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Relendo Antônio Ermírio com a ajuda de Karl Barth

Num ano eleitoral, é o caso de perguntar: existe um papel destinado à Igreja em sua relação com a comunidade civil? Ou, em outras palavras, como podemos favorecer a justiça social e vencer o clima de desconfiança e incredulidade que reina hoje na política brasileira?

O empresário Antônio Ermírio de Moraes escreveu um artigo para a coluna Opinião da Folha de S. Paulo, de domingo, 14 de julho, intitulado Dá para Entender? Partindo dos questionamentos levantados pelo artigo e por ter sido escrito por um empresário conhecido por seu pensamento político liberal, resolvi reler o texto com a ajuda de um dos maiores teólogos do século 20, Karl Barth.

Nessa leitura, partimos da obra de Barth, Comunidade Civil e Comunidade Cristã, editada em espanhol por Ediciones Tauro, Montevidéu, em 1973. Em seu trabalho, Karl Barth discute as relações entre a Igreja e o Estado. Não enquanto problema jurídico de relações institucionais, mas encontro dialético entre comunidades que se sobrepõem e que têm um mesmo centro de autoridade. No texto percebemos como pano de fundo as reflexões do Santo Agostinho de As Duas Cidades. Só que aqui, Barth apresenta seu pensamento social numa exposição teológica brilhante e faz um chamado à "presença da comunidade cristã no exercício de sua co-responsabilidade política". Nesse momento de incertezas, o texto de Barth é altamente inspirador. Por isso, utilizaremos como roteiro crítico o capítulo XIV do Comunidade Civil e Comunidade Cristã.

Para Antônio Ermírio de Moraes, os cenários internacional e nacional vêm sofrendo de um mesmo mal: uma perigosa falta de credibilidade. Assim, nos Estados Unidos, onde a economia está ancorada nas Bolsas de Valores, o mercado financeiro ficou estarrecido com as conseqüências das mentiras plantadas em certos balanços. Só em 2002, afirma o empresário, os investidores perderam US$ 2,4 trilhões, ou seja, 25% do PIB americano.

Trata-se, explica Antônio Ermírio, de um empobrecimento colossal, gerador de problemas futuros. Tal situação, ainda segundo o empresário, pode ser um prenúncio do clima de 1929, quando tudo era rosa para o presidente Herbert Hoover e negro para o mercado.

O Estado, uma parábola do Reino

Mas o que tem isso a ver com a Igreja cristã? E é aqui que entra Karl Barth. Segundo o teólogo alemão, toda orientação da ação política cristã, de uma ação que se compõe de discernimento, juízo e eleição de uma vontade e de um compromisso, deve estar relacionada com o duplo caráter do Estado, que possui ao mesmo tempo a possibilidade de oferecer e a necessidade de receber a imagem analógica do Reino de Deus, que a Igreja anuncia.

Na verdade, o Estado não é uma réplica da Igreja, nem uma antecipação do Reino de Deus, mas em sua relação com a Igreja tem realidade própria e em sua relação com Deus representa um fenômeno que traduz as características do mundo temporal.

Por isso, para Barth, não se pode pensar em identificar o Estado com a Igreja ou com o Reino de Deus. Mas, por estar fundado sobre uma disposição particular da vontade divina, não se pode dizer que o Estado seja autônomo, que poderia existir fora do Reino de Deus.

Ora, a questão ética e o desafio da justiça, propostas pela Igreja, são ações que devem estar presentes no fazer do Estado. Talvez possamos entender isso, por oposição, quando Antônio Ermírio, afirma que o presidente George W. Bush compareceu ao paraíso da livre iniciativa, a Bolsa de Wall Street, para dizer que o governo vai intervir na economia, exigindo dos agentes econômicos seriedade e ética.

Tal atitude, conforme escreve o empresário brasileiro, chamou a atenção por ser inusitada, já que os republicanos odeiam a idéia de por cabrestos ao livre comércio e ao capital financeiro, mas teve pouco efeito, pois sobre o próprio presidente Bush e seu vice, Dick Cheney, recaem graves suspeitas.

A princípio, ética, justiça e compromisso social devem estar presentes na Igreja e no Estado. Por esta razão, afirma Barth, não se pode falar de uma diferença absoluta entre o Estado e a Igreja por um lado, e o Estado e o Reino, por outro. Donde, desde o ponto de vista cristão, o Estado e sua justiça são uma parábola, uma analogia, uma correspondência do Reino de Deus, que é o objeto da fé e da proclamação da Igreja.

A comunidade civil, para Barth, constitui o círculo exterior em cujo interior se inscreve a comunidade cristã. A comunidade cristã diferencia-se pelo princípio da fé que confessa e no qual está fundada e pela tarefa que lhe corresponde, a proclamação do Reino. As duas comunidades, no entanto, têm o mesmo centro. Assim, a comunidade civil se encontra na relação analógica com a verdade e a realidade da segunda; analogia no sentido de que o Estado é capaz de refletir, indiretamente, como um espelho, a verdade e a realidade do Reino que a Igreja anuncia.

Mas essa relação é dialética. O Estado, por atuar dentro de limites próprios, como reflexo da verdade e da realidade cristã, não é intrínseca e existencialmente justo. Ao contrário, sua justiça e seu compromisso social estão sempre ameaçados. E por isso deve se perguntar até que ponto está cumprindo com suas tarefas de justiça.

