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Intervenção Divina
O relato do batismo de Jesus no evangelho de Mateus consta de duas partes: a narrativa do encontro de Jesus com João, o batista, (Mt 3.13-15) e a intervenção divina (Mt 3.16-17), que chamamos teofania.
A intervenção divina dá o sentido profundo do acontecimento. Tem o caráter de chamada, vocação. No entanto, mais que vocação profética, é vocação de sabedoria. Tem também caráter apocalíptico, pois assinala o lado definitivo do chamado. Assim, o silêncio divino é quebrado na abertura do céu, com uma palavra definitiva, que produz uma criação nova, como acontece em Gênesis um.
E aqui quero fazer, a partir de Mateus, uma leitura do filme Intervenção Divina, do diretor palestino Elia Suleiman, em cartaz em Londres1, que tem o objetivo de mostrar a vida nos territórios ocupados por Israel.
Suleiman afirma que seu filme não pretende ser uma lição de história sobre o Oriente Médio, mas um vislumbre do impacto humano da ocupação. Ou seja, está falando de vidas que se esfacelam diante de um cotidiano que não se renova.
E ele não quis fazer uma reportagem, mas "o que temos é uma ambientação do que é viver sob a ocupação".
Intervenção Divina, ou Yadon Ilaheyya, foi exibido no Brasil na 26ª Mostra BR de Cinema, a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo2, em outubro do ano passado, mas não tem data para estréia no circuito.
Ora, segundo os relatos de vocação sapiencial, a intervenção divina no batismo de Jesus cria o sujeito para comunicar aos outros aptidão e conhecimento para realizar o desígnio divino.
Trata-se de uma nova criação, que se realiza em Jesus, graças ao qual os seres humanos podem adquirir as características do novo homem. A forma desta novidade está nas palavras derramadas do céu: é o meu filho (Salmo 2.7), um servo (Isaías 42,1) "filho querido, que me dá muita alegria".
Os críticos têm comparado Intervenção Divina aos trabalhos de mestres do cinema mudo como Buster Keaton. Elia Suleiman explica que sua comédia de humor negro, com longos silêncios e poucos diálogos, tenta dar uma idéia do cotidiano na área entre Jerusalém e Ramallah.
Segundo o diretor até nos lugares mais perigosos do mundo as pessoas acabam se acostumando a eventos extraordinários.
Assim, em ritmo lento, Suleiman mostra acontecimentos, desde a realidade aparentemente banal dos ataques com coquetel Molotov e buscas em postos de fiscalização do Exército israelense, até seqüências que parecem sonhos.
O diretor insiste que seu filme, cujo subtítulo é Uma Crônica de Amor e Dor, oferece uma visão alternativa à questão do confronto entre palestinos e israelenses.
A intervenção divina no relato de Mateus introduz um novo conceito de messianismo, que parte dos textos do servo sofredor de Isaías. Assim, o Messias partilha da fragilidade da condição humana e se coloca não sobre, mas com o ser humano, e por isso é Deus conosco (Mt 1.23).
Esta compreensão dos cânticos do servo sofredor (Isaías 42.1-4; 49.1-8; 50.4-7 e 52.13-53.12) faz com que o Messias transcenda os limites de Israel e alcance dimensões universais. E apresenta uma nova abordagem da justiça, deixando de lado a violência. "Não gritará, não clamará, não fará discursos nas ruas. Não esmagará um galho que está quebrado, nem pagará a luz que já está fraca". (Isaías 42,2-3).
E o filme de Elia Suleiman choca àqueles que estão acostumados a receber informações sobre o conflito apenas pela televisão e por reportagens sensacionalistas.
"O que as pessoas enxergam é uma história muito reduzida com os estereótipos do opressor e oprimido. Este filme não fala nada sobre a Palestina, as pessoas não saem sabendo mais geografia ou a situação sociopolítica", afirmou Suleiman.
O filme foi aclamado no Festival de Cinema de Cannes, na França, onde ganhou o prêmio da crítica internacional. Nos Estados Unidos, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood não aceitou o filme como candidato a melhor produção de língua estrangeira. A Academia não reconhece a Palestina como país.
Ora, o relato de Mateus põe em destaque a divergência entre a concepção messiânica evangélica e todas outras formas de messianismo. A vocação do Messias implica na aceitação da vontade divina, inclusive em seus aspectos degradantes de sofrimento e morte, inerentes à condição humana.
Dessa forma, Jesus transcende o âmbito ideológico. Sua unção pelo Espírito e seu poder se concretiza na atuação em favor dos oprimidos pelo diabo. E em Jesus se manifesta a presença divina, como aponta o discurso de Pedro em Atos 10.34-48. Só dessa maneira, através dele, pode-se iniciar a entrada na terra prometida.
O batismo de Jesus nos coloca frente a uma nova metodologia3 para o cumprimento das promessas de Deus. Não podem ser compreendidas como ligadas à vontade de poder de uma dinastia, mas a serviço dos demais na entrega incondicional à realização da vontade divina.
Esta entrega incondicional se dá por meio da assunção de um espírito solidário que partilha a dura condição de todos os que sofrem as conseqüências produzidas pelo espírito diabólico que oprime os seres humanos. Dessa forma, se apresenta como única forma de uma convivência fraterna para toda a humanidade.
Eis a mensagem da intervenção divina. E Elia Suleiman soube captar, quer por semelhanças, quer por disparidades, o sublime recado do Evangelho diante da condição humana.
Fontes e citações
1. Filme palestino mostra impacto humano de ocupação, BBC Brasil.com
2. Intervenção divina, 26a. Mostra BR de Cinema,
www.mostra.org/exib_filme
3. O batismo do Senhor, Serviço Bíblico Latino-americano,
www.igreja-presbiteriana.org
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