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Principados e Potestades
Tenho ouvido empresários e políticos falarem com temor da crise mundial e dos difíceis caminhos da vida nacional. Há insegurança e temor no ar. Mas a pergunta que devemos nos fazer é: o que nos pode separar do amor de Deus? Para pensar os momentos que vivemos proponho que caminhemos com Paul Tillich através de um dos textos mais lindos de todas as Sagradas Escrituras:
Porque eu estou seguro de que nem morte, nem vida, nem anjos, nem principados, nem coisas do presente, nem coisas do porvir, nem poderes, nem altura, nem profundidade, nem qualquer outra coisa em toda a criação poderá nos separar do amor de Deus em Cristo Jesus nosso Senhor. Romanos 8:38-39.
Em Toulouse, quando terminamos o Colóquio Internacional da Associação Paul Tillich em Língua Francesa realizamos um culto. O ponto alto foi a leitura de um sermão, originariamente pregado por Paul Tillich em Nova York. O sermão Principados e Potestades foi depois publicado em The New Being, Charles Scribner's Sons, 1955. E também em francês: L´Etre nouveau, tradução de J. M. Saint, Planète, 1969, páginas 81 a 91.
Estas palavras de Romanos que acabamos de ler, segundo Tillich, estão entre as mais poderosas já escritas, e podem ser compreendidas nas situações mais desesperadoras. Aliás, na própria experiência dele, que foi capelão do exército alemão na Primeira Guerra Mundial, "se mostraram mais poderosas que a explosão das bombas, que o choro ao lado dos túmulos, que o gemido dos feridos e o grito dos moribundos". São mais fortes que a autocrítica dos desesperados e prevalecem sobre a angústia na profundidade de nosso ser.
Mas o que fazem delas palavras tão poderosas?
Ao analisar a riqueza do texto, Tillich constrói sua hermenêutica a partir da cosmovisão que o mundo helênico herdou de babilônicos e persas. A idéia de que o destino humano é governado pelos céus, pelo zodíaco, pelas estrelas e constelações. Assim, no mundo helênico, mensageiros e soberanos celestiais, altura e profundidade, vida e morte representam as estrelas do zodíaco, que se acreditava determinar o destino dos seres humanos e da história. Para os romanos, a quem Paulo escreve, os seres humanos estavam sob tais poderes. Por isso, várias vezes em suas cartas ele declara que Cristo conquistou estes poderes, mas em nenhuma parte ele afirma isto de maneira tão triunfal, como na Carta aos Romanos.
Mas para que as palavras de Paulo tenham poder sobre nossas vidas, elas têm que dizer algo de verdade sobre o que sentimos, a nós que não partilhamos a fé nas estrelas. Por isso, é importante entender que as palavras de Paulo nomeiam, em última instância, os poderes que têm escravizado todos nós, em todos os períodos de história. E mostram que estes poderes não têm força contra nós, porque foram conquistados por Cristo.
Quem, nos anos recentes, pergunta Tillich, não sentiu as forças irresistíveis que parecem determinar nosso destino histórico e pessoal? Tais forças dirigem nações e indivíduos em conflitos insolúveis, internos e externos, em arrogância e loucura, em revolta e desespero, em desumanidade e autodestruição. Cada um de nós é envolvido nestes conflitos, dirigido por estas forças num maior ou menor grau. A vida pessoal de cada um de nós está de algum modo determinado por elas.
Nenhuma segurança esta garantida: nem casa, trabalho, amigo, familiar, nem no campo ou em qualquer lugar do mundo se está seguro. Nenhum projeto tem cumprimento certo, todas as esperanças estão ameaçadas. Esta não é uma novidade na história humana.
As forças do destino
Dirigido pelas forças de destino, fazemos a pergunta que a espécie humana sempre se fez: que verdades e que mentiras estão atrás de tudo isso?
Tillich explica que antes de os cristãos falarem de Providência divina, os antigos já buscavam à sua maneira as origens das forças motrizes da vida e da história. No cristianismo, as palavras de Jesus, para não estarmos ansiosos pelo dia de amanhã, fortaleceu a fé na Providência. E assim a Providência tornou-se convicção comum entre os cristãos. E lhes deu coragem diante do perigo, consolação na tristeza, esperança ... Mas, diante das circunstâncias da vida, a fé perdeu profundidade. Foi privatizada e distanciou-se do caráter vitorioso que apresenta nas palavras de Paulo.
A crença na Providência pessoal e histórica, como é apresentada hoje, não tem profundidade ou fundamento real. É produto de nossas ilusões. Não é fruto da fé. A fé na Providência não é a parte mais bem compreendida da fé cristã. Um velho pastor do interior, conta Tillich, uma vez me disse: as pessoas acreditam firmemente na Providência divina, mas os conteúdos mais profundos da fé cristã, como pecado e salvação, Cristo e a Igreja são estranhos a elas. Se isto é assim, então o significado da Providência também deve ser estranho a elas e a fé delas facilmente se quebra diante das tempestades do século presente. Fé na Providência é fé. É a coragem para dizer sim à vida, apesar das forças do destino, da insegurança da existência diária, das catástrofes e da aparente perda de significado da própria vida.
