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Os olhos azuis de Jussara

Publicamos mais dois momentos das memórias do Pr. Jorge Pinheiro. No início dos anos 60, quando adolescente, em Copacabana, e, em 1969, já opositor ao regime militar.


"Já que (...) não posso infundir a fé no coração de ninguém, não posso, nem devo obrigar ou coagir ninguém a isso, pois Deus opera isso sozinho e vem habitar anteriormente no coração. Por isso, se deve deixar a palavra livre e não querer juntar nossa obra a ela: nós certamente temos o ius verbi, mas não a executionem. Cabe-nos pregar a palavra, mas as conseqüências pertencem unicamente ao agrado de Deus".
Lutero, reformador do século 16.

Rua Santa Clara. Posto 4

O sol está de derreter asfalto. Dá para fritar ovos na avenida Atlântica. Tio Walter joga peteca com os amigos. E Lolita, minha jovem tia, de maiô cavado nas costas, lembra a personagem de Nabukov, ao menos na minha cabeça de adolescente.

-- Luís, passa Dagelle nas minhas costas.

Obediente, gosto dessa mistura do cheiro do bronzeador com a maresia, cumpro à risca, devagar, a ordem recebida.

Meus primos Marcus e Júlio, à beira d'água, fazem seus castelos de areia, que a arrebentação, feroz realidade, desfaz um a um. Como formigas insistem, gritam e dançam, quando uma onda maior alisa a areia.

Maria, minha mãe, fez para mim um calção que é uma bandeira. Pegou uma blusa estampada de rosas grandes e como costura muito bem fez um calção lindo, o mais colorido de toda a praia. Mas caiu bem.

E minha turma, uma gang atribulada, quase todos do Externato Duque de Caxias, elogiou. Minha namorada, Jussara, me agarrou pelo braço e saímos... Eu com ela, ela com o rebelde dela.

Jussara tem 14 anos, faz balé e mora na rua Serzedelo Correia. Eu tenho 16 e fui aluno de latim do professor Pompílio da Hora no Atheneu São Luís, no Catete. O velho Pompílio me adorava, eu era o melhor aluno de latim que ele tinha. Mas, certa vez, me expulsou da sala. E me fez sair pela janela, aos gritos:

-- Você não é digno de sair pela porta.

Pulei. E quando já estava fora, me fez voltar à sala, com um ensinamento estranho:

-- Não viva de tal maneira, que possam dizer para você: "Puxa, nunca imaginei que você fizesse isso".

Pompílio, primeiro negro brasileiro a ser nomeado embaixador na África, dando lições de transgressão a seu pupilo.

Jussara me agarra pela cintura, rindo e apontando para o mar. A gang brinca de boto furando as ondas...

Morena de olhos azuis, ela não é bonita, é linda. Minha vida toda se resume nisso: futebol de areia todas as tardes depois das quatro, toda televisão que dá para ver, muito livro e Jussara para me levar ao cinema. E saímos na maior pinta. Eu de rancheira e camisa de ban-lon branca e ela de vestido de fustão rodado. Depois do cinema, comemos waffles ali na avenida Nossa Senhora de Copacabana.

Os anos 60 começam a desabrochar. Lá em casa, Walter e Lolita deram adeus ao JK, um pouco preocupados com os ares que sopram. Tio Walter prefere o Lott, mas o povo vai de Jânio. O jeitão do magrela não me agrada. É o homem da caspa de talco, do sanduíche de mortadela e da Vila Maria, em São Paulo.

Toda minha família sempre foi juscelinista, até o tio Walter que é austríaco e veio para cá no meio da guerra. Magro, um metro e noventa, cabelos lisos e negros, foi atleta do Flamengo. Remava. Foi capataz de fazenda. Levou um tiro de um peão, na barriga. Casou-se com minha tia Iracema, que era estilista e dona de loja no centro. Depois da morte de Iracema veio Lolita, filha de mãe espanhola e pai italiano. Bailarina. É vinte anos mais nova que o Walter. E doze anos mais velha do que eu. É amiga, confidente, tia e, às vezes, mãe. Esta última função é a que menos gosto.

Alguns anos depois da morte de meu pai, Walter e Lolita me adotaram. Os dois filhos, Marcus e Júlio, vieram mais tarde.

