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O Feminino e as Eleições
Até onde eleições e feminino se cruzam? Que relação pode existir entre eleições, feminino e fé cristã? Bem, vamos começar essa discussão por algumas constatações feitas por um colega nosso na Espanha.
O jornalista Juan Arias, em artigo publicado no El País do dia 9 de julho, diz que as eleições presidenciais no Brasil, cujo primeiro turno terá lugar em 6 de outubro e o segundo em 27 do mesmo mês, estarão nas mãos das mulheres e dos jovens.
Isto porque, jovens e mulheres capitalizam a maioria dos votos. Assim, pela primeira vez em 70 anos as mulheres com direito a voto são 2,3 milhões a mais que os homens (51% contra 49%). Além disso, teremos 9 milhões de eleitores a mais que nas últimas presidenciais, em 1998, graças ao aumento de eleitores de 16 a 17 anos.
Segundo dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral, citados por El País, o total de eleitores nestas eleições é de 115,2 milhões, que representam 67,76% da população. Nas eleições anteriores tinham direito a voto 109 milhões. Calcula-se que o aumento de voto dos jovens pode chegar a 1,5 milhão.
Outro dado importante é que nas últimas eleições, 44% eram analfabetos ou tinham cursado apenas o primeiro grau. Desta vez esse número baixou para 40%. No entanto, segundo dados oficiais, somente 10% dos 115 milhões de eleitores possuem títulos do ensino superior.
Com esses dados na mão, não é de estranhar que os candidatos à presidência da República estejam fazendo malabarismos para conquistar o voto das mulheres e dos jovens. O candidato do governo, José Serra, escolheu como vice-presidente uma jovem loura, Rita Camata, quando sabemos que o país é mulato e mestiço. Para o jornal espanhol, a escolha foi esta, porque no Brasil as louras chamam a atenção. E Ciro Gomes, o candidato que se apresenta como opositor ao governo de Fernando Henrique Cardoso, não se separa em suas aparições públicas de sua segunda esposa, a atriz Patrícia Pillar.
O jornal El País fala de Ciro e suas Patrícias, pois sua primeira esposa, que também se chama Patrícia, vem se apresentando com Patrícia Pillar nos comícios. À presença dessas duas mulheres, o jornal espanhol atribui o fato de Ciro ter dado um salto para 18% dos votos, igualando Serra, enquanto Lula continua liderando as pesquisas, com 38%.
A quem pode ajudar a surpresa da ascensão de Ciro Gomes, do Partido Popular Socialista? Segundo o Partido dos Trabalhadores, a Lula, porque agora a batalha poderia é entre Ciro e Serra, mas no segundo turno os seguidores de Ciro, que são antigoverno, poderiam se decidir por Lula.
Mulher e feminino
Vemos as mulheres, até agora, aparecerem nas pesquisas como objeto. Objeto do desejo dos candidatos que vêem nelas apenas números e índices, que podem se transformar em votos.
É importante lembrar, que numa leitura teológica feminino traduz algo muito mais profundo. E como explica a economista e psicóloga clínica Isabelle Ludovico da Silva , em seu trabalho Espiritualidade e o Feminino [Folha dominical, Ano pastoral de 1998/1999, 1073], o resgate do feminino diz respeito tanto à mulher quanto ao homem.
O ser humano enquanto ser sexualmente neutro não existe, afirma da Silva. É um conceito que existe apenas em teoria.
Nossa herança cultural, diz ela, tende a considerar o homem como o ser humano e a mulher como ser derivado e subordinado. Assim, a construção do masculino e do feminino é produto cultural, fruto da elaboração psicossocial das diferenças biológicas. No universo de potencialidades do ser humano, seja ele homem ou mulher, algumas vão ser estimuladas, enquanto outras serão relegadas ao inconsciente. O homem é um ser cultural e não natural.
"A fixação de qualidades caracteristicamente femininas ou masculinas é uma clara conseqüência da divisão de papéis convencionada pela sociedade. Com toda certeza, ela não decorre necessária e naturalmente da constituição corporal, pois existem sociedades em que as mulheres desenvolvem, segundo nossos critérios, características 'masculinas', e o homem, qualidades 'femininas'... É impossível deduzir diretamente das funções corporais masculinas e femininas qualidades de caráter ou formas comportamentais 'naturais' e permanentes" [E. S. Gerstenberg e W. Schrage, Mulher e Homem, São Leopoldo, Sinodal, 1981, p.9 in Isabelle Ludovico da Silva, Espiritualidade e o Feminino, texto citado]. No entanto, a definição do que é ser mulher é quase sempre respondida na alteridade com o homem.
Intuição e emoção
Estas eleições estão mostrando uma realidade que muitas vezes passa desapercebida, que os "conceitos como espírito, intuição e emoção terão que ser incluídos na visão ocidental do mundo se a civilização moderna quiser superar a profunda crise em que se encontra, onde se misturam inflação, desemprego, contaminação de alimentos, desastres ecológicos e violência social crescente, múltiplas facetas de uma crise única: uma crise de percepção", conforme afirmação de cientistas em reunião patrocinada pelo CNPq e pelo Banco Mundial, em 1987.
Em outras palavras, a emancipação da mulher leva à emancipação do homem, que perde a escrava mas reencontra a companheira na cumplicidade e na estima mútua. Esta mulher, que rompe o casulo e as estatísticas do Tribunal Superior Eleitoral aponta e que o marketing eleitoral quer garfar, caminha não somente para a parceria com o homem, mas procura a restauração de valores femininos como intuição, perspicácia e imaginação.
