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Memórias de Toulouse
[Toulouse, 26 de maio de 2003] -- Estou hospedado no Hotel de France, dividindo um apartamento com o professor Jean Richard, diretor da Faculdade de Ciências da Religião na Universidade Laval, em Quebec, no Canadá. O hotel é confortável, mas sem luxo. Fica na Rue d´Austerlitz, ao lado da praça Wilson, florida e cheia de restaurantes com mesas nas calçadas. Ótimo lugar para ler despreocupado, comer devagar e ver o movimento.
Tirei esses dias da viagem para estudar mais uma vez a carta de Paulo aos Romanos. Estou usando o texto francês da Bíblia de Jerusalém e o comentário do professor Guy Lafon, professor de teologia do Instituto Católico do Paris.
Na abertura do Colóquio Internacional da Associação Paul Tillich em Língua Francesa, Jean Richard falou sobre "Doutrina social, teologia da libertação e socialismo religioso". Ele é hoje um dos especialistas em Paul Tillich. É também um dos responsáveis pela tradução para o francês das obras do período alemão de Tillich. Dessas, três devem ser citadas por sua importância para a Teologia da Cultura: "Christianisme et socialisme", "Écrits contre les nazis", e "La dimension religieuse de la culture".
Para Richard, conforme expôs em sua Comunicação, "o horizonte filosófico e teológico de Tillich, nos anos 1920, tem uma amplidão surpreendente. Desde 1919, ele dirigiu seus estudos sobre a questão do socialismo religioso, a partir da idéia de uma teologia da cultura e do princípio protestante".
"Segundo a interpretação que Tillich faz, explica Jean Richard, é o princípio protestante que permite superar a dicotomia do profano e do sagrado, do natural e do sobrenatural. Isto porque a justificação pela graça significa que a graça da salvação opera independentemente das condições religiosas: tanto na ordem do profano como na ordem do religioso".
"É neste sentido que Tillich vai interpretar a expressão socialismo religioso. O socialismo religioso não é o socialismo da Igreja; nem um socialismo consagrado pela religião, um socialismo absolutizado. É um movimento plenamente profano, mas que na sua profanidade se abre para a transcendência do Incondicionado".
"Tal conceito aparece junto com a elaboração filosófica e teológica do socialismo religioso que Tillich situa no quadro de uma teologia da cultura. Fica evidente que Tillich, desde o início de seus estudos, sobrepõe a oposição entre libertação sociopolítica e salvação cristã, oposição que não é, no fundo, mais que uma figura da dicotomia entre natural e sobrenatural, profano e sagrado", afirma o professor canadense.
Gosto de ver o Garonne, rio limpo e azulado que banha a cidade. Ao lado de sua margem direita, perto dos jardins da praça Saint Pierre, há um bar agradável com internet. Dele escrevo e-mails de amor para Naira. Nos dias ensolarados que estou tendo a bênção de viver aqui, o azul suave do rio se confunde com o céu e faz contraste com o rosa da cidade.
Eu e Jean Richard temos trocado umas quantas idéias sobre o socialismo religioso de Tillich, que entendemos como uma crítica a toda forma de socialismo, ou de política, que quer se absolutizar, que se coloca acima do Incondicionado.
"O socialismo que queremos, disse Tillich, é aquele que coloca na teoria e na prática a questão da possibilidade de que a vida tenha sentido para todos os indivíduos da sociedade e que se esforce para responder a esta questão no plano da realidade e do pensamento".
"Tal socialismo não é apenas um movimento político, é mais que um movimento proletário. É um movimento que procura apreender cada aspecto da vida e cada grupo da sociedade". [Christianisme et Socialisme, Écrits socialistes allemands (1919-1931), Les Éditions du Cerf, Éditions Labor et Fides, Les Presses de l'Université Laval, 1992, p. 346].
Mas toda estrutura política pressupõe poder e, conseqüentemente, um grupo que o assume. E como todo grupo de poder é também um conglomerado de interesses opostos a outras unidades de interesses, sempre necessita correção.
Assim, quando no poder, todo grupo, seja socialista ou não, necessita de correção. É o que justifica a democracia e a faz necessária enquanto sistema que incorpora correções contra o uso errôneo da autoridade política. [Paul Tillich, Teologia de la cultura y otros ensayos, Entre la heteronomia y la autonomia, Buenos Aires, Amorrortu Editores, 1974, pp. 239-240].
Toulouse é um centro intelectual da ordem dominicana. E nós, a convite, estamos usando para nossas palestras e debates as dependências da Faculdade de Teologia do Instituto Católico. A universidade católica de Toulouse nasceu em 1229. É gostoso estar aqui. Esse antigo convento medieval, cheio de histórias, convida ao silêncio e à reflexão.
Entro numa velha igreja dominicana, de arquitetura normanda, com linhas curvas e elegantes, sem imagens, apenas com uma cruz limpa ao fundo. Uma jovem toca música renascentista no órgão de tubos. A igreja, vazia, parece que vai levantar vôo.
Oro em Romanos, "quem poderá nos separar do amor de Cristo...", e deixo que o Espírito fale ao meu espírito.
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