::: * ** Home || Comentários || Opinião do Leitor || E-mail || Colunas Anteriores ** * :::


Natal rico, Natal pobre

Quando eu e Naira, minha esposa, não éramos evangélicos, nossos natais eram famosos entre nossos amigos. Eu era jornalista e ela executiva na área financeira de um banco. Tínhamos centenas de amigos, ateus, militantes de esquerda, gente que morava sozinha em São Paulo, etc.

Por isso, todos os anos fazíamos do Natal a mais bonita festa de nossa casa. E lá pela tarde do dia 24 começavam a chegar os amigos e a festa rolava até o dia seguinte.

Os preparativos davam um trabalho gigantesco.

O pinheiro tinha um metro e oitenta, a gente fazia questão do tamanho, e era comprado ali nas barracas de flores e plantas ornamentais da avenida Dr. Arnaldo, ao lado do cemitério. Dava trabalho escolher o pinheiro: tinha que estar todo verde, não ter galhos tortos e, logicamente, um bom preço.

Em casa vinha o trabalho de montar a árvore. Além dos enfeites normais, pendurávamos bombons, que as crianças surrupiavam nos dias seguintes, tendo o cuidado de deixar os papéis dos bombons perfeitos, pensando que não íamos notar a falta. Era uma farra.

Uma coisa que ninguém esquece era o cheiro do pinheiro. Aliás, esse é um segredo, que faz parte da tradição de Natal que herdei do Walter, meu tio austríaco. A árvore tem que estar verde, viva, para exalar o odor do pinheiro.

Naira tinha ainda que preparar as comidas. Peru recheado, figos recheados com chocolate e castanhas, panetone, bolo de nozes, comprar frutas frescas, cerejas, ameixas, uvas, mangas, pêssegos e figos, frutas secas, damascos, tâmaras, ameixas, e castanhas, nozes, amêndoas, avelãs, lá no mercado municipal.

As bebidas eram os refrigerantes, os vinhos, em especial beaujolais nouveau, e os champanhes, moet chandon, freixenet, cordoníu e os chandons nacionais.

E havia presentes para todo mundo, para todas as pessoas que aparecessem em casa. Era uma festa bonita... marcou a vida de muitos de nossos amigos.

Mas um dia a ficha caiu depois de duas pequenas perguntas, a primeira foi:

Em que Deus pensava quando criou o universo?

É isso mesmo: no que Deus estava pensando antes de criar o Universo? Em que Deus estaria pensando no silêncio da eternidade? A pergunta pode parecer estranha e metafísica para você, mas para mim não era.

E fui respondendo com a ajuda da Bíblia. Descobri que o apóstolo João diz na introdução de seu Evangelho, que Deus era a Palavra. E que desta Palavra primeira e original vieram todas as coisas. Ora, então, a Palavra nos leva a tudo o que Ele disse ou fez, a tudo que fez ou permitiu acontecer.

Assim, permanecendo na introdução do Evangelho de João vi que o pensar de Deus, partindo de si próprio, ilumina a criação e a humanidade.

E de novo voltei ao apóstolo João, que disse: "Por meio da Palavra, Deus fez todas as coisas, e nada do que existe foi feito sem ela. A Palavra era a fonte da vida e essa vida trouxe a luz para todas as pessoas". (João 1.3-4)

Eureka! Somos frutos do amor deste pensamento de Deus, desta Palavra primeira e original. Lá na eternidade, Deus estava pensando em mim, na Naira, nas minhas filhas, em meus amigos. Fomos pensados por Deus, ainda antes da eternidade. Isso é chocante, revolucionário. Mas faltava ainda responder à segunda pergunta:

Por que Deus nasceu?

Ora, para mim esta pergunta era fundamental, afinal, se Deus não tem começo nem fim, por que Ele quis nascer? Não poderia ter simplesmente aparecido entre homens e mulheres? Não seria mais apropriado para um Ser divino uma aparição espetacular?

Além do mais, ninguém nasce adulto, conhecendo todas as coisas, sabendo de tudo, na plenitude da capacidade física, emocional e mental. Todos nascemos bebês. E precisamos ser cuidados.

E aí eu comecei a pensar: Deus pequeno, Deus sendo cuidado! De que um recém-nascido precisa? Calor, carinho, leite materno...

Deus bebê, Deus menino, Deus adolescente. Deus que precisava de pessoas, da mãe, dos irmãos, dos amigos. Deus que brincava, discutia, discordava, participava.

Acho que comecei a entender porque Deus quis nascer. Arrisquei uma resposta: para ser pequeno, para depender, para ser igual a mim, à Naira, às minhas filhas, aos meus amigos.

Um Deus igual a mim, parado na rua, ouvindo músicas de Natal numa esquina. Um Deus que enfrentava problemas, que conheceu os desafios de ser mortal e viver num mundo cruel.

E voltei ao apóstolo João: "A Palavra se tornou um ser humano e morou entre nós, cheia de amor e verdade". João 1.14.

E voltamos à pergunta: Natal pobre, Natal rico

Bem, a partir daí o Natal de casa mudou. E para falar dessa fase nova, pedi à minha filha Paloma, adolescente, para escrever o final de minha coluna. E ela traduziu muito bem o novo espírito natalino aqui em casa.

Diz Paloma:

Quando ouvimos falar em Natal, logo pensamos em presentes, árvore de Natal e Papai Noel. Nessa época do ano, ninguém se esquece de arrumar enfeites, montar a árvore, comprar presentes e reunir a família. Mas poucas pessoas se lembram do verdadeiro sentido do Natal, do motivo desta comemoração.

Há mais ou menos 2002 anos atrás, Jesus deixou seu trono, deixou a glória de lado para que assim pudesse concretizar sua promessa de amor. Isto é, passar por tudo o que nós passamos, sentir tudo o que nós sentimos e, por fim, dar a sua própria vida.

Ele foi humilhado, torturado e morto, tudo para que nós tivéssemos vida, e vida em abundância! E tudo que Ele quer em troca é que nós reconheçamos isso.

O Natal deveria ser uma comemoração de gratidão a Deus por tudo o que fez por nós, mas muitas vezes acabamos trocando esse Rei da Glória por um velhinho gorducho de barba branca que existe apenas na nossa imaginação.

Ainda bem que o amor desse Deus não acaba, e sabemos que da mesma forma que ele nos amou quando cumpriu sua promessa, Ele ainda nos ama, apesar da nossa ingratidão.

Portanto, não passe mais um Natal longe dEle. Ele já deixou claro que quer estar perto de você, mas isso só acontece se você permitir!

E aqui termina o comentário da Paloma.

E eu pergunto a você: Qual é o Natal pobre? Qual é o Natal rico? Qual é o seu Natal?




Opinião do Leitor