E é assim que essa brasileira, descoberta pelas pesquisas, entende o caminho da individuação, válido para ambos. Pois, como afirma Isabelle Ludovico da Silva, supõe a busca de um desenvolvimento harmonioso dos aspectos da personalidade: pensamento e sentimento, sensação e intuição.
Quando a mulher deixa para trás a tutela do homem e a tirania da heroína, diz a economista e psicóloga, percebe que sua obrigação como ser humano é ser humana: é usar a criatividade para trilhar novos caminhos, escapando à compulsão à repetição e aos papéis estereotipados, conforme explica da Silva.
Essa mulher leva o machão a ser transformado em homem real. Homens e mulheres podem experimentar juntos o exercício da liberdade na dialética, antes renegada, do aprender e ensinar, da mudança e tradição, da individuação e intimidade, do público e privado, da emoção e razão, do solitário e solidário, do individual e social.
E não podemos esquecer que as virtudes cristãs da humildade, obediência e serviço são prestigiadas mais nas mulheres do que nos homens!
Ocupar os espaços da cidadania
Quando falamos de mulheres, devemos nos reportar às mulheres cristãs. O Novo Testamento traz mensagens de libertação para as mulheres. Mas foi usado muitas vezes para reforçar padrões culturais. Afirma a unidade ontológica entre homem e mulher em Gálatas 3.28, mas muitas vezes, nós, teólogos homens [o certo seria dizer machões], nos valemos de um conselho específico do apóstolo Paulo à igreja de Corinto (I Carta aos Coríntios 14.34) para silenciar as mulheres.
No entanto, se na época de Cristo a participação das mulheres podia ser motivo de escândalo, hoje em dia é a sua omissão que o mundo considera anacrônica. E isso fica claro nas eleições que teremos dentre de alguns meses. Por isso, as mulheres cristãs devem ocupar seus espaços nesses processos de cidadania e transformação social.
Uma das características mais sublimes do ser humano é a disponibilidade. Maria, segundo teólogos, traduziu em sua vida essa graça. Esteve presente nas três etapas da vida de Jesus, que pontuam a revelação e a realização da aliança na anunciação, no casamento em Caná e na crucificação.
A anunciação é a primeira concretização da boa notícia. É o poder divino manifesto na fraqueza humana. Esta boa notícia é transmitida de mulher para mulher, percebida através da criança que estremece no ventre e compartilhada num cântico profético. Maria e Isabel encontram uma na outra a concretização da aliança. Esta comunicação empática, para G. Honoiré-Lainé [La femme et le Mystère de l'Alliance. Paris, Editions du Cerf, 1985, p.28-29 in Isabelle Ludovico da Silva, texto citado], é própria do feminino.
Os exemplos são muitos: como o de Maria de Betânia derramando bálsamo sobre a cabeça de Jesus, anunciando de forma profética a sua morte. É a percepção intuitiva do mistério da revelação. Não é um ato racional e por isto foi censurado pelos discípulos. É movido por paixão e compaixão. E Jesus exalta esxa atitude. Maria de Betânia demonstrou o seu amor quando escolheu ficar aos pés de Jesus (Lucas 10.38-42).
A intervenção de Maria, mãe de Jesus, em Caná, junto aos garçons e empregados, traduz na frase 'fazei tudo o que ele vos disser" um dos momentos mais lindos da aliança. Esse casamento prefigura as bodas místicas de Cristo com a Igreja. A água será transformada em vinho e o vinho será memorial do sangue derramado no Calvário, prelúdio de um casamento eterno, conforme Mateus 26.29.
A aliança, simbolizada por uma relação de marido e mulher, traduz afetividade. O cristianismo não é a aceitação de dogmas, mas uma entrega apaixonada, como a noiva se entrega na noite de núpcias.
Para Isabelle Ludovico da Silva, o que importa é o vínculo pessoal e afetivo com Deus em Cristo. "Estamos diante de mais uma característica do feminino: a pessoalidade, este anseio por intimidade que nossa sociedade descartou, privilegiando o aspecto funcional dos relacionamentos, mas que ela precisa desesperadamente resgatar para tornar nosso mundo mais humano e mais acolhedor. O feminino tem por função acompanhar o homem num caminho de interioridade, na descoberta de seu espaço interior, onde ele pode encontrar-se com Deus já que somos templo do Espírito Santo".
Sabemos que a qualidade da cultura brasileira está na capacidade de síntese da multiplicidade de elementos que se juntam para dar-lhe corpo e substância. Uma cultura que emana com especificidades próprias, mas que falseia diante da natureza que o cerca e do processo dinâmico no qual está inserido.
Homens, mulheres e jovens somos desafiados a reconstruir a multiplicidade formadora da alma brasileira, que traduz potencialidade cultural, mas que pode significar a descoberta de uma cultura mal compreendida, machista e excludente.
A desconfiança diante do opressor desanuvia-se diante da construção da realidade. E a consciência da identidade constrói-se na releitura dos eventos passados e presentes que marcaram a composição da história e da cultura.
Assim, a construção do ser brasileiro possui um ponto de partida. É esse achar-se que explica o que o Brasil é. É revelação no sentido de desvelamento dos erros de leitura que fazíamos de nós mesmos. E nesse achar-se, onde o papel da mulher e, em especial, o da mulher cristã é fundamental. Por isso, concordamos com o colega Juan Arias do El País, quando afirma que a "realidade a batalha presidencial acaba de começar e ainda podem aparecer novas surpresas".
Pedimos a Deus, como oração, que o discernimento e a sensibilidade, ditas femininas, nos contagiem a todos, traduzindo paixão e compaixão por um Brasil que busca como destino ser justo e solidário. |

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