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Os batistas e nossa dívida
com a Reforma


A Reforma fazia estremecer as bases do pensamento teológico e a igreja católica. Eclodia já a duzentos anos o período histórico denominado Renascimento que, basicamente, evocava elementos da Roma e Grécia antigas, contrariando os padrões de conduta e valores da Idade Média. Nesse sentido, a igreja católica e a ordem vigente, que lhe era outorgada, passavam por um duplo risco: Reforma Protestante e Renascimento.

Em ambos movimentos, a autoridade da igreja católica era contestada, sofrendo críticas quanto à supremacia e à mediação, facilitada pela questão do latim que só compreendiam os clérigos e, portanto, monopolizavam o conhecimento de Deus. Com a expansão marítima, os descobrimentos e o desenvolvimento da imprensa, a informação tornou-se acessível a um considerável número de pessoas. A Bíblia foi traduzida e publicada em outros idiomas, tornando obsoleto o papel do clero católico como tradutor da vontade de Deus aos fiéis. Todos podiam ter acesso ao conhecimento de Deus por meio da leitura pessoal das Sagradas Escrituras.

Enquanto isso, o Renascimento gerou o racionalismo, cosmovisão que responde os problemas e situações humanas à luz da razão, dando ao homem status de auto-suficiência. O homem desse período deixa de pensar e ser teocêntrico para pensar e ser antropocêntrico. Assim, nos séculos XVI e XVII a fé cristã ortodoxa é confrontada pelos pensadores racionalistas que depositavam na razão a confiança de que era a única autoridade possível no processo de conhecimento da verdade.

Os iluministas por serem contemporâneos do século das luzes -- quando idéias brilhantes faiscavam a todo tempo nas mentes aguçadas dos pensadores -- não eram irreligiosos, ao contrário do que afirmam, "entretanto, não sendo um movimento de oposição à religião, o Renascimento se insurgia, de fato, contra a ortodoxia. Desejava-se uma religião, como Kant teve oportunidade de ressaltar, dentro dos limites da razão".

Mas, como se não bastassem os constantes ataques à ortodoxia por parte dos iluministas, figura no cenário uma personagem não menos importante: a ciência.

A ciência foi representada inicialmente por dois grandes homens -- Copérnico e Darwin -- que desfilaram suas teorias científicas golpeando o meio religioso. Respectivamente, a Terra e o homem deixam de ocupar o centro do universo, tornando-se a primeira nada mais que um grão de poeira cósmica e, o homem, detentor de autoridade provinda de superioridade, foi relegado à posição de animal em processo evolutivo, nada mais que uma ameba.

A ortodoxia, portanto, defensora do homem enquanto ser criado a imagem de Deus para glorificá-lo e servi-lo, passa por uma difícil contestação, reforçada posteriormente, por Freud e Nietzsche.

Nesse contexto de efervescência intelectual, onde "verdades absolutas" eram contestadas e crenças ridicularizadas pela razão exaltada, é que o pensamento teológico protestante adquire força e começa a desenvolver-se com autoridade, caráter de resposta às questões levantadas e atitude de contestação.

Historicamente, considera-se que existem três grupos religiosos originários dos reformadores do século XVI. São eles:

Matrizes: luteranos, presbiterianos (calvinistas e zwinglianos), anglicanos e anabatistas.
Herdeiros: congregacionais, batistas e metodistas.

Vice-herdeiros: adventistas, pentecostais.

Dessa forma, podemos considerar fio condutor ou conjunto de princípios que lhes são gerais o Solus Christus, o Sola Fide e o Sola Scriptura de Martinho Lutero (1483-1546).

Influências sobre o pensamento contemporâneo

Segundo Israel Belo de Azevedo, "Denominação (...) é uma forma específica e histórica que uma igreja toma. No interior do cristianismo, as denominações podem ser vistas como conjuntos de tradições seguidas por igrejas. Os batistas integram uma denominação".

