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Quando analisamos os conflitos vividos pelas primeiras comunidades cristãs na Galácia, geradas pelas desigualdades raciais e religiosas (judeu/grego), sociais (escravo/livre) e de gênero (homem/mulher), vemos que o apóstolo Paulo propõe uma radical transformação daquela situação: que a unidade da igreja em Cristo leve as comunidades cristãs a viverem em igualdade e liberdade. Na verdade, o apóstolo propõe, em última instância, que as divisões entre as pessoas, oriundas de raça, condição social ou sexo, desapareçam.
As fronteiras da igualdade e da liberdade
Não há judeu nem grego,
não há escravo nem livre,
não há homem e mulher;
pois todos vós sois um só em Cristo Jesus.
Este artigo teve origem com a tese de doutorado de Joel Antônio Ferreira, A abertura das fronteiras rumo à igualdade e liberdade: a perícope da unidade em Cristo - Gálatas 3.26-28, defendida na Faculdade de Filosofia e Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, em São Bernardo do Campo, em 2001.
Esses versículos de Paulo, segundo Ferreira, são a chave para se entender todo a carta. Pois é a partir dela que Paulo discorre sobre a possibilidade da superação das desigualdades raciais e religiosas, sociais e de gênero na igreja. E o fundamento do argumento de Paulo é a unidade em Cristo, que possibilita a igualdade e liberdade, e que conduz à unidade do corpo de Cristo.
Assim, Gálatas 3.26-28, coração da carta aos gálatas, faz uma proposta de abertura de fronteiras, de derrubada de muros, de superação de conflitos e antagonismos que dividem a igreja.
Sem dúvida, Paulo apresenta questões desafiadoras para os cristãos. Igualdade e liberdade desafiam a igreja de hoje, quando leituras tendenciosas fazem uma perigosa releitura da eclesiologia e do evangelho. Ou como diz Valmor da Silva, atento crítico do trabalho de Joel Antônio Ferreira, "as assimetrias econômico-social, étnica e de gênero são mais presentes hoje do que nunca. Tais pressupostos hermenêuticos asseguram a atualidade do texto bíblico para os dias atuais e para o nosso continente".
Desafiado por essas duas questões - igualdade e liberdade -, Ferreira utilizou o modelo conflitual de leitura sociológica para detectar as contradições nas comunidades da Galácia do Norte. E viu que os conflitos eram gerados por disparidades raciais, sociais e de gênero, e que o apóstolo Paulo acreditava que podiam ser superados pela unidade em Cristo.
Assim, Paulo propõe a superação das barreiras de raça, condição social e sexo e dirige a igreja aos fundamentos da unidade através da superação das discriminações e da abertura de fronteiras para uma comunidade de onde todos tenham as mesmas possibilidades.
A abrangência trabalhada por Ferreira, nos leva a uma reflexão sobre três assuntos que estão imbricados na abertura de fronteiras: igualdade; liberdade e unidade em Cristo.
Assim Paulo, como bem analisou Ferreira, nos obriga a repensar às questões de etnia, escravidão e gênero, extrapolando as paredes da igreja e apresentando ao mundo uma proposta de abertura de fronteiras, onde haja aequalitate, paridade, iguais direitos e oportunidades, e libertate, de tal forma que cada pessoa possa dispor seu arbítrio, em pleno gozo dos direitos de ser humano autônomo diante de sua consciência e de Deus, como imagem dEle, que tem garantidos seus direitos à existência e à vida.
E isso me faz lembrar Rudolf Bultmann, quando diz:
"Ao homem que se lamenta: 'Não consigo ver significado na história, e, portanto, minha vida, entrelaçada com ela, também é destituída de significado', respondemos: não fiques olhando ao redor de ti, para a história universal, mas olha para tua história pessoal. O sentido da história sempre está contigo no teu presente, e tu não podes vê-lo como mero espectador, mas somente em tuas decisões responsáveis. Em cada momento dorme a possibilidade de vir a ser o momento escatológico. Cabe a ti despertá-la". [R. Bultmann, Storia ed escatologia, Milão, Bompiani, 1962, p. 176].
Esta é a mensagem de Paulo para os gálatas, ontem, e para o mundo, hoje: Se formos um só em Cristo Jesus - e é isso que deve ser buscado --, nem a igreja, nem a sociedade humana podem estar divididos entre judeus e palestinos, entre miseráveis e poderosos, entre homens e mulheres.
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