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Religião é política?

"Felizes as pessoas que trabalham pela paz,
pois Deus as tratará como seus filhos."
Mateus 5. 9


O apoio que teólogos e intelectuais evangélicos norte-americanos têm dado a George W. Bush estarreceu o mundo evangélico brasileiro. E diante disso somos obrigados a nos perguntar: religião e política são a mesma coisa?

O jornalista Roberto Pompeu de Toledo escreveu para a revista Veja (edição 1793, 12/03/ 2003) ensaio onde diz que "o que há de mais assustador em George W. Bush é que ele pensa que Deus está do seu lado".

E com bom senso explica que se eu acho que Deus está do meu lado em tudo que faço, eu posso tudo. "Mesmo que todos discordem de mim, nada abala a convicção de que sou o único justo". E analisa os conceitos carisma/carismático, em sua concepção teológica, que segundo o Dicionário Houaiss significam "dom extraordinário e divino concedido a um crente ou grupo de crentes".

Assim alerta para o fato de que se Bush acha que Deus está dando aval a sua política, segue-se que ele se atribui papel de intérprete de Deus, de executivo-chefe da vontade divina.

O que é um profeta?

A expressão "executivo-chefe da vontade divina" pode ser entendida por muitos como sinônimo de profeta. Mas o profetismo bíblico é diferente de qualquer expressão totalitária: traduz a inquietude e o descontentamento da população em relação a acontecimentos sociais e religiosos concretos. Os profetas hebreus não entram em choque físico, militar, como em outros lugares, com as barreiras intransponíveis levantadas pelos governos. Ao invés disso, utilizam a palavra, o discurso crítico, como forma de trazer à superfície novas soluções e de influenciar aqueles que exercem o poder.

Há uma semelhança metodológica entre o profetismo bíblico e o conceito de intelectual, desenvolvido nos trabalhos de Gramsci (1). Para esse pensador italiano, o intelectual representa organicamente uma determinada comunidade, tem função superestrutural e, apesar de sua organicidade, precisa exercer autonomia em relação às pressões que sofre do poder. É dessa postura que nasce sua força crítica e sua compreensão de que diante da realidade há alternativas diferentes daquelas expressas por governos e estados.

Quando ao profeta bíblico, sem negar sua característica enquanto homem de Deus, expressão humana e verbal da vontade divina, é importante analisar também o fato de que possuía uma concepção unitária do fato e que constantemente procurava a síntese entre política e ética.

Os profetas "eram ao mesmo tempo revolucionários voltados para o passado e conservadores impulsionados pela paixão do porvir". Nada fazem sem invocar a tradição, no entanto, sua mensagem são os novos tempos. Todos parecem ter algo em comum: uma atitude realista. Abominam a eloqüência abstrata. "Ao contrário dos falsos profetas, interessam-se pelo concreto e procuram não viver envoltos em véu de ilusões. A pregação do futuro não constitui o essencial de suas prédicas; é antes, o fruto e o resultado final de conhecimento aprofundado no mundo adjacente, da atualidade e do passado" (2).

Os intelectuais evangélicos

Mas será que Bush é o único responsável pela insensatez norte-americana? Segundo artigo de Nicholas Kristof, publicado no jornal New York Times, 46% por cento dos americanos se dizem evangélicos ou cristãos convertidos, segundo pesquisa Gallup citada por ele. Tal dado, de acordo com Kristof, configura uma importante mudança na sociedade americana: "Os evangélicos moveram-se das margens para o centro, e isso é particularmente evidente nesta administração".

Ou seja, Bush não está sozinho: é apoiado por intelectuais evangélicos e milhares de crentes. O pastor brasileiro Ricardo Gondim, em artigo amplamente divulgado nas últimas semanas no meio evangélico, nos conta de sua profunda decepção em relação a estes intelectuais:

"Ontem assisti o Larry King Live na CNN. Demorei a conciliar o sono depois do que vi e ouvi. Revirando-me em minha cama, procurei uma palavra para expressar o que sentia. Revolta? Tristeza? Decepção? O melhor vocábulo que explicava minha insônia: ASCO; uma náusea existencial. Explico."

"Larry King conduziu um debate com alguns líderes cristãos americanos sobre a iminente invasão americana no Iraque. Falaram contra a guerra um bispo metodista e um padre católico. Estes participaram pouco e mal conseguiram colocar seus pontos de vista. Os evangélicos, Max Lucado, John McArthur e Bob Jones dominaram a maior parte do tempo. E foram eles que me provocaram tamanha ojeriza!"

"Revoltei-me em ver que o nacionalismo dos evangélicos americanos é muito mais forte que sua lealdade ao espírito do Evangelho. Eles não tiveram escrúpulos de citar a Bíblia para defenderem a política imperialista e sórdida da direita republicana. Agiram com a mesma cegueira que os religiosos contemporâneos de Jesus que não conseguiam perceber o amor de Deus em Jesus Cristo, por serem mais judeus que humanos. Sob o pretexto de defenderem o seu território, os falcões militares, que aconselham George W. Bush, acharam no ataque de 11 de setembro o pretexto que precisavam para dominar o volátil Oriente Médio, de onde jorra o melhor e mais abundante petróleo do mundo. Os americanos estão conscientes que são a única superpotência do planeta e querem levar essa realidade às vias de fato." (3)

O pastor Gondim tem razão. É desesperante ver a intelectualidade evangélica cooptada pelo establishment norte-americano, perdendo sua força crítica e sua capacidade de elaborar e apresentar alternativas diferentes daquelas colocados pelo status quo. Quando os cristãos optam por ser poder temporal, abandonam de fato sua vontade crítica, sua missão.

Atualmente, na sociedade secular norte-americana, a cooptação de um número crescente de intelectuais evangélicos tem como pano de fundo o expansionismo da potência hegemônica. Há uma forte tendência, subjetiva, para a cooptação.

Diante da crise da intelectualidade evangélica norte-americana, somos desafiados a ocupar espaços. Devemos favorecer a expressão livre de homens de Deus conscientes de seu papel histórico, que sob a luz do Evangelho, façam a crítica cristã das políticas reducionistas e antivida. Tal postura deve responder à necessidade e urgência de construção de uma intelectualidade evangélica comprometida com a profundidade e transparência do Sermão do Monte.

Bibliografia

1. "Se a relação entre intelectuais e povo-nação, entre dirigentes e dirigidos -- entre governantes e governados --, é dada por uma adesão orgânica, na qual o sentimento paixão torna-se compreensão e, portanto, saber (não mecanicamente, mas de forma viva), é somente então que a relação é de representação e que se produz o intercâmbio de elementos individuais entre governados e governantes, entre dirigidos e dirigentes, isto é: que se realiza a vida conjunta que, só ela, é a vida social, cria-se um bloco histórico". Antonio Gramsci, Il Materialismo Storico e la Filosofia di Benedetto Croce, Turim, Einaudi, 1966, p. 115.

2. León Epsztein, A Justiça Social no Antigo Oriente Médio e o Povo da Bíblia, São Paulo, Edições Paulinas, 1990, p. 115.

3. Ricardo Gondim Rodrigues, Minha Profunda Decepção, in Gente Gospel: www.ricardogondim.com.br





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