É de tal coragem que Paulo fala no texto de Romanos. Mas primeiro ele fala dos poderes que tentam fazer esta coragem impossível. O que fazem estes poderes? Eles nos separam do amor de Deus. A oração de Paulo é surpreendente, pois nomeia os perigos da dor e da morte que ameaçam nossa vida diariamente. E Paulo conhece cada um deles. Ele os enumera, tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada. Mas Paulo se sente vitorioso sobre cada um deles.
Os poderes do mundo
E então enumera novamente os poderes que ameaçam nos separar do amor de Deus. Há algo misterioso sobre estes poderes. Eles não têm nomes maléficos como os que Paulo listou antes. A maioria tem nomes gloriosos: anjos, principados, vida e altura. Por que então estão entre os mais ameaçadores? Porque estão presentes em todos os momentos de nossas vidas e porque sempre têm dois lados.
São os poderes que regem o mundo e regem para o bem e para o mal. Eles seduzem pelo bem, envolvem e destroem pelo mal que contêm. Esta é a razão porque são mais perigosos do aquilo que é obviamente mau. Esta é a razão porque o triunfo sobre eles é o último teste que prova em nossas vidas que Jesus é o Cristo, aquele que traz um novo estado de coisas.
Tillich nos recomenda considerar com cuidado a natureza de cada um deles, não como se fossem estranhos a nós, mas como as forças motrizes de nosso próprio ser. Anjos e principados são os nomes de alguns deles. Essas duas palavras apontam à mesma realidade, uma realidade que tem pouco em comum com querubins agradáveis, presentes nos quadros populares de anjos. Apontam às realidades que são simultaneamente gloriosas e terríveis; realidades plenas de beleza e de destrutibilidade.
O que são estas realidades?
Elas estão em cada um de nós, em nossas próprias famílias, em nossa própria nação, em nosso mundo. Por quais sinais as reconhecemos? Por mistura de fascinação irresistível e ansiedade inconquistável que produz em cada um de nós.
O nome de um destes poderes, com sua face angelical, é amor. A poesia de todos os idiomas abunda no elogio deste soberano que rege a vida de todos os homens. Sua face angelical aparece em quadros e estátuas, sua beleza angelical soa por música, sua fascinação está expressa nas figuras de deuses e deusas pagãs. E, ao mesmo tempo, todas as obras de arte e todos os mitos estão cheios da presença trágica e mortal do mensageiro do amor. Fascinação e medo, alegria e culpa, criação e destruição estão unidas em nossas vidas. E a alegria e a angústia do amor tendem a separar-nos do amor de Deus. Nos atrai para longe de Deus, nos lança na escuridão do desespero dentro do qual não podemos ver Deus.
Outro soberano, angelical e demoníaco, é o poder. Tem a beleza severa e viril que vemos nos quadros que representam os arcanjos. O poder é um grande anjo, bom e mau. O poder é construtor e destruidor de cidades e nações. É força criativa do empreendimento humano, da comunidade humana, da realização humana. É responsável pela conquista da natureza, a organização de Estados, a execução da justiça. Seu aliado poderoso é outra figura angelical, boa e má, o conhecimento. Somos dependentes deles.
A história mundial é o domínio no qual o reinado do anjo de poder é manifesto em toda sua glória e tragédia. Nossos contemporâneos sabem disso, afirma Tillich. Todas as manhãs nos trazem notícias sobre esta realidade de nosso mundo. E todos somos tomados pela fascinação angelical de seu poder criador e pelo terror demoníaco de sua destrutibilidade em nossas vidas pessoais como também nas vidas de nossas nações. E quando o poder se associa ao conhecimento, seu fascínio e terror aumentam infinitamente. Ambos nos separam do amor de Deus, nos dirige à adoração do poder e do conhecimento, nos levam ao cinismo e desespero.
Nem altura, nem profundidade
Paulo menciona dois outros pares de realidades que podem nos separar do amor de Deus: altura e profundidade, e coisas presentes e coisas porvir. Todo mundo entende o significado delas. Para os antigos eram os momentos de maior e menor influência das estrelas sobre os humanos, para o bem e para o mal,.
Se traduzimos isso para nossa realidade, altura e profundidade são os momentos nos a vida alcança sua realização, em vitalidade, sucesso e poder, mas também alcança sua realização mais fraca, talvez seu fim. Altura e profundidade são os momentos de vitória e derrota, de cumprimento e vacuidade, de elevação e depressão, de fascinação e ansiedade. Ambos os momentos, altura e profundidade tentam nos separar do amor de Deus, por sua luz, por sua escuridão.