As bases do pensamento teológico contemporâneo devem ser compreendidas à luz do liberalismo do século XVII que conta com elementos formativos diversos e por isso considera-se um sistema de pensamento que prioriza a livre expressão do ser como exercício prático de uma existência validada nos níveis individual e social, a partir dos domínios sociopolítico e cultural que favorecem por meio da liberdade, o estado de conscientização que gera o sentimento de realização. Basicamente, a plataforma teórica desse pensamento encontra-se nas teses do "naturalismo, do racionalismo, do individualismo, do progressismo e do relativismo...".

Esse pensamento bifurcou-se em várias vias: o liberalismo teológico, liberalismo político e econômico, diretamente influenciados pelas tendências daquele momento histórico -- tudo submetido a crítica da razão e experiência.

Essa nova cosmovisão, como dito anteriormente, legava ao homem não o centro do universo, mas, à razão, a supremacia capaz de compreender e desvendar todos os mistérios dos cosmos. Portanto, os batistas organizaram-se como denominação plantados nos princípios liberais do século XVII. O resultado dessa reflexão, basicamente, caracteriza-se na estruturação de "igrejas livres em sociedades livres" , o que constitui também uma proposta política.

Os batistas ingleses e a busca pela liberdade religiosa

Quadro histórico
1603
Uma nova era caracterizada pela troca de dinastias: Tudors por Stuarts
Mudanças no pensamento contemporâneo: Renascimento (mentalidade desperta)
Ampla difusão das Escrituras Sagradas
Crescimento comercial
Ação puritana contra a igreja oficial. Atitude de repúdio às influências do clero na autoridade monárquica "em nome de Deus". Oposição ao totalitarismo oligárquico da igreja.
Igreja Anglicana dividida.
1604
O rei James I persegue as igrejas protestantes O rei exige a uniformidade religiosa para manter a ordem social Afirma-se como autoridade máxima na igreja e no estado.
1625
Sucessão imperial: Charles I -- nova esperança para puritanos e dissidentes
1633
William Laud assume como Arcebispo da Cantuária tornando-se a maior autoridade eclesiástica inglesa. William Laud é nomeado um dos primeiros ministros e apóia a supremacia do rei sobre a igreja e o estado. São acirradas as perseguições aos puritanos
1640
Crescem as tensões entre o Parlamento e o rei
1642
A discórdia entre o rei e o Parlamento resulta em revolução armada: Exército Modelo vs. Partido Puritano (Presbiterianismo) - vitória do último As igrejas separatistas decepcionam-se: princípios de liberdade religiosa não são adotados
1648
Formação do Protetorado de Cromwell. Propaganda das igrejas batistas dão início às mudanças a favor da liberdade religiosa.

A formação dos princípios da igreja batista

"O princípio da liberdade religiosa foi parte integrante da vida e fé dos primeiros batistas".

Uma das hipóteses em relação a citação anterior, é que a luta pela liberdade como um bem precioso para o ser humano é conseqüência das cruéis perseguições e injustiças cometidas pelo rei para com as igrejas dissidentes. Isso porque, conforme já visualizado no quadro histórico, o poder do estado centralizado na figura do rei e indiscutivelmente apoiado pela igreja oficial (católica), intentavam a uniformidade da religião objetivando a supremacia da autoridade.

As chamadas igrejas dissidentes opunham-se a esse intento, buscando exatamente o contrário: a liberdade religiosa. Por motivos político-econômicos óbvios -- detenção e monopolização dos meios de produção e organismos sociais -- tanto o rei quanto a igreja não desejam a alteração da ordem vigente.

Por essa época (1610-1612), John Smyth, primeiro pastor batista na Inglaterra, levantou a bandeira da "liberdade de consciência absoluta" , eis o início da trajetória batista de interesse e ação política engajada na busca pela liberdade religiosa.

Com relação às origens do pensamento batista, não existem evidências históricas devidamente documentadas que especifiquem de onde nasceu a reflexão teológica batista. Na verdade, existem hipóteses divergentes a respeito de suas origens. Conquanto sabe-se que a Reforma se dera a partir da ação efetiva de Lutero, Calvino e Zwinglio, logo outros nomes e movimentos foram acrescidos -- "o anabatismo, o puritanismo e o metodismo" - ao protestantismo.