Hoje, tio Walter tem loja de moda, um Jaguar 53, usa tanga na praia, um escândalo que Lolita aprova, e joga religiosamente peteca com os amigos domingo de manhã aqui no Posto 4, em Copacabana.

-- No que você está pensando? Está tão calado - pergunta Jussara.

-- O azul dos teus olhos é mais bonito que o azulão besta do mar.

-- Bobo!

-- É verdade. Prefiro esse azul aqui àquele lá.

-- Bobo duas vezes. Aquele lá é maior. Olha, nem fim tem...
-- É, mais o teu eu posso levar comigo.

-- Só se eu deixar...

-- E você deixa?

-- Depende...

-- De que?

-- Ué, para onde?...

-- Quero o azul dos teus olhos como farol, que baila, na ilha, no meio do mar...

-- Puxa, então eu deixo.

Discutindo política no Lamas

Parece que foi ontem. Janeiro de 1969 estava quase terminando e ainda estávamos sob o choque do AI-5. Recebi um telefonema, na própria redação da Manchete, informando que teria uma reunião com Ricardo, jornalista do JB que fazia Direito na Cândido Mendes. Ele era a nossa ponte com um pessoal que atuava dentro da embaixada dos Estados Unidos. E lá fui eu almoçar no restaurante Lamas, ali no Largo do Machado. Aliás, o bom desses encontros é que a gente acabava comendo bem.

Entramos silentes. Sentamos numa mesa do fundo. E seguindo um velho ritual dos freqüentadores do restaurante Lamas, pedimos filé com fritas e chope. Por um momento meus pensamentos voaram e fiquei lembrando quando vinha aqui com meus pais, ainda menino. Gostava de ficar olhando para aqueles espelhos e ver minha imagem se multiplicar infinitamente.

-- Acho que a situação vai feder. Já informamos ao poeta e à Joana. O pessoal em Cuba está atento a possíveis novidades.

A infância ficou longe. Voltei ao presente, mas continuei calado. Conhecia Ricardo e sabia que podia contar com uma boa história de suspense. Ele nunca entrava direto no assunto. Dava voltas, montava um nariz de cera, e só então ia soltando as novidades. Em pílulas.

-- John Tuthill mandou para Washington um relatório baixando o cacete no AI-5. Li trechos. Parece que os americanos continuam achando o Golbery o máximo, mas consideram o Costa e Silva meio fraco.

Manolo passou sério, me cumprimentou, e fez sua média:

-- O seu é ao ponto?
-- Como sempre...
Ricardo fingiu que não viu nem ouviu.

-- Golbery conta com o fracionamento da esquerda. Já o pessoal da linha dura, como os generais Muricy, Aragão, Castilho, Frota e Ramiro querem partir pras cabeças. Os americanos dizem que o temperamentalismo deles é um perigo, que foram eles que pressionaram o Costa e Silva a baixar o AI-5. Acham que esse pessoal pode fazer mais bobagens e levar a situação a ficar insustentável.
-- Você acha que os americanos vão tirar o apoio que dão ao Costa e Silva?

-- Acho difícil dizer isso agora. Mas, parece que a assistência econômica dos Estados Unidos foi suspensa logo depois do AI-5. Soube que o governo americano congelou o programa de empréstimos bilaterais para o desenvolvimento, adiou a venda de caças A-4 Douglas para a FAB e o fornecimento de equipamentos bélicos.

-- Se essa informação não foi plantada, a crise está instaurada.

-- Mas o relatório é cauteloso. Diz que a linha dura está num túnel e acabará saindo do outro lado, se não ficar bloqueada lá dentro. E nisso há um consenso: as passeatas estudantis, greves, manifestações, ação guerrilheira e pressões internacionais podem bloquear os militares dentro do túnel.
-- É, com mobilização e luta armada, a polarização vai aumentar. Os militares vão cerrar fileiras ao lado do Muricy e do seu pessoal, mas a sociedade não vai embarcar nessa.

Não era necessário falar mais. Tinha chegado o momento de responder à altura. Quando Costa e Silva tomou posse muitos acreditaram que ia levar a frente uma política reformista. Mas se esses planos existiram, foram para a caixa do chapéu. O governo não tem nenhuma orientação clara e, aliado a gente incompetente, criou novos problemas. Que ninguém me ouça, mas o Golbery tem razão.