Coisas presentes é ponto de partida para entender o impacto do poder sedutor do presente: de nossa recusa a olhar para o passado ou para o futuro, quando somos agarrados pelo abraço do prazer agudo ou pela dor aguda do momento presente. E coisas porvir traduz a tensão ante a expectativa do novo, a alegria do inesperado, a coragem do risco. Mas também significa o que é incalculável, contingente, traduz nossa ansiedade diante do estranho e desconhecido.
Nem morte, nem vida
Quase no final de seu sermão, Tillich alerta: devemos terminar esta listagem com o par mais ameaçador, com o qual Paulo começa seu texto: morte e vida. Estes dois estão associados. A morte está presente em toda vida. Ela trabalha em nosso corpo e alma a partir do momento da concepção até o momento de nosso desaparecimento. No momento de nosso nascimento começamos a morrer e continuamos assim diariamente, ao longo da vida. Crescimento é morte, porque debilita as condições da vida até mesmo quando a vida se faz crescente. Mas não crescer é morte imediata.
Todos estamos entre a fascinação da vida e a angústia da morte e, às vezes, entre a angústia da vida e a fascinação de morte. Morte e vida são os poderes maiores, que procuram nos separar do amor de Deus.
Consideramos os poderes que regem o mundo e sobre os quais a fé na Providência deve triunfar. O que é esta fé? Não é certamente a crença de que tudo acabará bem como desejamos ou racionalizamos.
A vida, pessoal e histórica, é um processo criativo e destrutivo no qual liberdade e destino, possibilidade e necessidade, responsabilidade e tragédia estão misturadas entre si, sempre, e em todos os momentos. Estas tensões, ambigüidades e conflitos fazem com que a vida seja o que é. Elas criam a fascinação e o horror da vida. Elas nos dirigem à pergunta sobre uma coragem que pode aceitar a vida sem ser vencida por ela. E esta é a pergunta sobre a Providência.
Abandonemos a palavra Providência com todas suas falsas conotações e vejamos o que realmente significa. Significa a coragem para aceitar a vida através do poder daquilo que é maior que vida. Paulo chama isto de o amor de Deus. Este amor, certamente, está acima da figura angelical-demoníaca do amor de que falamos. Este amor é o poder último da união com Deus, a vitória última sobre a separação entre nós e nosso Criador.
Estar unido a este poder nos permite dominar a vida e estar perfeitamente inseridos nela. Este amor nos permite reinar sobre esses soberanos de duas faces, sua fascinação e sua angústia, sua glória e seu terror. Nos dá a certeza que nenhum momento nos impede de alcançar o cumprimento para o qual toda vida se dirige. É a coragem para aceitar a vida no poder em que está enraizada e onde é sobrepujada.
Mas como isso é possível? Paulo nos apresenta duas respostas. Ele conclui a listagem dos poderes governantes com as palavras: nem qualquer outra coisa em toda a criação. A primeira resposta de Paulo é: os poderes deste mundo são criaturas como nós somos. Eles não são mais que nós, eles estão limitados. Nós estamos unidos Aquele que não é criatura e que nenhuma criatura pode destruir.
É por isso que sabemos que os poderes deste mundo não podem destruir o sentido de nossas vidas, mesmo que possam destruir nossas vidas. E isto nos dá a certeza que nenhuma criatura pode destruir o significado da vida, na natureza e história, da qual somos parte, mesmo que o universo inteiro seja destruído amanhã. Nenhuma criatura pode nos separar desta coragem última.
Nenhuma? Talvez uma: nós próprios. A coragem para manter a unidade com Deus, contra os poderes e principados, inclusive vida e morte, pode estar firme, mas é quebrada quando a culpa nos separa do amor de Deus.
Então não podemos enfrentar a morte, porque a picada da morte é o pecado. Não podemos enfrentar a vida porque a culpa conduz a autodestruição. Não podemos enfrentar o amor porque o amor é corrompido pela concupiscência. Não podemos enfrentar o poder porque é corrompido pela crueldade.
Fugimos para o passado porque estamos corrompidos pela culpa, fugimos para o futuro porque ele carrega os frutos das culpas passadas, e não podemos descansar no presente porque ele nos condena e nos expulsa. Não podemos estar de pé porque diante da altura temos medo de cair. E não podemos estar de pé porque diante da profundidade nos sentimos responsáveis por nossa queda. Assim, uma consciência culpada acaba por obter aquilo que os soberanos deste mundo não podem conquistar: o debilitamento de nossa coragem para aceitar a vida.
Mas, para Paulo, nem mesmo uma consciência culpada pode nos separar do amor de Deus. Amor de Deus significa que Deus aceita aquele que sabe que é inaceitável. Este é o sentido das últimas palavras de Paulo: "em Cristo Jesus nosso Senhor".
Cristo é o vencedor sobre os soberanos do mundo porque Ele é vitorioso em nossos corações. Ele nos dá a certeza de que o julgamento que fazemos de nós próprios e nosso desespero não podem nos separar do amor de Deus, a fonte e o fundamento da coragem que nos permite encarar a vida e sermos vitoriosos.
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