É a esta conclusão que Antônio Ermírio chega por outras vias. Ele diz que a credibilidade é uma mercadoria escassa e que o Brasil não está fora disso. Explica que certos candidatos juram que vão respeitar os contratos das dívidas interna e externa, mas, ainda assim, o mercado financeiro duvida. E como conseqüência, empresas e pessoas se desfazem de títulos públicos com medo de sofrer um calote futuro.

Comunidade cristã, uma presença necessária

Ora, explica Karl Barth, para preservar a comunidade civil da decadência e da ruína é necessário recordá-la de quais são as exigências desta justiça que deve representar. A comunidade civil, pois, precisa desta analogia. Por esta razão necessita de um quadro histórico cujo conteúdo possa ajudá-la a chegar a ser uma analogia, uma parábola do Reino de Deus, permitindo cumprir as tarefas da justiça civil.

Mas, nesses assuntos, a iniciativa humana não pode orientar-se somente por si mesma. A comunidade civil, como tal, não conhece nem o mistério do Reino de Deus, nem o centro escondido do qual depende. E diante do testemunho e da mensagem da comunidade cristã permanece neutra, quando não opositora.
Portanto, a comunidade civil busca sua água nas cisternas rachadas do direito natural. Por si mesma não pode lembrar-se do critério verdadeiro de sua justiça, nem se colocar em movimento para cumprir as tarefas desta justiça. Precisa da presença às vezes incômoda da atividade que se desenvolve ao redor do centro comum dos dois domínios: a presença da comunidade cristã no exercício de sua co-responsabilidade política. Assim, sem ser o Reino de Deus, continua Karl Barth, a comunidade cristã sabe algo dele, crê, espera e ora no nome de Jesus Cristo e anuncia a excelência deste nome sobre todos os outros. Nesse ponto não é nem neutra, nem impotente. Quando passa ao plano político para tomar sua parte de responsabilidade não abandona sua atitude comprometida, a atitude de fidelidade ao único Senhor.

E é isso que Antônio Ermírio não entende, ao afirmar que a credibilidade vai a zero quando as pessoas mais atentas vêem partidos de origem socialista se coligando com partidos de origem liberal, com o propósito único de vencer as eleições. Para o empresário, isso traduz o oportunismo que veio dominar a política brasileira.

Sabemos que o Partido Liberal tem um relacionamento político com parte da Igreja evangélica. Assim, se para alguns uma aliança com os socialistas é uma contradição, numa leitura barthiana, tal aliança tem lógica, porque tem por base a justiça civil e o comprometimento social que devem nortear a ação política cristã.

Ou como afirma o próprio Barth, para a Igreja, aceitar a parte de responsabilidade que lhe corresponde significa tomar uma iniciativa humana que a comunidade civil por sua parte não pode tomar. Significa dar a comunidade civil um impulso que ela não pode dar a si própria, fazê-la lembrar das coisas que a comunidade civil não sabe lembrar por si mesma.
Discernir, julgar, eleger no plano político implica sempre para a Igreja ter que aclarar as relações que existem entre a ordem política e a ordem da graça, para azar de todo aquele que possa obscurecer esta relação.

A Igreja e a realidade da graça

Entre as diversas possibilidades políticas, explica o teólogo, os cristãos saberão discernir e eleger aquelas cuja realização leve a uma analogia, a um conteúdo de sua fé e de sua mensagem. Os cristãos se encontrarão ali onde a soberania de Jesus Cristo, acima de todas as coisas de ordem política ou de outras ordens, não é obscurecida, mas evidente. A comunidade cristã exige que a forma e substância do Estado, neste mundo caduco, orientem os homens em direção ao Reino de Deus e não os distanciem. Não pede que a política humana coincida com a de Deus, mas sim, que na imensa distância que a separa daquela, seja paralela. Pede que a graça de Deus, revelada de cima e atuando aqui em baixo, se reflita na totalidade das medidas exteriores, relativas e provisórias assumidas pela comunidade dentro dos limites das possibilidades que este mundo oferece.

Concordamos com Antônio Ermírio, quando diz que o mundo e o Brasil vivem uma quadra de incredulidade. E que essa situação não é boa para a economia, nem para a política. E mais ainda, quando afirma que os seres humanos são racionais, mas se guiam também por atos de fé e que os eleitores precisam de confiança para tomar decisões.

Antônio Ermírio também diz que na incerteza e na descrença, o investimento é adiado e o voto é desperdiçado. E que isso não pode e não deve acontecer. Cada um no seu canto tem a importante tarefa de agir de acordo com a sua consciência. Será um bom começo para restaurar a credibilidade. Menos teatro e mais sinceridade.

Sem dúvida, este é um dos papéis da Igreja, restaurar a credibilidade. Ou, voltando a Barth:

É, pois, em primeiro e último lugar, diante de Deus - este Deus que em Jesus Cristo revelou sua misericórdia aos homens - que a Igreja exerce sua responsabilidade política. Todas suas decisões políticas (discernir, eleger, julgar, querer) têm por isso valor como testemunho, que não é menos real por ser um testemunho implícito e indireto. Sua ação política é pois, também, uma forma de confessar sua fé. Exorta à comunidade civil para que saia de sua atitude de neutralidade, de ignorância espiritual, de seu paganismo natural, para comprometer-se junto com ela, diante de Deus, em uma política de responsabilidade compartida. Desencadeia, além disso, o movimento histórico cujo fim e conteúdo são fazer da cidade terrestre uma parábola, um sinal analógico do Reino de Deus, permitindo a esta cumprir com as tarefas da justiça civil.





Opinião do Leitor