Tendo como base os três princípios Sola Fide, Solus Christus e Sola Scriptura, as teologias desenvolveram-se de acordo com as interpretações dos diferentes grupos, todavia, o "eixo central (...) era praticamente o mesmo. Todos aceitaram o princípio básico da justificação pela fé, nada cabendo ao mérito humano, já que a fé é um Dom de Deus e não uma conquista humana. Mesmo os anabatistas, que tinham preocupações teológicas menos sistemáticas, concordavam que a salvação era pela fé, embora reinterpretassem o conceito para incluir nele a noção (um pouco mais mística) de uma nova vida habitada por Cristo".

Ênfases teológicas que marcaram os batistas

Lutero: Teologia Cristológica; predestinação dos eleitos; igreja como comunidade dos santos em Cristo; estado como ordenança.

Calvino: Bíblia suprema autoridade; igreja como comunidade dos santos em Cristo.

Zwinglio: Interpretação normativa da Bíblia; igreja como comunidade dos santos em Cristo.

Anabatistas: A Palavra de Deus como fonte experimentada pela iluminação do Espírito Santo; regeneração necessária para a vida nova; igreja como associação voluntária de santos; completa separação entre a igreja e o estado.

ANEXOS

Origem dos batistas:
1. Congregacionais ingleses (anglicanos e puritanos) - batistas


2. 1609 - perseguição e mudança para a Holanda.
Os pré-batistas voltam para Inglaterra, acompanham Helwys, e assumem uma abordagem teológica calvinista moderada.

Champlin, R. N., Bentes, J. M. Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. São Paulo: Candeia, 1991. V. I.

Anexo II

Declaração doutrinária [Convenção Batista Brasileira] sobre a Eleição:

Segundo Sua graça imerecida, Deus opera a salvação em/através de Cristo, de pessoas eleitas (desde a eternidade), chamadas, predestinadas, justificadas e glorificadas à luz de Sua presciência e de acordo com o livre arbítrio de cada um e de todos.

I Pe 1.2; Rm 9.22-24; I Ts 1.4; Rm 8.28-30; Ef. 1.3-14.

Todos são eleitos
Deus opera a salvação em/através de Cristo pela sua graça (favor imerecido) Deus é pré-ciente De acordo com o livre-arbítrio, desde a eternidade, Deus elege, chama, predestina, justifica e glorifica.

Anexo III

Guilherme Dell

Conhecido por suas fortes convicções teológicas a respeito da livre expressão do ser e defensor ferrenho dos princípios batistas, apesar de não ter ligação com nenhuma congregação, em 1646, destacou-se pela sua luta a favor da liberdade religiosa na Inglaterra.

Escreveu o livro intitulado Uniformidade Examinada (...) que postulava a tese de que a unidade deve existir sem uniformidade, uma vez que a última era má e intolerável excluindo toda a liberdade concedida por Deus. Essa era uma nova argumentação favorável a liberdade religiosa.

Outra questão estava no fato de que a uniformidade contraria a própria mensagem de Cristo e forçava a igreja, que é o corpo de Cristo, a portar-se de maneira externa aos seus princípios, por meio de um poder estabelecido e, sem o aval de Deus, a religião seria um movimento anticristão, considerado por Dell, pior que o paganismo.

"Dell usou cada oportunidade que teve para defender liberdade de consciência. Ele considerou o uso de coação uma invenção humana, algo deletério que não tinha lugar no reino de Cristo". (Zaqueu Moreira de Oliveira, Liberdade e Exclusivismo: Ensaios sobre os Batistas Ingleses. Rio de Janeiro: Horizonal; Recife: STBNB Edições, 1997. pp. 104-106).

São Paulo, sexta-feira, 31 de outubro de 2003.
Prof. Jorge Pinheiro





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