O movimento estudantil protesta porque o governo é incapaz de realizar uma reforma digna na Educação. Tarso Dutra é um sorvete na testa, mas ficou no cargo. O caso do Márcio Moreira Alves é outra burrada. Se Gama e Silva não fosse tão grosso e a linha dura tivesse deixado à própria Câmara resolver o problema, a situação não teria chegado aonde chegou. Mas do jeito que a coisa foi feita, os deputados não podiam votar a suspensão da imunidade do Márcio. Azar o deles. Enfim, o vento sopra a nosso favor.

Almoçamos com vagar. A conversa ficou descontraída e o clima conspiratório foi diluído em chopes gelados de colarinho alto. Mas nomes como Frank Carlucci, o odiado conselheiro político da embaixada americana, John Kubisch, o diretor da divisão Brasil no Departamento de Estado, e outros agentes da central de inteligência pontuaram nossa conversa.

Ricardo era muito inteligente, tinha o inglês como segundo idioma e se vestia com elegância. Conhecia pessoalmente muitos dos inimigos. "Ossos do ofício", dizia meio a contragosto. A organização confiava nele por um simples motivo -- os companheiros cubanos também confiavam nele. Várias vezes, ele e Carlucci almoçaram juntos. Era presença obrigatória nas festas da embaixada.

Mas conversa de jornalista sempre termina em jornal.

Ricardo contou da raiva que o noticiário sobre o AI-5, de 14 de dezembro de 68, no Jornal do Brasil, produziu no meio militar.

"Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos. Máx.: 38o em Brasília. Mín.: 3o nas Laranjeiras". Alberto Dines, espertamente, colocara no alto da primeira página do Jornal do Brasil de 14 de dezembro de 68, o clima criado pelo AI-5. No outro extremo, chamada para uma matéria interna: Ontem foi o Dia dos Cegos. O resto era noticiário sobre o AI-5, mas tinha ainda uma foto ridícula de Costa e Silva.

-- Eles babaram de ódio, quando perceberam o que o Jornal do Brasil fez. A partir daí a censura vai checar tudo, até horóscopo.

-- É, mas gosto da postura do Estadão.

-- É, parece que o Júlio Mesquita Filho peitou os caras. Mas, não sei bem como foi...

-- O jornal foi apreendido antes do AI-5.

-- Antes do AI-5?

-- É, Costa e Silva tinha ido a Belo Horizonte para uma formatura e para inaugurar um computador, mas o pessoal da redação sabia que uma tempestade estava se formando... Estavam de olhos em Brasília, onde o clima era tenso. Os deputados votavam o pedido de licença para que o Márcio Moreira Alves fosse processado, sob a acusação de ter ofendido as Forças Armadas...

-- Bem, até aí nada, porque todo mundo estava acompanhando a votação.

-- O Mesquita ao saber que a Câmara não daria a licença para que o Marcito fosse processado, redigiu um editorial para a página três: Instituições em Frangalhos. Falava do impasse e dos atos institucionais. O cenário era sombrio.

-- Acertou em cheio...

-- Previu o tiro no peito da democracia.

-- É, mas não acaba aí...

E eu continuei a contar a história para o Ricardo.

O texto desceu para as oficinas. Na noite daquela quinta-feira ligaram da Polícia Federal para perguntar ao secretário de redação, Oliveiros Ferreira, quais seriam as manchetes da primeira página no dia seguinte. Ele falou, o censor não disse nada e a impressão do jornal continuou.

Na madrugada da sexta-feira, que por incrível era 13, o chefe da Polícia Federal em São Paulo, general da reserva Sílvio Corrêa Andrade, apareceu nas oficinas do Estado e pediu para ver o jornal. Leu o editorial e não gostou. Mandou parar a impressão e apreender os exemplares prontos. Mais de 100 mil jornais já estavam a caminho do interior. Foi o maior pepino...

Isso aconteceu 20 horas antes de Costa e Silva assinar o AI-5. O Mesquita, então, avisou ao chefe da Polícia Federal e ao Abreu Sodré que não ia aceitar autocensura. Era problema do regime. Então, à noite, os homens chegaram..."

-- É isso aí, quem lamber botas hoje no futuro vai cair com eles.

-- Um dia esse regime vai despencar. A censura é a violência visível da ditadura. O resto a gente mal vê e não sabe. Mas a censura não. Por isso, o Correio da Manhã, o Jornal do Brasil e o Estadão estão fazendo história...




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