honestidade, solidariedade. Que legislem ou governem em favor de todos os cidadãos desta nação sofrida e injusta. Oramos sim, que Deus ilumine os que receberam um mandato, seja qual for a fé ou não-fé que professem, exercendo-o em favor do povo e, jamais em causa própria, ou a serviço de lobistas e interesses corporativos.

Isso tinha que ser dito. Afinal, essas alianças de cúpula nos apresentam à nação como vendilhões do templo. O que não traduz o que somos e a pregação do Cristo crucificado que fazemos. Não vamos leiloar a nossa fé.




Opinião do Leitor